Enchentes afetaram quase 90% do estado e deixaram casas submersas por mais de um mês

Por Camila Possente

Rio Grande do Sul começa a se reerguer (Reprodução: Prefeitura de Porto Alegre)


Há aproximadamente duas semanas, o povo gaúcho passou a enfrentar um novo desafio frente ao desastre natural que atingiu seu estado. Conforme o nível de água das enchentes diminui, um sentimento toma conta da população afetada: é hora de voltar para casa.

Só agora é possível mensurar o prejuízo sofrido pelas vítimas. O processo de limpeza e restauração do que sobrou no pós-enchente é árduo, mas para Yasmin de Oliveira Trindade, moradora da cidade de São Leopoldo, se torna suportável ao ver que muitos estão passando pelo mesmo e ninguém está sozinho.

“Por mais triste que seja, não tem muito o que fazer. Você vê todo mundo fazendo as mesmas coisas, voltando, jogando fora e limpando.”

Yasmin teve a casa submersa por quase um mês. Na semana passada, ela viralizou no X, antigo Twitter, ao compartilhar fotos de sua coleção de livros, que contava com cerca de 300 exemplares e foi completamente destruída pelas águas. Ela conta que o tempo de espera antes de poder voltar para casa foi útil para pensar no que fazer em seguida, e que agora que a água baixou, é possível planejar o que vem daqui pra frente.

“Aqui em casa a gente espera conseguir ir comprando os móveis aos poucos e é isso, a vida continua. Em relação à minha família eu sei que vai ficar tudo bem porque temos saúde, coisas materiais a gente vai comprando aos poucos depois. Temos meta de conseguir arrumar tudo até o final do ano e celebrar as festas de final de ano recuperados.”

Coleção de livros de Yasmin, destruída pela enchente (Reprodução: X)

A família de Yasmin, apesar de temer uma nova cheia, não se mudará para outra cidade ou estado. Assim também é a maioria: para quem perdeu tudo na enchente, começar a vida do zero em um lugar novo é caro demais.

“Voltei pra minha casa dia 1°, não por amor ao lugar, mas porque não tenho outra opção mesmo. Não tenho condições financeiras para começar minha vida em outra cidade no momento, se tivesse condições boas com certeza eu sairia daqui. Voltei pra casa, mas aquele medo de que, quando começar a chover, pode encher tudo de novo sempre vai existir sim. Infelizmente essa é a minha realidade no momento”, diz Alinne Garcia, de Porto Alegre. 

O bairro de Alinne, por estar localizado em um ponto mais baixo, foi um dos mais atingidos da cidade. Durante o período de cheias, ela e seus dois filhos ficaram abrigados no bairro Partenon. Agora, já reinstalada em casa, Alinne se mostra decepcionada com a forma com que o governo lidou com a tragédia.

“Quanto ao governo, acho que eles têm que fazer algo pra evitar que isso aconteça novamente. Agora, quando eles vão fazer algo, eu não sei. Do governo não espero nada. Só espero que nunca mais aconteça uma tragédia desse tamanho.”

Uma coisa é certa: a partir de agora, o medo de uma nova grande enchente perseguirá não só a população do Rio Grande do Sul, mas do Brasil todo. É que, com tantas mudanças climáticas, é possível que as chuvas fiquem cada vez mais desreguladas, e as estruturas naturais e urbanas se mostrem incapazes de comportar tamanho volume de água.

Mesmo assim, há a esperança de que, caso uma nova tragédia venha a acontecer, a população e o governo estarão mais preparados para lidar com ela. Elisabeth Pacheco Ribeiro, moradora de Cachoeirinha, região de Porto Alegre, não foi afetada dessa vez e mostra que não se assusta com o que pode vir no futuro.

“Aqui já sabemos que o risco de acontecer novamente é bastante grande, mas com certeza continuaremos morando no mesmo estado. Acredito que as medidas já estão sendo tomadas pelo governo gaúcho. Esta catástrofe em proporção menos ocorreu há 80 anos. Por este motivo as comportas não tinham sido testadas. As casas das bombas ficaram submersas, não dando vazão. Acredito que todo o sistema será revisto.”

Elisabeth tem esperanças de que o Rio Grande do Sul voltará a ser o estado que era, e que todo o tormento servirá de aprendizado.

“O gaúcho é um povo aguerrido e forte. Acredito que iremos demorar a reconstruir nosso estado, mas com certeza sairemos mais fortalecidos, principalmente por todas as doações emergenciais que estamos recebendo de todas as partes do nosso Brasil. Assim, nosso RS voltará a ser o estado maravilhoso de viver.”

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