Nova geração de nômades escolhe viver viajando e encontra suporte na tecnologia para buscar por aventura e liberdade.

Por Eduardo Álvares – 09 de maio de 2020

Cada vez mais, viajantes estão rejeitando a rotina convencional e embarcando em um estilo de vida nômade, em busca de liberdade, simplicidade e contato com a natureza. Essa nova geração de nômades está explorando o mundo atrás de novas perspectivas e, graças à tecnologia, tem encontrado um caminho mais aberto para isso.

Desde muito tempo as pessoas idealizam viver viajando, desprendidas de uma rotina na cidade e livres para conhecer e explorar o mundo. Em “On The Road”, o romance semi-autobiográfico escrito por Jack Kerouac em 1957, conhecido por celebrar a vida na estrada e a busca por liberdades, o autor afirma: “Melhor dormir em uma cama desconfortável livre, do que dormir em uma cama confortável sem liberdade”. Isso porque ele acreditava que a vida não deveria ser limitada por convenções sociais e que a aventura e a espontaneidade podem ser mais importantes do que o conforto e a segurança.

Hoje em dia, muitas pessoas ainda seguem essa filosofia, mas a diferença é que as mudanças do mundo estão tornando essa possibilidade mais acessível, permitindo que viajantes não fiquem mais tão à mercê da sorte como era antes.

Um exemplo é a comunicadora e influenciadora digital Aline Sena, a @nomade_ali, de 52 anos, que em 2017 trocou uma casa de quatrocentos metros quadrados para morar em um veleiro de 27 pés com o ex-marido. Ela, que era produtora, passou a escrever e editar suas produções a bordo. Inclusive, com o tempo, sua principal fonte de renda passou a ser um projeto documental autoral disponível no Youtube sobre pessoas que moram no mar, o #SAL, que tornou-se o maior no ramo. E, dessa forma, Aline mudou totalmente seu estilo de vida sem desistir da sua paixão pelo seu ofício, a produção de vídeos.

Para a influenciadora, a mudança de casa trouxe diversos desafios, como a ausência de espaço e novas perspectivas de conforto. Vivendo sob as ondas até uma chuva pode se tornar um grande contratempo. Ela pontua: “Eu tive que abrir mão de conforto físico como eu conhecia, como eu tinha referência. Se começa a chover e eu to em um apartamento é só fechar e beleza, mas no barco tem várias formas de entrar água nele”, e acrescenta: “conforme a condição, o mar mexe, e se tá muito intenso, você não consegue nem trabalhar no seu computador. E você tem que se adaptar”.

Mas, para Ali, o que teve que abrir mão se justifica totalmente pelo que seu novo estilo de vida trouxe. A liberdade e a simplicidade da vida nômade ressignificou positivamente todas suas relações, porém, o que mais aprecia nisso tudo é o contato com a natureza. Segundo ela, “O ambiente realmente altera sua percepção na vida, então, morar num barco no mar por 4 anos mudou minha percepção, meu jeito de estar no mundo. Olhar para aquela imensidão no horizonte, ver o movimento da água, ver as plantas assim, isso acolhe. É muito interessante que a gente é a natureza e a gente esquece disso”.

Aline trabalhando remotamente. Foto: https://nomadeali.com.br

As vivências dos nômades são múltiplas e ímpares, mas o que vem convergindo é esse suporte encontrado na tecnologia. Com laptops, smartphones e outros dispositivos móveis, os nômades modernos podem trabalhar remotamente, se comunicar com familiares e amigos, planejar suas viagens e se programar melhor. Além disso, a internet permite que eles se conectem com outros viajantes, se inspirem e compartilhem dicas, histórias e informações sobre destinos em todo o mundo.

