Maior campeã mundial encontra dificuldades nas eliminatórias, levantando dúvidas e gerando desânimo nos torcedores
Por Filipe Nascimento
Em tempos nublados, o Brasil busca encontrar de novo seu brilho dentro e fora de campo. Isso porque, após a Copa do Mundo de 2022, o desempenho nos jogos não é como o esperado e, no momento, reflete uma série de problemáticas, vindas principalmente da própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Das nove partidas disputadas em 2023, foram apenas três vitórias e, no total, cinco derrotas, ocorridas nos amistosos contra Marrocos e Senegal, além da sequência negativa enfrentando Uruguai, Colômbia e Argentina pelas eliminatórias da Copa. Todos esses eventos resultaram na decepção dos brasileiros, acompanhados ainda pelo imbróglio com o técnico italiano Carlo Ancelotti, cuja contratação foi dada como certa pelo próprio presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, mas acabou com a renovação do contrato do treinador com o Real Madrid, causando mais uma situação inconveniente dentro da instituição.
Mesmo assim, em 2024, ano de Copa América, surgiram novas esperanças quando, no dia 10 de janeiro, foi anunciado que Dorival Jr., treinador do São Paulo na ocasião, se tornaria o comandante da Canarinho, substituindo o interino Fernando Diniz. Porém, após poucos meses, o fracasso nos pênaltis contra o Uruguai na competição continental deixou um gosto amargo e expôs mudanças necessárias.
Nesse cenário, o Jornal Contexto conversou com diferentes pessoas, entre jornalistas, fãs e torcedores, para saber quais sensações são trazidas pela seleção e que rumo deve ser tomado para conquistar títulos e retomar o “bom futebol”.
José Carlos Marques, docente da Unesp e líder do Grupo de Estudos em Comunicação sobre Esporte e Futebol (GECEF), comentou a respeito das questões de comando envolvendo a CBF e, como consequência, a inconstância gerada no trabalho dos técnicos que estiveram à frente da seleção. “Nós tivemos algumas trocas de treinadores, e isso cria uma instabilidade porque o trabalho nunca tem continuidade”, argumenta.
O professor pondera também que a falta de identificação dos torcedores com o time nacional é um dos pontos a ser repensado pela CBF. “Particularmente, não tenho mais o interesse como tinha anteriormente de ver jogos do Brasil, porque, nas partidas, tem metade do time titular que eu não conheço e que não sei onde joga”, relata.
Um dos motivos desse distanciamento é a convocação de muitos esportistas que não jogam no país, fazendo com que torcedores não acompanhem tanto o elenco para além das partidas da seleção.
Segundo um estudo conduzido em maio deste ano pelo Observatório de Futebol do Centro de Estudo Internacional do Esporte (CIES Football Observatory), o Brasil é o país que tem mais jogadores atuando em solo estrangeiro, com 1338 atletas espalhados em 135 ligas distintas.
José Carlos explica que a convocação de atletas que atuam em ligas internacionais e são preferidos em comparação com profissionais do futebol brasileiro é compreensível, porém faz um alerta: “Entendo a convocação de jogadores que atuam em ligas estrangeiras pelo alto nível das competições e pela intensidade, mas o que não dá para entender é que nós temos muitos talentos que disputam o campeonato brasileiro e que não tem oportunidades”.
O docente ainda relembra um fato inusitado sobre o assunto. “E é até interessante, porque quem decidiu os últimos dois jogos são jogadores do Botafogo, ou seja, atuam no futebol brasileiro”, fazendo referência aos confrontos vencidos frente Chile e Peru no mês de outubro com gols de Luiz Henrique e Igor Jesus.
Além da dupla botafoguense, apenas Weverton e Estêvão, do Palmeiras, Léo Ortiz e Gerson, do Flamengo, e Guilherme Arana, do Atlético, foram os convocados que atuam no Brasil, confirmando a predominância dos que jogam no exterior na lista final.
Contudo, José Carlos ainda destaca a fase de transição que o elenco do Brasil está passando com velhos conhecidos cedendo lugar às jovens promessas. “Estamos em um momento de integração do ciclo novo de jogadores que vai formar o elenco da seleção brasileira. É um tempo de renovação de gerações, e isso é sempre difícil”, avalia.
