Problema revela a hostilidade dos alunos e a precariedade do ambiente escolar para o professor da rede pública
Por Nicole Rodrigues de Carvalho

A professora Patricia Carretero. | Foto: acervo pessoal
As recentes greves do sindicato de professores no município de São Paulo têm elevado debates sobre a insalubridade do ambiente de sala de aula do ensino público, assim como revelado a hostilidade no padrão de comportamento dos alunos das gerações ‘alfa’ e ‘z’, o que afeta diretamente a qualidade de vida e, ainda, a dignidade do professor da rede pública.
Dados recentes do Centro Universitário de Brasília (CEUB) apontaram a presença de depressão em 66% dos professores, além de ansiedade em 55,7%, com a maior prevalência de sintomas nas mulheres (71,56%), em relação aos homens (38,64%).
“Por conta da reforma da previdência, tenho que trabalhar mais 7 anos em sala perante níveis de indisciplina record dos alunos, em um ambiente extremamente insalubre que é a sala de aula”, alega Patrícia Carretero, professora da rede pública há 32 anos, em entrevista ao Jornal Contexto.
Patrícia destaca a indisciplina como causadora primária do ambiente escolar degradante, o que se agrava com a ausência de compromisso perante a formação básica do aluno por parte de algumas famílias, direcionando, principalmente às mulheres da área, o peso de certas responsabilidades idealmente assumidas pelos pais/tutores.
“Na minha visão, os alunos não têm mais limites em casa, sendo que as famílias transferiram a educação dos seus filhos para a escola. Tudo cai na conta do professor. Se o aluno não aprende, ‘o professor não sabe ensinar’, e cada vez mais se isenta a participação familiar na formação da criança, do adolescente como ser humano.”
Ademais, a profissional argumenta que a maior parte da categoria é ocupada por mulheres, e que a figura feminina, culturalmente preparada para ‘dar conta de tudo’, é cobrada da mesma forma enquanto profissional da área. “Para nós mulheres, mães e professoras, é uma tripla jornada de trabalho”, exclama Patrícia.
Neste contexto, dados do Senado Federal revelam que 6% dos casos de violência a crianças e adolescentes acontecem dentro de casa. Evidencia-se, portanto, a falta de estrutura familiar como ponto chave para a sobrecarga emocional do aluno, o que se estende ao professor, como problematizado pela profissional. “Têm casos ainda de alunos que sofrem abuso sexual dentro de casa, que já encaminhamos pro conselho tutelar, mas que não tem retorno. Aí eu me pergunto, como uma pessoa consegue manter qualquer nível profissional com salários defasadíssimos, pagando a mesma quantidade de impostos que jogadores de futebol da seleção, ainda tendo que lidar com esse leque de responsabilidades”, diz a professora.
Paralelamente, Patricia contextualiza por meio de relatos pessoais a questão de problemas com endividamento por parte dos professores, muitas vezes por precisarem arcar com seus próprios custos médicos visto a ineficácia do sistema público de saúde. “É muito difícil conseguir até mesmo exames quando nos vemos urgentemente sem saúde mental – professores com Burnout, stress, Síndrome do Pânico.”
Patrícia integra apenas uma parte de centenas de registros sobre violência física e psicológica sofridas por professores nos últimos anos dentro do ambiente escolar. Casos como xingamentos, arremesso de objetos, urina arremessada de fora para dentro da sala de aula, são apenas algumas dentre milhares de ocorrências registradas pela APEOESP (Sindicatos e associações de professores).
Um vídeo de Georgia Kimura, profissional da educação há mais de 10 anos, recentemente teve grande repercussão nas redes sociais. Georgia declara ter sido hostilizada por alunos que, atrasados após o intervalo, insistiam em ficar com os pés em cima ou sentados nas carteiras. Após múltiplas tentativas frustradas de pedir para que os alunos apresentassem postura minimamente coerente em sala, os mesmos retaliaram com xingamentos. “O diretor pediu pra gente entrar dentro da sala, não falou como eu tenho que ficar” relatou Georgia.
Outro caso registrado recentemente nas redes sociais trouxe força para a mobilização docente em resposta à hostilidade no ambiente escolar. “Aluno xinga, aluno bate, aluno grita e quem tá errado é a gente… É isso que o Estado quer, que a gente seja desrespeitado o tempo inteiro por aluno, por gestão, por supervisão. A gente é só desrespeitado…” lamentou Silvia Prado, professora que, após ser agredida fisicamente em sala de aula, aos prantos registrou uma crise de pânico que, por fim, publicou em seu perfil nas redes sociais.
“Passamos a viver, então, a base de psiquiatria, remédio, calmante. Mesmo sendo tanto cobrado nós darmos conta de tudo, o limite humano não aguenta… porquê se não conseguirmos, no fim das contas, a culpa é ‘nossa’.” alegou Patrícia Carretero ao final da entrevista.
