Com equipe majoritariamente feminina, diretora percorre a complexidade de narrativas do gênero e propõe olhar alternativo à indústria do audiovisual

Por Isadora França
Uma viagem de carro conduz duas mulheres ao passado de uma delas. Assim começa a trama de “Bem-vinda de Volta”, curta-metragem dirigido e roteirizado por Nicole Gullane e lançado no ano de 2023. A narrativa se desenvolve ao longo de um dia na vida da protagonista Marcela, que depois de anos, retorna à casa de sua família para comunicar que vai se casar com Bianca. Olhares constrangidos e comentários inconvenientes, intercalados com momentos de descontração, preenchem o almoço de domingo e recepção às noivas. Em meio a sentimentos de angústia, acanho e acolhimento, a obra escrita por Nicole descreve a realidade de mulheres que, em meio a uma sociedade heteronormativa, encontram-se na inevitabilidade de anunciar sua união, na esperança de que sejam acolhidas, ou ao menos, respeitadas. “Esperança”, aliás, é a palavra que a diretora usa para expor a intenção por trás do curta.
“Eu espero que o filme traga esperança. Fomos acostumados, desde sempre, a ver filmes heteronormativos com finais felizes e as poucas narrativas LGBTQIAP+, com finais trágicos, tristes e difíceis. Eu queria mostrar, com delicadeza, um pouco do sentimento de uma mulher que tem dificuldade em se aceitar plenamente e se colocar para a sua família, mas que ao fim, entende que isso pode acontecer.”
Além de “Bem-vinda de Volta”, Gullane também roteirizou e dirigiu outros curtas e está desenvolvendo o seu primeiro longa-metragem, intitulado “Eu só queria que você soubesse”, selecionado para o Laboratório Franco-Brasileiro do Festival Varilux de 2022. A obra teve origem em uma pesquisa conduzida por Nicole, desde o ano de 2017, a respeito de histórias de amor entre mulheres LGBTQIAP+. Dessa forma, quando finalizado, o longa entrará para a lista dos representantes brasileiros do gênero, além de fortalecer o seleto grupo de filmes dirigidos por mulheres no país. Essa inserção é particularmente relevante, dado o histórico marcado pela baixa representação feminina nos bastidores do cinema brasileiro. Isso pois, segundo pesquisa realizada pelo Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa (Gemaa), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), sobre uma análise dos filmes brasileiros de maior público lançados entre 1995 e 2016, apenas 13% dos cargos de direção são ocupados por mulheres. Em relação à composição dos cargos de roteirização, 22% são desempenhados por profissionais do gênero feminino. Em ambas as situações, as mulheres ocupando esses cargos são predominantemente de origem étnica branca.
Foi diante desse cenário díspar, que a jornalista Luísa Pécora, criadora do site Mulher no Cinema, começou a abordar a correlação entre cinema e gênero em suas reportagens, quando foi transferida para a área de Cultura, em 2013. O interesse de Luísa pelo assunto surgiu quando a mesma assistiu ao filme “Guerra ao Terror”, de Kathryn Bigelow. Ela conta que, com a vitória de Bigelow ao Oscar de Melhor Direção pelo filme, falou-se bastante sobre a participação das mulheres nos bastidores do cinema, naquele período, visto que até então, nenhuma outra mulher havia vencido a categoria.
“Foi nesse momento que eu comecei a refletir sobre o tema e a buscar conhecer mais diretoras. Portanto, foi primeiro um interesse pessoal. Em 2013, quando já tinha me transferido para a área de Cultura, fiz uma série de reportagens sobre as mulheres no cinema e percebi que havia mais gente interessada no assunto. Com o tempo, fui sentindo cada vez mais falta de um veículo em português sobre esse tema, inclusive para podermos fortalecer as discussões no Brasil, que estavam aumentando, mas ainda apenas começando. Então em 2015, quando deixei meu emprego, criei o “Mulher no Cinema”, comenta.
