O hábito do streaming provoca desagrado na sua audiência e desencoraja o lançamento de novos projetos


Por Maria Fernanda Bertolino

A Netflix é uma plataforma de streaming famosa por suas séries originais, mas também pelo constante cancelamento delas. Ao menos 20 séries foram canceladas pelo streaming de 2023 até aqui, o que gera consequências para as futuras apostas da plataforma.

Os assinantes da Netflix têm mostrado cada vez mais receio em não só acompanhar as séries atuais, mas também em consumir séries novas que são lançadas. Ao estrear em abril deste ano, a série “Garotos Detetives Mortos” gerou debate nas redes sociais.


“Aquela série Garotos Detetives Mortos parece interessante mas também parece algo que a Netflix vai cancelar em duas semanas então deixe-me poupar minha energia” – Traduzido do X.


“Literalmente meu primeiro pensamento quando vi isso foi “eh, vou esperar para ver se eles dão mais uma temporada antes de começar a série” – Traduzido do X.


No debate, a frustração prevaleceu ao se falar de novos títulos da plataforma. Isto por conta do receio dos usuários de que aconteçam mais cancelamentos, como os já experimentados por todos antes.


“Tudo o que esperamos como base de fãs é que a Netflix não cometa esse erro novamente, eles estão quebrando a confiança de seu público e as pessoas não podem desfrutar de seu conteúdo sem se preocupar com a longevidade dos programas de que gostam.” – Traduzido do X.

O desânimo dos assinantes traz consequências diretas ao número de audiência da nova série. Cria-se um efeito dominó em que o público não assiste ao novo título por medo de cancelamento e o novo título não é renovado por falta de visualizações.

A estudante Fernanda Coca, 19 anos, passou pela experiência de ter uma série assistida cancelada: “Comecei a assistir Anne with na E um pouco antes de anunciarem que foi cancelada e fiquei devastada quando soube”. Ela também disse achar péssimo o hábito de cancelamentos da plataforma em geral. “É péssimo. As melhores séries são sempre canceladas. E Anne with an E é um bom exemplo, porque era uma série linda que abordava vários temas importantes e tinha muito mais para ser mostrado”, disse Fernanda.

Maria Eduarda Lopes, estudante, também forneceu sua opinião sobre os cancelamentos, ela disse: “É muito ruim, porque além de criar expectativas à toa, deixam uma má impressão sobre a plataforma e geram desconfiança em relação a outros lançamentos, o que pode fazer com que as pessoas não se interessem mais em assinar”.

Ao se sentirem traídos pela plataforma, como quando a série The Society teve sua segunda temporada confirmada em 2020 e logo depois foi cancelada, o público se movimenta online em busca de justiça pelas suas séries tão amadas.

Somando mais de 1 milhão de assinaturas de fãs, Sense8, Julie and the Phantoms (inspirada na versão brasileira “Julie e os Fantasmas”) e Sombra e Ossos são exemplos de cortes do streaming que receberam abaixo-assinados online tentando reverter a decisão de cancelamento da plataforma. Após o abaixo-assinado de 522.310 assinaturas feito pelos fãs da série, Sense8 ganhou um último e especial episódio, com duas horas e meia de duração, lançado pela Netflix um ano após o anúncio de seu cancelamento. Infelizmente, esse é o único caso em que se pode dizer que a plataforma em partes voltou atrás em sua decisão.

O streaming é também conhecido por evitar o assunto dos cancelamentos, o que dá razão ao receio de seu público. A causa usada para o corte de uma série é sempre o algoritmo, número de que nunca é divulgado, e pronunciamentos no assunto são sempre raros.

Em janeiro do ano passado, o CEO da companhia Netflix Ted Sarandos se manifestou em entrevista ao Bloomberg. Sarandos optou pela negação ao afirmar que “nós nunca cancelamos uma série de sucesso. Muitas dessas séries foram bem-intencionadas, mas faltaram com um público muito pequeno”. Torna-se difícil concordar com o CEO quando séries de óbvio sucesso, como “O Mundo Sombrio de Sabrina” ou “Anne with an E”, estão entre as canceladas da plataforma.

Uma explicação mais factual no tópico foi fornecida ao jornal Deadline em 2020 pela diretora de conteúdo da Netflix Bela Bajaria. “Se você olhar para a segunda temporada e mais, na verdade temos uma taxa de renovação de 67%, que é o padrão da indústria”, disse ela. “Também fazemos uma grande quantidade de programas de primeira temporada, o que às vezes parece que temos mais cancelamentos de primeira temporada, mas se você olhar a taxa de renovação é muito forte”, explicou a diretora.

Murilo Baracho, professor do Colégio Tableau Taubaté e especialista em Marketing Estratégico Digital e também em Linguagem, Tecnologia e Trabalho, explica o porquê do silêncio do streaming no assunto. “Do ponto de vista institucional, o silêncio pode ser uma estratégia para preservar a imagem da marca. Cancelamentos podem estar relacionados a quebras contratuais ou problemas de gestão que, se divulgados, poderiam indicar ineficiência. Além disso, questões relacionadas a custos de produção podem sugerir um planejamento inadequado”, disse Murilo.

O professor Murilo Baracho

Dessa forma, o silêncio se prova uma estratégia eficaz. Mas como não desagradar seu público no processo? Ou, como o especialista em marketing colocou: O que é mais vantajoso: a falta de informações ou a transparência, mesmo que esta última possa impactar negativamente a marca?

Apesar de funcionar, Murilo acredita que existam estratégias melhores que a usada pela Netflix. “Acredito que existam formas melhores de lidar com a situação. Uma estratégia de marketing integrada com uma assessoria de imprensa bem planejada poderia comunicar o cancelamento de maneira suave e, possivelmente, aceitável para o público, sem comprometer a imagem da marca”, disse ele. Mas como fazê-lo? “Como fazer isso exatamente? Como em toda estratégia de marketing, que precisa ser personalizada, não existe uma resposta pronta, mas certamente é possível desenvolver uma solução estratégica com uma abordagem cuidadosa e bem pensada com foco no público”, afirmou o especialista.

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