Criticado por ser um gênero machista, racista e xenofóbico, filmes recentes de westerns buscam trazer um olhar mais atual e livre dos estereótipos.

Por Guilherme Moraes


Lily Gladstone e Leonardo DiCaprio em “Assassinos da Lua das Flores”
(Foto: Apple studios)

O faroeste é um gênero tipicamente americano, reconhecido pelas figuras dos cowboys e dos xerifes que possuem uma moralidade muito evidente. No entanto, ele também é muito marcado por, em sua história, ser um gênero machista, racista e xenofóbico. Sobre essa perspectiva, os filmes recentes de westerns como “Ataque dos cães” e “Assassinos das luas das flores”, tem feito uma revisão sobre o faroeste e suas características, trazendo um olhar mais atual. Mas será que isso é algo realmente novo?

O gênero está muito ligado à história dos Estados Unidos e sua expansão para o Oeste. Aliás, é do expansionismo que vem o nome “faroeste”, ao juntar as palavras em inglês “far” e “west”, que quer dizer, respectivamente, “longe” e “oeste”. A expansão para áreas que eram habitadas por outros povos era fundamentada no Destino Manifesto, ideologia que pregava o dever divino dos estadunidenses de levar a tecnologia, a religião e a civilização, aos povos considerados por eles como selvagens.

É nesse contexto que surgem algumas características clássicas do gênero como a ferrovia, as diligências, a violência, os homens da lei e os fora dela. Quase todas essas particularidades já estavam presentes no filme “O grande roubo do trem”, de Edwin Porter, feito em 1903, obra mais aceita como inaugural do gênero no cinema.

O faroeste encontra seu auge de produção e influência a partir de 1939 até meados da década de 1960, e durante esse tempo ele foi muito importante na consolidação do ideal de masculinidade durante o século XX, não apenas nos Estados Unidos, mas em quase todo o mundo, e segue sendo muito influente na atualidade.

Além disso, durante o seu ápice, o gênero representava os ideais de sua época e lugar, nesse sentido que surgiram filmes em que vilanizavam os índios, atribuíam às mulheres um papel secundário e idealizavam as figuras masculinas como heróicas, o que contribuiu para cimentar uma ideia de um gênero problemático.


Cena do filme “O grande roubo do trem”
(Foto: Edison Studios)

Em entrevista para o jornal Contexto, o cineasta Calebe Lopes, que dirigiu o filme “Claudio” de 2022, concorda que “o western ajudou a segmentar o que seria um ideal de masculinidade e de patriotismo, que é intrinsecamente machista e racista”.

Calebe Lopes

No entanto, ele ressalta que o gênero é muito mais complexo. “As pessoas atrelaram muito o gênero a homens brancos e Estados Unidos”. O cineasta defende seu ponto ao dizer que essas problemáticas não são exclusivas do western. “Falar dessas coisas é falar de cinema. O cinema é machista, racista, misógino e transfóbico”, diz.

O diretor explica que “existe um equívoco em colocar o western contemporâneo como revisionista, porque ele está se revisionando desde o início”. Ele ainda vai além e diz que “essas discussões acabam, sem querer, reverberando um apagamento de outras obras, porque a gente começa a discutir como se só agora as mulheres estivessem fazendo faroeste, sendo que tem Alice Guy Blaché já lidando com código de western ali em 1900”. Dessa forma, ele ressalta que é muito importante dar a luz a essas realizadoras e seus trabalhos.

Carissa Vieira

Carissa Vieira, roteirista, curadora e crítica de cinema também deu uma entrevista ao jornal e concordou com Calebe Lopes sobre a importância de dar luz a essas diretoras e suas obras.

“Dessa forma a gente começa a entender a história do cinema e a história de apagamento… é importante que a gente comece a ter acesso e descobrir as cineastas mulheres e, também, os cineastas negros, e a partir do aprendizado que a gente tem com esses filmes, criar um cinema que vai por outro caminho, que não seja homogêneo”.

Ela enfatiza que “para mulheres que chegam agora é extremamente importante ver que nos primórdios do cinema já existia outra mulher fazendo filmes e falando de temas tão complexos para época”. Seguindo o mesmo raciocínio, a crítica de cinema diz que “é muito fácil ir minando essas pessoas na indústria, quando elas não se veem representadas”.


Billy Quirk e Mary Foy em “Algie, the miner”
(Foto: Solax Company)

Falando sobre os filmes modernos, Calebe Lopes afirma que “os filmes reverberam questões de seu tempo. Assim os faroestes clássicos reverberaram as questões de sua época e, naturalmente, os modernos vão trazer essas questões sociais que estão em voga”.

Carissa Vieira concorda com essa fala, ao dizer que os filmes atuais do western são “Fruto do nosso tempo”, mas ela também ressalta a importância dessas questões que o faroeste lida na atualidade. “É necessário que a gente construa um gênero clássico do cinema sobre um novo olhar”.

A crítica de cinema ainda cita algumas obras que acha interessante sobre essa nova perspectiva, como “Nope” do Jordan Pelle que coloca pessoas negras como o centro do filme, “Ataque dos cães” de Jane Campion que questiona questões da masculinidade, e também inclui entre elas, o filme “Assassinos da Lua das Flores” de Martin Scorsese, um homem branco, que faz uma análise sobre o genocídio do povo Osage na década de 1920.

Dentre algumas dessas obras de western feitas por mulheres e pessoas negras é possível citar:

  • Algie, the miner, de Alice Guy Blaché
  • ‘49’17, de Ruth Ann Baldwin
  • The grub stake, de Nell Shipmann
  • Cowboys don’t cry, de Anne Wheeler
  • O atalho, de Kelly Reichardt
  • First Cow, de Kelly Reichardt
  • Domando o destino, de Chloé Zhao
  • Ataque dos cães, de Jane Campion
  • Posse, de Mario Van Peebles
  • Buck and the Preacher, de Sidney Poitier e Joseph Sargent
  • Nope, de Jordan Peele

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