Novas obras cinematográficas trocam o terror sobrenatural pelo horror do cotidiano feminino, trazendo homens que confundem amor com posse do corpo das mulheres


Por Isabelli Fantin Ambrózio

Poster filme Obsession(2026) Foto: divulgação internet

O terror — gênero cinematográfico criado com o objetivo de provocar reações emocionais intensas e negativas, como medo, ansiedade e repulsa — sempre teve uma fórmula recorrente.

Durante décadas, o horror foi representado de forma literal, por meio de elementos sobrenaturais, como monstros e assassinos em série. Nesse contexto, as personagens femininas, principalmente entre as décadas de 1970 e 1990, eram frequentemente colocadas na posição de vítimas, com seus corpos expostos a cenas de violência explícita.

Nos últimos anos, porém, uma nova leva de thrillers e filmes de terror passou a explorar um antagonista mais próximo da realidade. O horror deixou de estar apenas em criaturas sobrenaturais e passou a ser encontrado em situações presentes no cotidiano de muitas mulheres, como controle, manipulação, obsessão e a ideia de que uma parceira deve atender às expectativas masculinas.

Essa mudança também ressignifica o arquétipo do “Nice Guy”, expressão utilizada para definir homens que aparentam ser gentis e atenciosos, mas que usam esse comportamento como estratégia para conquistar afeto, atenção ou relações amorosas. No cinema de terror contemporâneo, esse personagem deixa de ser apenas um homem inconveniente e passa a ocupar o papel de antagonista.

Um exemplo é Obsession (2026), no qual o protagonista Bear utiliza um graveto mágico de salgueiro para fazer com que sua amiga Nikki, por quem é apaixonado, o ame acima de qualquer coisa. O que começa como uma tentativa de conquistar a jovem rapidamente se transforma em uma obsessão absoluta, anulando sua autonomia.

A situação torna-se ainda mais perturbadora quando Bear percebe as consequências do próprio desejo. Em vez de desfazer o feitiço, ele tenta apenas “ajustá-lo”. Mesmo diante do sofrimento de Nikki, o personagem não considera abrir mão daquilo que desejava, reforçando a ideia de que seu amor está diretamente ligado à posse e ao controle.

Cena do filme Obssesion (2026) Foto: Divulgação internet

Para Ana Clara Barreto, estudante do quinto semestre de Rádio, TV e Internet, a representação do corpo e da violência contra as mulheres também passou por transformações. “Hoje em dia eu percebo que os filmes estão retratando o terror com uma visão de como as mulheres sofrem no cotidiano. Os últimos filmes de terror que eu assisti, pensei como um homem medíocre pode acabar com a vida da pessoa, como em Obsession, Backrooms e Undertone, que têm essas mulheres independentes, que estão no papel de protagonista, investigadora ou de vítima de um machismo, e não de um massacre como era antigamente, como em Halloween”.

O ponto em comum entre essas produções é que seus vilões dificilmente se apresentam como monstros desde o início. Pelo contrário, são carismáticos, sedutores e atenciosos e, muitas vezes, parecem representar o parceiro ideal. O medo surge quando a narrativa revela que, por trás dessa aparência, existe uma necessidade constante de controlar e manipular mulheres.

Para Ana Clara, essa representação também dialoga com a sociedade. “Os filmes não só retratam como a sociedade está se portando, como também manipulam a maneira como as pessoas enxergam as coisas. Então, acho que é uma via de mão dupla: o filme é um reflexo e as pessoas são reflexos também do filme”.

A estudante ainda relaciona essa transformação ao aumento da violência contra a mulher. “A gente vê o crescimento da violência, cada vez mais tem notícias de mulheres morrendo todos os dias. E se percebe que a violência contra a mulher se tornou algo muito grande, e acho que isso vem também muito dessa normalização da violência contra a mulher durante os filmes de terror”.

Nesse cenário, o terror contemporâneo encontra o medo não apenas em monstros ou assassinos, mas em comportamentos que podem ser reconhecidos fora das telas. O vilão deixa de ser uma criatura distante e passa a assumir a aparência de alguém comum, justamente o que torna esse novo horror ainda mais próximo e perturbador.

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