Entre críticas e elogios, a maioria dos lançamentos audiovisuais deste ano baseiam-se em livros e são a porta de entrada de muitas pessoas para a literatura
Por Maria Clara Batista

Lançamentos desse ano.
O ano de 2026 está recheado de lançamentos de adaptações literárias. Desde as telas do cinema até os streamings, do suspense ao romance, as novas produções movimentam legiões de fãs e levantam discussões sobre o que é uma boa adaptação e sobre os rumos do cinema.
As primeiras adaptações literárias foram feitas no final do século XIX para auxiliar no cinema. Como os filmes eram curtos e mudos, usar personagens e enredos já conhecidos facilitava o entendimento do público. Clássicos como Cinderela e Drácula vieram de livros.
Apesar disso, foi a partir de 2010 que as adaptações literárias passaram a ser amplamente produzidas. Segundo pesquisa da coluna The Rewind Zone, 75% dos filmes produzidos em 1984 eram obras originais. Em contrapartida, na década de 2010, mais de 70% das produções audiovisuais foi baseada em livros. O sucesso de sagas como Jogos Vorazes e Crepúsculo, fizeram a indústria cinematográfica perceber que adaptar livros garantia um grande público para o filme.
Em 2020, com a pandemia, a leitura voltou a crescer entre os jovens, que além de ler, passaram a criar conteúdo sobre literatura para a rede social Tik Tok, o que ficou conhecido como ‘booktok’. Nesse cenário, as adaptações literárias continuaram a crescer e a ganhar novas formas. Com as plataformas de streaming, muitas adaptações foram feitas na forma de série, como Bridgerton da Netflix e Heated Rivalry da HBO. O ano de 2026 marca o ápice dessas produções, com mais de 32 adaptações, que vão desde romances, como o seriado “Off Campus”, até clássicos da literatura, como a grandiosa “Odisseia”.
Mesmo após tantos anos e diante de tantas exigências dos fãs para que as novas produções sejam iguais à obra original, uma pergunta ainda ronda a indústria cinematográfica: o que torna uma adaptação literária boa?
Para Mariana Vitório, estudante de Letras da USP, o importante para uma boa adaptação é conseguir transmitir a essência da obra. “O que torna uma adaptação literária boa é ela não necessariamente copiar tudo que está na obra original, mas quando ela consegue compreender o ponto central daquela obra e trazer a essência dela para o cinema. São linguagens diferentes e exige esse movimento de saber reconhecer o que é que precisa ser reportado”.
Com o advento da internet, as críticas às adaptações literárias se tornaram maiores. Por já possuírem muitos fãs, quaisquer mudanças nas novas produções levantam debates nas redes. Para a leitora Kelly Santana, as diferenças são normais e até necessárias.
“Considerando que as adaptações geralmente são de livros de 300 a 400 páginas ou até mesmo de sagas maiores, transmitir tudo isso num filme de 2 horas é difícil. Também tem a questão do politicamente correto da atualidade, algumas obras carregam pautas que na época em que foram lançadas não eram tão discutidas, mas que se colocadas em discussão hoje, precisam e devem ser feitas de forma correta”, disse a jovem.
Muitos autores buscam corrigir erros cometidos nos livros quando lançam adaptações. Um exemplo é o autor Rick Riordan que não possuía tanta representatividade nas suas obras e buscou através da série de Percy Jackson, que terá nova temporada em novembro, inserir. A protagonista Annabeth, que no livro é branca e loira, é interpretada pela atriz negra Leah Jeffries.
Mirella Meira, graduanda de Audiovisual da USP, também acredita que as mudanças nas adaptações literárias são necessárias, mas entende o lado dos fãs. “Quando um livro vira obra cinematográfica, esperamos que ela seja fiel à obra original, afinal, é à ela que nos apegamos desde o princípio. Mas como profissional de audiovisual, acredito que pode haver controvérsias. Quando falamos da obra literária, não existem limitações, mas quando vamos trazer a obra para a realidade a situação é outra. As produções podem sofrer diversas limitações que tornam necessárias mudanças, como locações, investimentos, montagem”, afirmou.
Pela maioria dos lançamentos audiovisuais de 2026 serem adaptações literárias ou remakes, correntes na internet começaram a questionar se o cinema não estaria perdendo sua originalidade.
Mariana acredita que contar histórias já conhecidas pode acabar reduzindo o espaço de roteiros originais, mas também entende a adaptação como um meio de criar e inovar. “Eu acho que as adaptações não eliminam a atividade do cinema, porque adaptar também é criar. Adaptar exige uma série de escolhas, como do recorte que será feito na história. E isso é uma forma de criação, onde você reinterpreta a obra para adaptar a uma linguagem diferente”, disse a graduanda em letras.
No meio de tantas críticas e elogios, as adaptações literárias continuam sendo a porta de entrada de muitas pessoas para a literatura. Diversos espectadores gostam da nova produção e mesmo sem o costume da leitura, buscam os livros para continuar a consumir sobre aquele universo.
Kelly concorda. “Geralmente são fãs da obra original que levantam as hashtags e geram repercussão nas redes sociais, então essa movimentação acaba alcançando outras pessoas que não fazem ideia do que se trata, assistem e tem curiosidade para ler os livros”, disse em entrevista ao jornal Contexto.
Cinema nacional
As adaptações literárias também são uma maneira de globalizar produções nacionais. O livro “Quinze Dias”, de Vitor Martins acabou de ganhar um filme. O longa passou nos cinemas do Brasil e agora está na Netflix. Espectadores de todo o mundo estão assistindo a obra, o que alavanca tanto a literatura quanto o cinema brasileiro.

Foto: divulgação. Poster do novo longa nacional.
Para Mirella, essa foi a melhor produção do ano. “Gostei muito do enredo do filme e principalmente dos personagens principais. A direção de arte também é um desses motivos, os cenários são lindos e as cores conversam com a situação dos personagens a todo momento. Das produções adaptadas lançadas esse ano, essa na minha opinião é a melhor”, afirmou a estudante.
Próximas lançamentos
A Hipótese do Amor, 23 de setembro no Prime Video
Razão e Sensibilidade, 16 de outubro nos cinemas
Verity, 2 de outubro nos cinemas
Jogos Vorazes: Amanhecer na Colheita, 19 de novembro nos cinemas
Duna: Parte Três, 17 de dezembro nos cinemas
Harry Potter, 15 de dezembro no HBO Max
