O ícone do Hip hop Brasileiro King Nino Brown fala sobre a força da ancestralidade na música negra
Por Ivan Rossi

Nada representa mais a ancestralidade negra do que a música. Dos tambores do Afrobeat ao baixo dedilhado do Blues, conseguimos observar como a música negra parece conectada por uma árvore ancestral.
Para viajar por esse universo, podemos citar o verso presente no filme de divulgação do álbum “Bluesman”, composto por Baco Exu do Blues, “O Samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues, o funk é blues, o soul é blues. Tudo que quando era preto, era do demônio e depois virou branco e foi aceito eu vou chamar de Blues”. Mas por que “blues”?
O ritmo para muitos marca a primeira vez que um negro foi observado pela sociedade branca, não por sua força e sim por seu talento, ou seja, é o ritmo que abriu portas de uma indústria branca, sendo uma música completamente negra. O que levou o Blues ao status de inspiração para muitos outros ritmos.
Resultantes dessa evolução são ritmos como o rock, o jazz, o soul e até mesmo o funky, que inspirou a criação de ritmos como o próprio Rap. Para o historiador, dançarino de Soul Music e fundador da Zulu Nation Brasil 1994, King Nino Brown, “as bases de sampler e até mesmo os refrões das músicas de soul funky são usadas em suas composições pelos rappers”. Exemplos para Nino são: “Sr. Tempo bom” de Thaíde & DJ Hum e “Pânico na zona sul” do grupo Racionais Mcs, que usam samples de anos atrás.
O ato de samplear sempre foi muito presente no rap. De uma melodia completa até um sample “picotado”, samplear é pegar parte de uma obra já criada e remixar, criando algo novo, ou seja, o ritmo tem sua essência baseada na inspiração em outras músicas negras.
Essa inspiração do rap não para apenas no ritmo, por exemplo, a roda cultural de mcs compartilha semelhanças com a cultura do baile black paulistano que acontecia nos anos de 1970. “O baile black para mim sempre foi uma escola! Desde quando o Luizão da Chic Show do Palmeiras falava para gente assistir ‘Negras Raízes’ ou ler um livro em 1979”, característica muito comum nas rodas de Rap até os dias de hoje.
Essas rodas fazem muito bem o papel que a Chic Show do Palmeiras fez lá na década de 70, unindo música, dança, informação e uma juventude negra que busca mudanças em uma sociedade que os oprime.
No soul funky o que ditava o ritmo dos bailes eram os passinhos, juntamente com uma melodia que causava um misto de sensações, já no rap, mesmo tendo a melodia como uma parte importante da sua composição, o principal é a poesia, uma boa letra dita o ritmo de uma boa roda de rap.
“Gosto das letras do rap quando trazem dados históricos das lutas dos meus ancestrais, um exemplo é o grupo Z’África Brasil, quando fazem um rap falando de zumbi dos palmares”, comenta King sobre a lírica do rap.
Nos embalos de sábado ou nas batalhas de rima na sexta-feira, a música negra segue respirando e inspirando, cada dia com mais voz.
