A obra foi a vencedora do Grammy na categoria Melhor Álbum de Rap, em 2020. Cinco anos depois, o impacto e a relevância deste álbum continuam a ressoar profundamente na indústria musical.

Por João Vitor Soares Fidelis

Figura : Capa do álbum “IGOR” (Foto: Columbia Records)

Em 2019, o rapper Tyler, The Creator, lançou “IGOR”, um álbum que se destacou não apenas pela sua sonoridade inovadora, mas também pela narrativa envolvente que apresentava. O álbum conta a história do alter ego de Tyler, Igor, e sua jornada através do amor não correspondido e da superação emocional.

Para entender o significado de “IGOR”, é importante contextualizar a jornada artística de Tyler, The Creator. Conhecido por sua abordagem única e provocativa à música, Tyler, de seu nome completo Tyler Gregory Okonma, emergiu na cena musical no início dos anos 2010 como uma figura controversa e disruptiva. Seus primeiros trabalhos, como o álbum “Goblin” e o coletivo Odd Future Wolf Gang Kill Them All (OFWGKTA), ganharam atenção por sua natureza provocativa e letras controversas.

No entanto, conforme o tempo passou, Tyler começou a mostrar um lado mais maduro e introspectivo de sua arte. Álbuns como “Wolf” e “Flower Boy” mostraram uma evolução significativa em sua música, com letras mais profundas e produção mais elaborada. Foi neste contexto de crescimento artístico que “IGOR” nasceu.

Para Kaique Mattos, criador de conteúdo sobre música, dono do perfil @hihop.afins (no Instagram e tiktok), “IGOR provavelmente é o que mais se diferencia dentro da discografia dele junto de Cherry Bomb falando de produção, usando muito de sintetizadores e outros estilos mais ligados ao alternativo. Já na narrativa ele é bem próximo de Flower Boy só que em IGOR acho que ele foi mais aberto sobre tudo”.

Lançado em maio de 2019, “IGOR” pegou o mundo da música de surpresa. O álbum, que Tyler descreveu como uma “experiência”, em vez de um álbum tradicional, apresentava uma sonoridade única e uma narrativa emocionalmente cativante. O disco conta com uma narrativa do alter ego do artista que recebeu o nome de “IGOR”, e nele personifica sua sensibilidade.

Com influências que vão desde o funk dos anos 70 até o R & B contemporâneo, “IGOR” desafiou convenções e definições de gênero musical.

A recepção crítica ao álbum foi excepcionalmente positiva. Críticos elogiaram a produção inventiva, as letras introspectivas e a narrativa coesa de “IGOR”. O álbum foi aclamado como um dos melhores lançamentos do ano e foi indicado e venceu vários prêmios, incluindo o Grammy de Melhor Álbum de Rap.

Cinco anos após o seu lançamento, “IGOR” continua a ser um marco na carreira de Tyler, The Creator e na história da música contemporânea. Sua influência pode ser vista não apenas na cena do hip-hop, mas em toda a paisagem musical. O álbum desafiou noções preconcebidas de gênero e abriu novos caminhos para a expressão artística.

Figura: Tyler, The Creator (Foto: Instagram/feliciathegoat)

Além disso, “IGOR” solidificou o status de Tyler como um dos artistas mais inovadores e talentosos de sua geração. Sua capacidade de evoluir e reinventar sua música ao longo dos anos é um testemunho de sua genialidade artística e de seu impacto duradouro na cultura pop.

A primeira metade do álbum, composta pelas sete primeiras canções (de “Earfquake” até “A Boy Is a Gun”), retrata o alter ego se apaixonando e entendendo que não é recíproco, muito menos que será assumido. De “Earfquake” a “New Magic Wand”, nota-se a dependência emocional do personagem, que vira uma obsessão a ponto de cogitar o fim da vida dos dois envolvidos, já que não estão destinados ao fim amoroso, juntos.

O ponto alto do álbum, marcado pela música “A Boy Is a Gun”, é caótico, hipnotizante e imersivo. Responsável por mostrar a vulnerabilidade do artista, com participação do cantor Kanye West em vocais sutis, traz uma metáfora através da arma, em uma situação de dependência e controle, numa ambiguidade.

Na segunda (e última) parte do álbum, de “Puppet” até “Are we Still Friends?”, o alter ego toma consciência do quanto o relacionamento está fazendo mal a ele e que seria melhor deixá-lo para trás, como é possível perceber na música “Gone Gone/ Thank You”. Para finalizar a obra prima, Tyler encerra o álbum com “Are We Still Friends?’ e mostra que, apesar de superado o amor, a dependência ainda existe e prefere manter uma amizade do que cortar relações.

Ao ser perguntado sobre quais são os aspectos marcantes da narrativa do álbum e sua contribuição para a experiência auditiva, Kaique diz que considera a construção dos personagens muito interessante. “É a marca registrada do Tyler criando camadas e camadas em cada um, fora daqueles mistérios que ele deixa pro pessoal ir desvendando como no final que tem essa virada de beat que encaixa perfeitamente no começo do disco”.

Para Kaique Mattos as faixas “New Magic e a Boy Is Gun” e “Are We Still Friends?” são sua favoritas, muito por conta da energia que transmitem e a segunda citada pela conclusão da narrativa.

Já para Sinara Martins, estudante de jornalismo e fã do cantor “é impossível escolher entre “I Think” e “Earfquake”. Segundo a estudante, “I Think” demonstra fielmente o eu-lírico reconhecendo que está apaixonado, desesperado em busca do amor correspondido, o mesmo acontece em “Earthquake” quando o artista representa através de sons metálicos e pesados (que também são leves e melancólicos) todos os sentimentos do eu-lírico em uma montanha russa amorosa. Para a cereja do bolo, a música ainda aborda a dependência emocional.

O Legado de Tyler, The Creator e o futuro da música.

Enquanto “IGOR” marca um ponto alto na carreira de Tyler, The Creator é apenas uma parte de um corpo de trabalho rico e diversificado. Desde então, ele continuou a experimentar e desafiar as expectativas em sua música, solidificando seu lugar como uma figura central na música contemporânea.

À medida que olhamos para o futuro, é emocionante imaginar o que Tyler, The Creator, tem reservado para seus fãs e para a indústria da música como um todo. Com sua habilidade única de fundir influências e estilos diversos, ele continua a moldar o cenário musical e a inspirar uma geração de artistas.

“Acho que IGOR é uma quebra de padrão na forma que a gente fazia e entendia o que era rap, para além da sonoridade indo pra outros estilos e métricas, o fato do Tyler ser completamente aberto sobre sua sexualidade e traz esse lado sensível sendo uma figura do Mainstream encorajou muito alguns outros artistas a serem mais honestos sobre seus sentimentos nas músicas”, disse Kaique.

“O legado aos fãs está na visibilidade que Igor proporcionou ao artista. O álbum foi o primeiro de Tyler a ganhar um Grammy, e isso é fantástico! O legado da obra ultrapassou as barreiras do rap e faixas como “New Magic Wand” e “Earfquake” ficaram muito famosas e furaram a bolha. Isso tornou o trabalho do Tyler ainda mais ouvido e conhecido”, citou Sinara.

O álbum está disponível nas principais plataformas, dentre elas Spotify, Apple Music e Youtube Music.

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