Assim, a quantidade de novos atletas que vestiram a camisa da seleção desde 2023 demonstra as mudanças no ciclo. Nesse recorte de tempo, mais de 36 novas caras integraram a convocação, entre eles, o jovem atacante Savinho, 20, e o zagueiro Murillo, 22.
Ademais, as propostas de renovação no elenco não são de hoje e acontecem com regularidade após a derrota para a Croácia na última Copa do Mundo, torneio no qual a média de idade dos jogadores brasileiros era de aproximadamente 28 anos de idade. No período atual, o valor médio passou para próximo dos 26 anos, tendo a segunda menor média entre as seleções sul-americanas, conforme apurado pelo jornal Correio Braziliense.
Álvaro Marques, dono do perfil informativo “Noite de Copa”, focado em estatísticas esportivas, comenta a sensação negativa com relação aos tempos atuais. “É um sentimento estranho, a gente não sabe explicar. Eu diria frustração para quem sabe o tamanho, o peso e a relevância que a seleção brasileira tem para o futebol mundial. É muito triste ver a equipe ser tão mal gerida pela CBF”, opina.
Segundo o influenciador, um dos principais erros é má organização do ciclo para a próxima Copa por parte da Confederação. Além disso, mostra-se apreensivo: “o Brasil vai chegar na competição com dois anos a menos de trabalho, e isso é preocupante demais”.
Álvaro esteve em Brasília na vitória contra o Peru por 4 a 0 em outubro e destaca a relevância desse resultado, mesmo contra um adversário considerado inferior. “Foi importante a seleção dar essa resposta para o torcedor pelos jogos complicados da próxima Data Fifa”, analisa.
O criador de conteúdo ainda ressalta que o público que assiste aos jogos do Brasil no estádio acabou mudando por conta da elitização do futebol. “A CBF deveria tentar aproximar o povo da seleção porque o que está sendo feito é o contrário, os preços altos dos ingressos acabam nos afastando”, adverte.
No jogo em que Álvaro esteve presente, o ingresso mais barato foi vendido por R$120, um valor muito alto ao se considerar fatores socioeconômicos do país e a condição de muitos torcedores que poderiam estar presentes caso fosse um preço mais acessível.
O administrador do Noite de Copa também realça que as atuações de alguns jogadores podem ser influenciadas pela falta de um planejamento tático na equipe. “O fato dos craques como Rodrygo e Vinícius Júnior não desempenharem o mesmo futebol dos seus clubes na seleção diz mais sobre como o time é gerido taticamente do que sobre eles mesmos. Eu acho que, quando a seleção estiver menos bagunçada, eles vão se sentir mais confiantes e o desempenho vai vir”, reflete Álvaro.
Bruna Ficagna, editora e apresentadora do Globo Esporte Campinas, também cita o distanciamento que surgiu entre a equipe nacional e o público: “Acredito que falta aquele sentimento de representatividade por parte dos jogadores com a camisa da seleção”.
A jornalista explica que, por conta da fase vivida, é comum esse desalento. “Atualmente, o sentimento é de desconfiança, é um novo ciclo, então é normal ter essa falta de esperança principalmente pelo novo treinador e pelos resultados das últimas copas”, avalia.
Por fim, Bruna diz que o técnico teve diferentes atitudes desde que chegou no comando e destaca alguns exemplos: “Acho que o Dorival fez boas escolhas e algumas ruins, o que é normal quando se começa um trabalho. A principal foi a convocação do Endrick e dos jovens jogadores, e uma decisão ruim foi deixá-lo no banco na Copa América em momentos decisivos”.
Embora Dorival se mantenha no cargo, informações veiculadas pelo The New York Times, na última sexta (08), indicam que a CBF estaria em contato com Pep Guardiola para a vaga de treinador em 2025. Entretanto, em entrevista coletiva no dia 10, o presidente da confederação negou que isso teria acontecido e deu suporte ao atual técnico.
Com expectativas para um recomeço, nesta quinta, dia 14, o Brasil volta a campo e enfrentará a Venezuela, mandante do jogo, que será realizado no Monumental de Maturín. Portanto, um capítulo novo pode ser traçado a depender dos resultados desse e também do jogo seguinte contra o Uruguai. Pode ser essa a virada de chave necessária para a seleção brasileira retomar nos trilhos?