O site de Luísa divulga e debate o trabalho das profissionais da indústria nacional e internacional em um panorama que favorece a produção de narrativas cinematográficas que colocam a imagem feminina sob um olhar masculino e impossibilita a mulher de contar sua própria história, como ela ressalta. “De forma geral, há um menor número de filmes protagonizados por mulheres, principalmente entre os grandes lançamentos, o que torna a representação feminina menos diversa e, em última instância, sugere que as histórias centradas em mulheres não são consideradas tão universais quanto as dos homens. Além disso, as atrizes são mais comumente filmadas em cenas de sexo e nudez, e muitas histórias reproduzem estereótipos de gênero que existem na sociedade”, argumenta.
A questão das cenas de sexo e nudez atreladas às mulheres citada por Pécora inclui a utilização de corpos de meninas adolescentes, como indica o estudo intitulado “The Future is Female?”, feito pela Annenberg School of Journalism da Universidade do Sul da Califórnia. A pesquisa realizou uma análise dos principais filmes de Hollywood, lançados entre 2007 e 2016, e conclui que, dessa amostra, as adolescentes do sexo feminino tinham quase três vezes mais probabilidade de serem mostradas com alguma nudez em tela do que os adolescentes do sexo masculino (35% vs. 14,1%). Além disso, o estudo mostrou que mais de um terço das adolescentes do sexo feminino foram mostradas em trajes sexualmente reveladores ou com nudez parcial. Esse é um contexto que tanto a jornalista quanto a diretora buscam alterar.
“Mulheres colocadas como objetos, diretores que usam o sexo e a nudez para explorar comercialmente uma obra, certamente são ideologias bem distantes de tudo que eu e a equipe do curta queríamos fazer no Bem-vinda de Volta. O que sempre quisemos foi nos ver nas telas, e somos muito mais que nossos corpos. Além de ser muito importante empregar e dar espaço para mulheres no mercado. Trabalho sempre para que possamos ser ouvidas”, declara Nicole.

A diretora traça, ainda, um paralelo entre filmes que retratam um relacionamento romântico entre mulheres pela ótica de um diretor e de uma diretora, respectivamente, para ilustrar o seu ponto. “Uma comparação que me vem facilmente à cabeça é Azul é a Cor mais Quente e Retrato de uma Jovem em Chamas. O primeiro, apesar de ter sido um filme muito importante na história do cinema sáfico, utiliza-se de duas mulheres padrão de uma forma extremamente sexualizada. As atrizes foram incríveis nas interpretações e trouxeram muita profundidade para as personagens, mas as cenas de 6 minutos de sexo explícito, realmente, não tem explicação. O final também é triste, faz Adele terminar traindo Emma com um homem, nunca gostei disso. Enquanto no Retrato, Céline Sciamma explora o amor entre as duas mulheres de uma forma delicada, sutil. Vamos entrando naquele romance e nos apaixonando junto com elas. O final, apesar de elas não ficarem juntas, até porque seria impossível naquele momento histórico, nos dá esperança; mostra como uma marcou a vida da outra para sempre. Eu saio deste filme leve, enquanto o Azul me dá uma sensação ruim”.
Apesar dos avanços e das vozes cada vez mais presentes no cenário cinematográfico, Nicole pontua um desafio frequente na sua profissão, como mulher: a constante dúvida em relação à sua capacidade. Ela reitera que, enquanto os homens frequentemente têm suas habilidades aceitas sem questionamento, as mulheres precisam provar repetidamente seu valor no campo da produção audiovisual. Essa disparidade evidencia a necessidade contínua de mais representatividade e espaço para as mulheres nos bastidores do cinema.
O caminho para desfazer esses estereótipos e preconceitos passa, segundo a autora, pela realização de um trabalho de alta qualidade. Ela destaca que é por meio de produções distintas que as mulheres desafiam as expectativas e demonstram que têm muito a contribuir para a indústria cinematográfica. “Essa pauta tem sido recorrente no mercado. Ainda é muito desigual, mas aos poucos, estamos caminhando para um audiovisual mais igualitário, feminino e com muita qualidade também”, finaliza Nicole.
