Como o braço cultural do agronegócio se tornou um fenômeno musical nacional
Por Danielle Ribeiro
“Isso é ostentação, de um jeito sertanejo/ Bota, chapéu, cinto e fivela pra mim tá perfeito/ Isso é ostentação, de um jeitão bem caipira/ Modão, rodeio e tereré essa é minha vida”. A letra da música do cantor e produtor Rennan Passos é um exemplo de como a música sertaneja reflete essa paixão e identificação afetiva com o campo e elementos do agro.
O gênero musical denominado “agronejo” une o sertanejo a outros estilos como pop, funk, brega e eletrônica. Nos clipes e nas letras das músicas é possível observar um forte apelo à ostentação material e referências à uma vida rural moderna, luxuosa e tradicional.

Em uma pesquisa de julho de 2022, o Datafolha divulgou que o sertanejo é o estilo musical mais ouvido entre jovens brasileiros de 15 a 29 anos. Como explica a estudiosa Ana Manuela Chã, “o agronejo vem com essa defesa explícita do projeto do agronegócio. Agora está nas letras das músicas e no ritmo, então é uma relação que tem dado resultados, mas mais do que isso, uma identidade nacional”.

Como a música sertaneja se reinventou ao longo dos anos
A música se transforma ao longo dos anos, e isso se dá pela influência do contexto histórico, político, social e cultural da época. O sociólogo Caique Carvalho descreve esse processo de uma forma simples: “O mundo muda, a música muda, a música muda, o mundo muda”.
Cada época é marcada por uma tendência musical predominante, e no sertanejo isso não é diferente. Atualmente, diversas vertentes do gênero são produzidas de forma simultânea por diferentes artistas, porém ao longo dos anos é possível observar o surgimento de novas tendências e estilos.
“O Brasil mudou muito, mas a música sertaneja conseguiu se efetivar com uma linha musical muito própria, assim como o nível de capacidade de interpretação, mobilização e criação de gerações. E ainda que o Brasil tenha se urbanizado, a música sertaneja continua”, afirma Caique Carvalho sobre as transformações do gênero musical ao longo dos anos.
A música sertaneja surgiu em 1929 com o jornalista e escritor Cornélio Pires, com a música “Jorginho do Sertão”. A partir de 1930, começou a se consolidar o estilo que ficou conhecido posteriormente como “sertanejo raiz” ou “caipira”. As letras desta época retratavam um cenário bucólico, com algumas críticas ao sistema agrário e mensagens de esperança e saudade da vida no campo.
Durante 1950 a 1970 aproximadamente, ocorreu um período de transição na música sertaneja, com a adição de novos ritmos devido a influência da urbanização no país.
A partir de 1980, o gênero começa a explorar o seu lado mais comercial, com os artistas aperfeiçoando suas composições e figurinos. Conhecido como “sertanejo romântico”, as músicas dessa época têm temas como amor e desilusão.
Entre 2000 e 2010, muito devido à influência das festas universitárias e popularização das feiras agropecuárias, o “sertanejo universitário” lidera os rankings musicais. As letras falam sobre balada, bebedeira e traição, além da implementação de outros estilos musicais e um ritmo considerado mais moderno.
Em 2010 surge o “feminejo”, com destaque para mulheres cantando sobre sua perspectiva de relacionamentos, ainda com músicas sobre traição, mas principalmente sobre empoderamento feminino.
E a partir de 2021, surge o “agronejo”, com a música “Os Menino da Pecuária”, da dupla Léo e Raphael como pioneiros do gênero. Outro destaque foi a música “Agronejo” do DJ Chris no Beat com Ana Castela, que ajudou a popularizar e batizar o termo.
Além disso, outras canções foram consolidando o agronejo como o gênero sertanejo mais atual, sendo elas: “Pipoco” da Ana Castela com Melody e DJ Chris no Beat, “Roça em Mim” do Luan Pereira, Zé Felipe e Ana Castela, “Dentro da Hilux” do Luan Pereira com MC Daniel e Ryan SP, “Welcome To The Mato” do DJ Kevin e Marco Brasil Filho, e o “Hino Agro” do DJ Chris no Beat, Léo e Raphael, e Ana Castela.

