Por Luíza Lopes


Alexander Kerner (Daniel Brühl) nasceu e cresceu, até os seus 20 anos, na Alemanha Oriental. Desde criança sonhava em ser cosmonauta e tinha grande admiração por sua mãe, Christiane Kerner (Katrin Sass), que criou ele e sua irmã sozinha, desde que seu pai os deixou para construir uma vida nova no ocidente. Christiane era uma mulher independente e se tornou promotora do progresso da sociedade, título concedido a civis empenhados em promover e defender a República Democrática Alemã (RDA), Estado da parte oriental alemã ligado ao Bloco Oriental e comandado pelas forças soviéticas. Apesar de socialista convicta, Christiane sempre teceu duras críticas governamentais às políticas sociais que impactam negativamente a vida de trabalhadores e camponeses. Para eles, ela dava sua voz e por isso sempre foi uma figura muito querida por todos.

Em 1989, Alex já era um jovem adulto, agora desiludido sobre a vida como cosmonauta e trabalhador numa oficina de conserto de eletrodomésticos. Apesar de ter sido criado em um lar de associados da RDA, Alexander não concordava com a separação do povo alemão e das privações que o regime impunha aos residentes do lado oriental. Em uma passeata pró-unificação do território, o que era para ser uma manifestação pacífica se tornou em uma briga generalizada entre manifestantes e forças militares. Como defensora dos direitos civis, Christiane não pode deixar de presenciar a violência daquela situação. Quando o olhar de Christiane, já aterrorizado, encontra o de Alex perturbado sendo preso, seu coração fraqueja e ela tem uma parada cardíaca que a leva a um coma de quase um ano de duração.

Neste estado, a socialista perdeu um dos maiores atos históricos de seu país que mudaria o rumo das vidas de todos os residentes do território alemão: a queda do muro de Berlim em 9 de novembro de 1989, representando o início do processo de reunificação da Alemanha, o fim da URSS e a instauração de um sistema consumista e voraz. Tudo era novidade e muito a população do oriente precisou se adaptar a esse novo estilo de vida capitalista. Alguns se encantaram, outros adoeceram com as consequências. Alex estava satisfeito, até o dia em que sua mãe acordou do coma e ele decidiu criar a farsa de que nada havia acontecido, protegendo-a de qualquer indício do novo mundo recém instaurado.

Percepções sobre a obra

Se você não conhecia ainda, esta é a sinopse de Adeus, Lenin!, filme alemão lançado no natal de 2004, há 18 anos atrás, dirigido pelo alemão Wolfgang Becker e protagonizado pelo ainda jovem Daniel Brühl e pela atriz Katrin Sass.

Ao ler apenas a sinopse pode não parecer, mas a obra consegue ser surpreendente com sua execução simples e roteiro muito bem elaborado. Wolfgang Becker é historiador especializado em história alemã, norte-americana e em literatura pela Universidade Livre de Berlim. Para retratar o contraste de estilos de vida entre os povos da Alemanha repartida, Becker usa a narrativa do filho superprotetor que, ao se deparar com a situação delicada da mãe idealista, decide mantê-la reclusa em um tempo-espaço próprio, um lugar em que sempre que ele entrasse, voltaria para seu antigo estilo de vida: pacato e simples.

Outro aspecto presente no filme em vários momentos é o da cultura como uma forma de união. Em 1990, ocorreu a Copa do Mundo, neste ano sediada na Itália. Ainda em período de integração entre os alemães, os jogos se tornaram um meio de concretizar essa união pelas celebrações a cada vitória alcançada pela Seleção Alemã. Isso é bem retratado ao apresentar Alexander trabalhando como instalador de antenas de TV para que as famílias pudessem assistir aos jogos diretamente de suas casas. Posteriormente, é retratado a celebração do povo com a vitória da Alemanha sobre a Argentina. Uma cena com muitas luzes, fogos, gritos e a representação dessa união através do abraço amoroso entre o protagonista e sua namorada que assistem a cena de um terraço.

O filme é repleto de frases impactantes, pensamentos do narrador-personagem que sempre nos traz a sua perspectiva das situações que Alex tem que enfrentar. O pretexto da mãe abre espaço para que ele molde a realidade a sua vontade, criando uma RDA a seu estilo, como ele gostaria que fosse.

“A vida em nosso pequeno país tornou-se cada vez mais rápida. Nós éramos como átomos num grande acelerador de partículas. Mas longe da rapidez da nova era,havia um lugar tranquilo, silencioso e relaxante onde eu podia descansar finalmente.”

A obra utiliza recursos técnicos, fotográficos e sonoros que nos distanciam daquele drama parado costumeiro. Pelo contrário, o longa explora o “mix” de emoções. Durante a produção, há a presença de cenas de alívio cômico que nos distraem das tragédias cotidianas da vida retratada pelo filme, ao ponto de nos levarem para um estado de relaxamento que só é perturbado em pequenos momentos de lucidez. Como, por exemplo, quando Alex e sua irmã, alegres conversando com sua mãe, são atingidos pela inesperada lembrança de que devido ao coma, Christine teria lapsos de memória, desassociando da imagem daquela mulher que inspirava confiança e independência para uma debilitada e que por isso precisava ser privada da realidade do mundo que ela não reconheceria mais.

Chegamos ao clímax da história quando Christine toma coragem para se levantar do seu leito e caminha pelo apartamento da família, que já não tinha a cara dos anos 70, pela vizinhança estrangeira, com costumes e cultura diferentes daqueles que ela convivia na RDA, e pelas ruas repletas de anúncios de marcas multinacionais comuns do ocidente. Apesar disso, a farsa conseguiu ser mantida por Alex, mas a partir desse ponto da história é notável o processo de encerramento que se inicia, amarrando as pontas soltas com revelações inesperadas, mas tudo de uma maneira orgânica, apesar de chocante.

A surpresa positiva sobre Adeus, Lenin! é determinante para essas considerações, sem sombra de dúvida. Mas acho ser impossível não se encantar pelo mundo construído cuidadosamente por um filho que se recusa a correr o risco de perder sua mãe quando já enfrenta a vida dura e exploratória de um sistema que ele idealizou por tanto tempo. Apesar do seu teor político e ideológico, esta é uma obra aconchegante, que tem o drama e a comédia na medida certa para assistir numa tarde de final de semana.

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