Negócio familiar une tradição e inovação para ajudar a expandir o setor nacional

Por Danielle Ribeiro

A fachada harmônica recepciona os clientes que entram na floricultura. Logo na entrada o cheiro de café quentinho invade as narinas de quem chega e se depara com um amplo espaço florido. Em frente, à direita, é possível ver um lago com carpas nadando em um ambiente de sombra fresca. Bromélias, guaimbês e palmeiras pequenas enfeitam o cenário à sua volta, uma parede verde de samambaias compõem o mural e ao centro está posicionada a placa da floricultura Bom Jesus.

O trabalho começa cedo, antes das oito da manhã. Terça e quinta são os dias mais agitados, que é quando chegam as novas remessas de flores, vindas da Veiling Holambra por meio dos leilões onlines. A força tarefa para atender a demanda de pedidos exige organização por parte da família, que faz a separação das encomendas, a venda no atacado para outras floriculturas da região e a montagem dos arranjos. O café começa a ser preparado, as flores são regadas e as redes sociais são atualizadas com os novos produtos.

“A flor está em todo momento na vida das pessoas. Você pode utilizar a flor desde quando você nasce até quando você morre. Você pode dar flores quando briga, quando está apaixonado ou quando quer alegrar a vida de alguém. Se você vai em qualquer evento, as flores e plantas estão presentes”, reflete Marcelo, um dos donos da Bom Jesus.

Fundada em 1996, a partir de um pequeno viveiro de flores e plantas, o objetivo era o comércio de materiais para jardinagem. Com a intenção de expandir o espaço e alcançar mais clientes, a floricultura mudou-se mais quatro vezes até chegar em sua localização atual, um bairro nobre na zona sul de Bauru.

Em 2026, a floricultura completa 30 anos de história, tradição e comércio familiar. Arte: Danielle Ribeiro.

A família Kanashiro, fundadora da floricultura, é formada por Marcelo, seus dois irmãos e sua mãe. Juntos, eles dividem as tarefas e comandam o estabelecimento.

Marcelo fica responsável pelo setor financeiro e a compra das flores e plantas; seu irmão, cuida das plantas paisagísticas e aquelas que precisam de sol, como girassóis e azaleias; sua irmã, compra as flores de corte e garante arranjos para buquês e decorações, com rosas, lírios e cravos, por exemplo; e sua mãe, fica encarregada dos materiais para plantação.

As flores mais procuradas na floricultura são orquídeas, rosas e alstroemérias. As orquídeas, geralmente, são espécies fáceis de cuidar e encantam os amantes de flores com sua variedade de espécies e colorações. As rosas, vindas do Equador e Colômbia, são famosas por serem as mais luxuosas do mundo com sua grandeza, coloração e aroma marcante. E as alstroemérias, também conhecidas como lírio peruano, chamam atenção com suas cores vibrantes e pétalas listradas.

Desde muito jovem, Marcelo sempre esteve envolvido com os negócios da família e, apesar de ter se formado em direito e trabalhado na área por alguns anos, acabou deixando a profissão para se dedicar totalmente à floricultura.

Da esquerda para direita: Aline (irmã), Marcos (irmão), Marcelo e Sueli (mãe). Foto: Reprodução.

A origem

O comércio das flores e plantas no Brasil vem desde 1950, quando os imigrantes japoneses e holandeses trouxeram suas técnicas de cultivo e cooperativismo. Os holandeses se estabeleceram principalmente na região de Holambra (SP), transformando a cidade na “Capital Nacional das Flores”. Além disso, a Veiling Holambra, centro de referência comercial e logística de flores e plantas do Brasil, está diretamente ligada ao crescimento do setor no país.

A cooperativa está localizada em Santo Antônio de Posse e possui mais de mil clientes ativos. Foto: Danielle Ribeiro.

Já os japoneses instalaram-se em cidades como Mogi das Cruzes, Atibaia, Suzano, Ibiúna e Arujá, originárias de colônias japonesas. Eles se destacaram no cultivo de orquídeas, hortênsias e plantas ornamentais, adaptando espécies orientais ao clima brasileiro.

Renato Opitz, diretor de marketing e comunicação do Instituto Brasileiro de Floricultura (Ibraflor), maior organização do mercado de flores e plantas do país, comenta sobre como se deu a origem do ramo. “As duas são culturas e colônias muito fortes. Nos anos 50, quando os holandeses vieram para o Brasil, eles trouxeram essas tradições. Então, isso acabou alavancando e também por isso os principais mercados hoje estão em São Paulo”.

Os holandeses também introduziram o sistema de leilão de flores, o veiling, que em holandês significa “leilão”. Foto: Danielle Ribeiro.