Apesar do ritmo sertanejo se transformar ao longo dos anos, muitos temas tratados nas músicas permanecem desde a sua origem, como descreve Rennan Passos, que é produtor musical e já trabalhou com artistas como Yasmin Santos, Bruno e Marrone, e, Nattanzinho.
“Quando o pessoal [os cantores sertanejo] fala do agro, eles falam de colheitadeira, fazenda, boi, cavalo, plantação. É uma vertente do sertanejo que está muito famosa, mas ao meu ver, acho que isso já existe desde a época dos modões de viola, como as músicas do Tonico e Tinoco, e, Tião Carreiro e Pardinho, eles já falavam do cavalo, do boi, da fazenda, do pé de café, falavam de tudo. Hoje em dia eles deram continuidade, só que com uma musicalidade mais atual, um ritmo diferente, digamos assim, mas o assunto é o mesmo”, diz Rennan.
Parceria de sucesso
Essa nova onda musical veio com características marcantes, além da mistura de outros estilos musicais e as temáticas sobre um campo moderno e produtivo, o agronegócio tem um forte papel no crescimento dessa indústria.
Narayna Kathe Silva é professora e pesquisadora da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e fala sobre essa relação de identificação das pessoas com o agro e a música sertaneja, visto principalmente em eventos agropecuários, como a Festa do Peão de Barretos. “As grandes lojas countries tem toda uma estética nos eventos, uma vestimenta e um jeito de falar, então criou-se toda uma identidade do agronegócio globalizado”, comenta.
A partir de 1980 houve uma expansão no setor das festas e rodeios agropecuários, que nessa época já contratavam alguns artistas sertanejos para os eventos. Devido ao crescimento da fronteira agrícola, ou seja, as atividades agropecuárias sobre vegetação, que na época avançavam em direção ao Cerrado e ao Centro-Oeste, a música regional começou a crescer em paralelo, e aos poucos uma parte do dinheiro do campo começou a ser investida em feiras agropecuárias.
A música sertaneja foi se consolidando nesses eventos, até que em 2000, juntamente com o sertanejo universitário, começou a atrair a atenção de um público mais jovem, tornando essas feiras ainda mais populares.
O agronegócio passou a ver as feiras e rodeios como uma grande fonte de renda e disseminação da cultura do agro, assim como uma oportunidade de fortalecer uma imagem pop, moderna e tecnológica do setor. “O agronejo é a representação dessa hegemonia do agronegócio no campo”, resume Narayna Kathe.

Eventos agropecuários oferecem uma vasta programação que vai muito além das apresentações de cantores sertanejos, como por exemplo rodeios, leilões, exposições de maquinário e animais, premiações e venda de artesanato e culinária típica das regiões. As feiras acontecem anualmente e impulsionam a economia local e o agronegócio, além de preservar a cultura e a identidade regional.
E o sertanejo hoje?
Atualmente a cultura sertaneja está muito presente no cotidiano das pessoas, mesmo que de forma involuntária, seja por comerciais e propagandas, novelas, estilo de vida e claro, a música. Segundo uma pesquisa, realizada em 2024, pelo Instituto Real Time Big Data, 83% dos brasileiros afirmam que o sertanejo representa a cultura brasileira.

Muito dessa popularização se deu pela modernização das composições musicais e da imagem que representa esse público, ou seja, um campo moderno, porém ainda com elementos tradicionais. Os pesquisadores Ana Manuela Chã e Caique Carvalho discorrem sobre esse processo narrativo.
Ana Manuela fala sobre como a vestimenta influencia na imagem que esse novo sertanejo busca transmitir. “A bota não está mais suja, ela está limpinha. Você tem o relógio de grife, o cinto e a fivela também não são qualquer um. Não é mais um universo do caipira atrasado e fora de moda, pelo contrário, você dita uma nova moda que seria esse ‘caipira moderno e urbanizado’. Então, você tenta ir contra essa narrativa de que o campo é atrasado”.
Enquanto isso, Caique utiliza a sanfona para exemplificar esse processo de modernização. “A sanfona está ali para indicar o mundo rural, mas é um campo tecnologizado. Basta ver os arranjos que se faz em cima da sanfona, muitas vezes eles simulam a música eletrônica. Então, musicalmente eles estão territorializando a música. Eles estão dizendo, ‘nós somos modernos e o que há de moderno em nós é o campo. Nosso campo é modernizado’”.
Desde clipes musicais bem produzidos até shows e interação com os fãs, a música é algo que une um grupo de pessoas com o mesmo propósito. Rennan comenta que os principais sucessos atuais como Ana Castela e Luan Pereira, tem uma característica em comum: sua essência.
“Eu acho que aquilo que faz sucesso mesmo é a verdade de cada um. Eu acho que quando a pessoa que vive aquilo, canta a verdade dela, ela canta com tanta empolgação, com tanta verdade, tem uma luz assim, sabe? Eu acho que isso transmite para as pessoas também”, explica.