Outra história dessas é da goiana Larissa Silva, a @nerdistraida, que aos 20 anos deixou Santa Helena de Goiás e foi para Ilhabela, trabalhar em criptomoedas com colegas que conheceu no chat online Omegle. Após alguns meses, o emprego não foi para frente e se viu perdida na ilha, mas ainda com a vontade enorme que sempre carregou de viajar e explorar o mundo.

Nesse meio tempo ela teve que morar de favor e pensou muitas vezes em desistir. Uma saída foi a possibilidade de trabalho voluntário em hostels, através do aplicativo Worldpackers. A goiana, então, começou a voluntariar e isso, aliado com trabalhos extras no hostel, bicos em quiosques e vendas na praia, fez com que ela conseguisse seguir viagem.

Lariconha, como é apelidada, enfrentou diversos desafios nesses últimos dois anos, mas, o que traz sentido para continuar a jornada, além das experiências, é a “liberdade de poder escolher”. Essa liberdade é além da geográfica, é a capacidade de mudar cotidianamente sua rotina e de ser mais você mesmo, por não estar preso a um uniforme ou um lugar. Além disso, também destaca a conexão que cria com os lugares que está passando.

“O fato de eu poder ficar um tempo maior nos lugares, sem ser só uma semana de férias, igual uma pessoa que viaja, traz outras percepções. Eu aprecio o dia de sol lindo, mas eu também aprendi a apreciar o dia de chuva, o dia nublado e o dia de frio porque eu não tô com essa pressa. Eu posso ver beleza em tudo porque tô no meu tempo. E posso conhecer mais pessoas e aprender a ver o lugar pelos olhos de quem mora ali”, explica.

A jovem viajante, hoje, assim como Aline, tornou-se uma nômade digital, isso é: alguém que aproveita a tecnologia para realizar as tarefas de sua profissão enquanto viaja pelo mundo. Ela está trabalhando para o próprio Worldpackers, posto que assumiu muito apoiada pela experiência em espanhol que adquiriu em viagem, e atua remotamente prospectando novos anfitriões na Espanha. Também está se voluntariando em um hostel no Rio de Janeiro, em Itanhangá. Curiosamente, quem ofereceu essa oportunidade de voluntariado foi um amigo de sua cidade em Goiás, que entrou nessa vida justamente após descobrir esse caminho pelos conteúdos postados por Larissa em seu Instagram pessoal.

Larissa no Rio de Janeiro. Foto: http://www.instagram.com/nerdistraida/

Redes Sociais, Comunidades e Aplicativos:

Além da facilidade do trabalho remoto, diversos recursos tecnológicos têm contribuído na jornada dos nômades modernos.

Com presença forte nas redes, a nova geração nômade parece estar muito ligada às tendências de comunicação. São centenas de canais no Youtube sobre viver viajando, sob as mais diferentes óticas possíveis; vida em barcos, trailers, mochilão, trabalho em cruzeiros e voluntariado. Além disso, no Instagram, os nômades estão muito presentes, fazendo postagens e produzindo reels sobre sua vida, passeios e curiosidades.

Esses conteúdos, que à primeira vista podem parecer simples, atingem milhares de pessoas que se engajam e formam uma comunidade. Em um de seus últimos vídeos, por exemplo, Aline Sena, na conta @nomade_ali, registrou um cachorro pescando no litoral da Tailândia e a despretensiosa cena despertou o interesse de 15 mil pessoas, que consideraram o vídeo como uma fonte de inspiração.

Esse engajamento não se limita apenas a likes e comentários, essas pessoas se unem e se apoiam. Basta dar uma rápida olhada nos grupos do Facebook para perceber como eles se tornaram um verdadeiro ponto de encontro para nômades em busca de troca de experiências, dicas, indicações de lugares para se hospedar ou trabalhar, além de um lugar para desabafar e compartilhar os desafios da vida na estrada. Com a possibilidade de criar comunidades fechadas e segmentadas por interesses específicos, os viajantes encontraram um espaço onde podem se conectar com pessoas que compartilham de suas mesmas paixões e estilos de vida, construindo redes de apoio e amizades virtuais que muitas vezes se estendem para fora do mundo digital.