Calendário das flores

O Dia das Mães é considerado a data mais lucrativa do ano no setor das flores e, segundo o Ibraflor, é responsável por 18% das vendas anuais. Marcelo e Renato afirmam que após essa data as principais são o Dia dos Namorados e o Dia da Mulher.

Marcelo reforça a importância do Dia das Mães no setor. “A principal data é o Dia das Mães, disparado. Então, começa em fevereiro todo o planejamento para que esteja tudo redondo, porque de fato é uma demanda que praticamente em 10 dias vem pelo menos seis a sete cargas de flores”.

Segundo ele, as datas de final de ano, como Natal e Ano Novo, também entram na lista. E a Festa da Primavera, que ocorre anualmente em meados de setembro, marcando o início da estação, também aumenta o número de vendas. Neste ano, a Bom Jesus recebeu pela primeira vez o público no novo espaço.

Mudança que veio para ficar

Em fevereiro de 2020, com o surgimento da pandemia de COVID-19, diversos setores foram obrigados a se adaptar, inclusive o mercado de flores.

Para esse setor, o lado negativo foram as perdas de produto. Renato afirma que nas primeiras duas semanas de pandemia 90% do que era produzido foi para o lixo. Ademais, as flores de corte foram o principal grupo prejudicado, já que durante esse período não havia casamentos e outras festividades.

Por outro lado, com as pessoas passando mais tempo dentro de casa, muitas começaram a se atentar à decoração do ambiente de suas casas, impulsionando a procura por plantas e flores novamente.

Elas foram classificadas como parte do setor essencial nesse período, sendo permitido a produção, a distribuição e a comercialização de flores e plantas ornamentais. Segundo Renato, essa mudança foi muito positiva para o setor e proporcionou adaptações que duram até hoje.

A menção explícita a flores e plantas na Portaria MAPA nº 116 foi introduzida pela Portaria nº 135/2021. Arte e foto: Danielle Ribeiro (feito com auxílio de IA).

A “virada de chave” da floricultura Bom Jesus, também aconteceu no período de pandemia. Em um momento de uma intensa isolação social, eles tiveram uma ideia inovadora que alavancou a popularidade da empresa e ao mesmo tempo ajudou as pessoas a passarem por esse momento.

“Quando tudo fechou, nós tínhamos muitas flores e a gente pensou: ‘o que a gente vai fazer? Não vamos simplesmente jogar fora’. Nós fizemos um buquê e mandamos para influencers dentro de Bauru, falando: ‘Não posso te abraçar, mas posso te dar flores’. E essa foi a virada de chave, porque em fevereiro de 2020 nós tínhamos 1.900 seguidores, mais ou menos, e de março para abril muita gente começou a pedir flores para mandar essa mensagem. E o nosso Instagram de 1.900 foi para 15.000 seguidores em abril”, conta Marcelo.

A ideia inovadora fez a Bom Jesus conquistar dois prêmios da Veiling Holambra, o Top Cliente e o Destaque Floricultura de 2020. Foto: Reprodução.

Desafios do setor e sustentabilidade

Apesar de ser um setor em expansão, ainda há desafios a serem superados para o melhoramento do processo, como falta de mão de obra, mudanças climáticas extremas e logística de transporte. Esses são problemas que também impactam o setor da produção das flores, porém, as tecnologias podem auxiliar nesses processos e até mitigar os danos em alguns dos casos.

“Nos últimos anos, tem sido cada vez mais forte a entrada da IA, que também está alavancando muito esses processos, porque com essa geração de dados e informações, ficou muito claro para os produtores que eles estão controlando melhor a temperatura, umidade, luminosidade, concentração de CO2 e outros fatores climáticos dentro da estufa, eles conseguem uma qualidade muito melhor. Isso está cada vez mais presente na realidade do campo”, exemplifica Renato.

Uma tecnologia mais aprimorada possibilita maior sustentabilidade no campo. O especialista explica que o conceito de preservar recursos naturais vem desde a origem da produção com Holanda e Japão. Alguns produtores no Brasil utilizam essas práticas para evitar o desperdício de recursos, produtos e custo.

Muitas produtoras sustentáveis possuem reservatórios e coletam água da chuva para outras etapas do processo. Arte: Danielle Ribeiro (feito com auxílio de IA).

Marcelo enxerga o mercado de uma forma positiva e ainda com muito potencial a ser explorado. “O setor de flores no Brasil ainda tem um espaço enorme para crescer e para que cada vez mais a flor também seja uma forma de presente”.

Afinal, as flores estão presentes desde o nascimento até a morte, passando por momentos marcantes da vida: “estão em todo lugar e presentes na vida de qualquer brasileiro. Em qualquer situação que você olhar, pode ter certeza que a flor ou a planta está no meio”, conclui Marcelo.

Por trás da beleza das flores, existem histórias de cuidado, dedicação e trabalho. Foto: Danielle Ribeiro.

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