Por Ana Marques

Desde as câmeras analógicas que todo mundo quer ter até as calças de cintura baixa, passando pela volta do vinil e de artistas que se apoiam em uma estética mais antiga, dos anos 40, 50 e 60, o que vemos hoje em dia é o retorno do retrô como tendência estética.
Essa tendência, hoje em dia, é responsável por 50% do sucesso na indústria musical. Essa moda veio com tudo, principalmente a partir de 2020. O antigo virou referência; o retrô é desejado.
Não é só mais uma tendência cíclica que voltou depois de um tempo, como todas um dia voltam, mas o antigo que se tornou uma referência estética na produção atual: artigos novos com aspecto de antigo. Uma tendência estética que pode ser compreendida também como uma tendência social.
A verdade é que existem diversos motivos para o retrô estar em alta, mas um deles evidencia uma tendência política muito perturbadora: a preservação de uma memória idealizada do passado, que, por sua vez, denota uma inclinação conservadora na sociedade atual.
Pensar o porquê de artistas se utilizarem dessa ferramenta estética pode ser um bom questionamento sobre a mensagem que querem passar com a sua arte, mas o mais importante seria questionar por que essa estética gera tanto engajamento e tantos cliques por parte do público.
O que estava acontecendo nos anos 40, 50 e 60?
Os anos 40, politicamente, foram marcados por grande polarização, com a ascensão do nazifascismo e do totalitarismo. A guerra gerou violência e mortes, além do Holocausto, causado pelo regime nazista alemão, que matou milhões de judeus e outros grupos minoritários.
Nos anos 50 e 60, a Guerra Fria dominou o cenário político, com mais polarização e um embate que não se concretizou diretamente, mas que gerou insegurança em todo o globo.
Portanto, a preservação de uma memória idealizada do passado, como se este fosse simplesmente bonito por causa das roupas ou da estética em geral, é uma irresponsabilidade social que ignora o sofrimento de tantas pessoas.
O que isso tem a ver com o conservadorismo?
Atualmente, a sociedade tem enfrentado uma grande onda conservadora, que valoriza os costumes e tradições do passado como se a sociedade da época não tivesse seus próprios problemas sociais.
Em uma pesquisa da Ipsos-Ipec de 2025, 49% da população brasileira se enquadra em um perfil conservador. Em outros países, a tendência não é diferente, já que o mundo todo tem enfrentado polarização política e radicalização dos indivíduos de maneira geral. Isso pode ser percebido por meio das escolhas de líderes políticos e das guerras recentes que vêm ocorrendo.
Por isso, essa tendência se torna perigosa, pelo tipo de mentalidade que predomina na sociedade atual. A falta de uma crítica bem estruturada em produções que se utilizam dessa estética pode contribuir para reforçar ideias já muito perpetuadas de idealização do passado.
Um olhar mais positivo
No entanto, não se pode ignorar como essa moda do retrô também pode ser utilizada como forma de reconexão com o passado e de ressignificação. Pode servir para valorizar os movimentos sociais de épocas anteriores e as diversas formas de resistência contra o sistema vigente.
Muitos estilistas utilizam essa nostalgia sentimental para restabelecer memórias por meio da modelagem, da silhueta das roupas etc.
Além disso, outra justificativa para a alta dessa tendência é o próprio mercado da moda, que exige uma produção rápida atualmente. Muitos profissionais usam referências de coleções passadas para guiar visualmente suas novas criações, devido ao pouco tempo que a indústria exige para a produção de novos artigos de vestuário.
A moda vintage também indica uma consciência social em relação à sustentabilidade. Utilizar produtos antigos para compor os looks, em vez de comprar novos constantemente, ajuda a frear o consumismo.
O retrô resgata uma memória social de épocas passadas que pode servir como identificação e autenticidade no momento de escolher as roupas. No entanto, também pode trazer uma nostalgia idealizada que não oferece uma perspectiva real do que se vivia na época — uma romantização que impede a percepção de quantos direitos importantes foram conquistados no presente.