Uma das histórias mais famosas de viajantes brasileiros começou exatamente por um desses grupos, o “Mochileiros”, com atualmente, 182 mil membros. A comunidade apresentou pela primeira vez: a viagem de Jesse Koz, influenciador que fatalmente faleceu no ano passado enquanto cruzava a América com seu fusca “Dodongo” e seu querido cão, o Shurastey.

Em seu livro, “Minha jornada com Shurastey”, ele conta: “Na semana em que pedi demissão, comecei a buscar informações, até que encontrei um grupo no Facebook: Mochileiros. Lá, comecei a entender como tornar isso possível, como as pessoas eram realmente felizes vivendo dessa forma. Começou a despertar dentro de mim uma vontade ainda maior de viajar, de ser feliz igual aos viajantes que relataram suas aventuras, de compartilhar, de ver e viver daquela forma simples. Durante um mês esse pensamento invadiu completamente a minha cabeça. Eu só pensava nisso, acordava e ia dormir pensando nisso. Até que decidi escrever um post no grupo. Contei o que estava a fim de fazer, e graças a esse post, recebi inúmeros comentários positivos, muitas energias positivas, pessoas mandando mensagens, me dando dicas, dizendo aonde ir, o que levar. Quando despertei no outro dia, acordei decidido: iria viajar”.

Relatos no grupo dos Mochileiros. Foto: https://web.facebook.com/groups/229895393761607

Além das comunidades do Facebook, alguns aplicativos também têm um papel muito importante na vida nômade. O Worldpackers, por exemplo, que foi tão essencial na vida da Larissa, é uma plataforma que conecta viajantes com anfitriões ao redor do mundo. Através do aplicativo, é possível encontrar oportunidades de voluntariado, com trabalhos de 5 horas diárias, em troca de hospedagem e alimentação em diversos lugares do mundo.

Outros aplicativos também têm facilitado a vida nômade, como o Couchsurfing, que liga viajantes com moradores locais dispostos a oferecer um sofá ou cama para dormir de graça, e o Airbnb, que permite alugar casas e apartamentos de forma mais barata que os hotéis convencionais. Assim, através dessas plataformas, tem sido mais fácil de encontrar hospedagem acessível e se conectar com moradores locais.

Liberdade, Natureza e Simplicidade — Notas sobre o desapego:

Desconectar-se tornou-se uma necessidade, mas uma tarefa árdua, para muitos em nossa sociedade. Vivendo em cidades com infinitos estímulos, enjaulados em prédios, bombardeados por propagandas sobre consumo, vivemos em uma sociedade cansada, que muitas vezes sente a necessidade de fugir de tudo. Por isso, é geralmente essa tríade que um nômade procura: liberdade, contato com a natureza e uma vida mais simples.

Dessa maneira, mesmo que muitos desses viajantes vivam muito conectados, buscam a desconexão. Essa busca aparentemente contraditória tem uma justificativa: uma vida com conexões que tenham sentido prático. Em uma metáfora, é ter um guarda roupa só com peças que são usadas. Isso é o que chamamos de estilo de vida minimalista: diminuir drasticamente os níveis de consumo, adquirindo apenas o que é necessário para uma vida plena, gastando energia física e mental somente com aquilo que importa.

Por isso, histórias de nômades também são histórias sobre desapego. Uma passagem que resume bem é da Aline com seu carro. Ela relata: “Eu demorei bastante para vender meu carro quando estava no barco. Já não precisava mais do carro, já não usava ele, ficava só parado em estacionamentos. E eu tinha dificuldade de imaginar que eu ia ficar sem carro, porque, para mim, meu valor estava ligado a esse objeto. E aí depois que eu fui percebendo: não tem problema nenhum eu vender o carro e eventualmente pegar um ônibus ou alugar um carro. É engraçado o desapego do carro ter demorado tanto, porque realmente eu tinha transferido o meu valor para o fato de eu ter um carro, é um negócio estúpido, mas é o que minha consciência construiu sobre o valor de ter aquele objeto”.

Vivendo com pouco espaço e viajando muito tempo, desapegar-se de algumas relações e bens materiais e imateriais acaba sendo um requisito mínimo para a jornada. É o que permite ser livre, mas exige muita disposição. Viajar é renunciar do conhecido, do confortável e se jogar no desconhecido, é entender que não precisamos de muito para viver bem.

O capítulo “Desapego” do livro de Jesse Koz é o imediatamente anterior ao início de sua jornada, e o influenciador encerra este com a passagem: “Lá no fundo, apesar das conquistas materiais, eu não era feliz. […] Em duas semanas eu tinha vendido tudo, tinha me desapegado de tudo o que eu tinha adquirido em sete anos. Só tinha me restado o Shurastey, o fusca e umas mudas de roupa. Era mais que o suficiente”.

Jesse Koz e Shurastey. Foto: https://encr.pw/z0swD


E, para quem é essa vida?

A vida nômade é uma aventura incrível, com a possibilidade de explorar o mundo e experimentar novas culturas. No entanto, exige certos sacrifícios, o que deixa claro que não é para é para todos. Viver viajando também significa deixar para trás a estabilidade e o conforto da vida convencional.

Para Larissa, o que define se essa vida é para você é sua vontade. “Não tem isso de você tem que ter tal idade, ou ter que ter tal coisa. É claro que algumas características facilitam, eu, por exemplo, tenho só 22 anos, não tenho filhos e tenho a oportunidade de trabalhar remotamente. Mas no final é sobre até onde sua vontade bate com sua disposição para se desapegar”.

Aline Sena acredita que essa vida é mais fácil para quem tem uma certa autonomia: “se a pessoa sente que não tem tanto a necessidade de vínculos e compromissos com um lugar só. […] Se você tem muitas amarras, se sua vida tem que estar ligada a muitos compromissos, eu acho que torna-se um pouco difícil conciliar“. Ela adiciona também que a possibilidade do trabalho remoto facilita muito essa jornada: “Quem consegue trabalhar online, quem consegue se sustentar assim, não tem a necessidade de estar fisicamente, é mais fácil”, afinal, nesse caso a pessoa não vai precisar se preocupar tanto diariamente com formas de gerar seu sustento.

Mas uma coisa é certa, entre os adeptos desse estilo de vida podem-se ver pessoas de todo tipo: viajantes solitários, casais, famílias inteiras, jovens recém-formados, profissionais em busca de novas oportunidades de trabalho, aposentados aventureiros. Gente que vive viajando das mais diferentes formas possíveis. O importante é estar preparado para as mudanças e desafios que essa vida itinerante pode oferecer. E isso é outra dica para quem pensa em se tornar um nômade: não se basear tanto na experiência dos outros e traçar seu próprio caminho. Afinal, são milhares de possibilidades e todos têm capacidades e vontades diferentes que devem ser colocadas em jogo.

Por fim, um último conselho que Larissa traz para se encaixar nessa vida é se planejar: “Acho fundamental o planejamento, eu fiz algumas coisas sem planejar e foram muito mais difíceis do que se tivesse me programado. Rotina é importante, ter um planejamento das coisas que eu vou fazer também é importante. Eu corri da rotina por muito tempo, mas é importante. A diferença da minha rotina é que posso alterar ela a qualquer momento e e executar um plano diferente se quiser mudar as coisas”. Temos diferentes necessidades e a vida itinerante pode dificultar algumas delas, assim, ter um plano estruturado é a chave para conciliar nossas demandas com o nomadismo.

Cena de “On The Road. Foto: https://i.ytimg.com/vi/Ab2hU7TZXZM/maxresdefault.jpg

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