O quarto álbum de estúdio da artista não só reforça, como também amplia sua linguagem artística, entregando a expressão mais completa e refinada de sua discografia até o momento
Por Giovanna Araújo
Mais uma vez, no fim de março, Melanie Martinez transforma o calendário em ritual e inaugura um novo capítulo com HADES, álbum que chegou na última sexta-feira (27 de março) com 18 faixas inéditas. Após quase uma década alimentando a história da Cry Baby ao longo de três álbuns, a artista inicia agora uma era que se distancia radicalmente de tudo o que construiu até aqui. Definido pela própria cantora como a face distópica deste universo, o projeto nos introduz a Circle, uma artista de Inteligência Artificial criada pela corporação Hades Tech, com um propósito inquietante de extinguir, de forma definitiva, a presença humana na arte.
Seu objetivo na proposta conceitual do disco é claro: preencher as lacunas que distanciam o ouvinte de reconhecer um colapso iminente da humanidade, uma distopia que já deixou de ser um futuro distante ou ficcional e agora se torna uma realidade. A fim de contrapor projeções fantasiosas e alarmistas de um apocalipse com trombetas e anjos descendo dos céus, a artista se ancora nas fraturas do presente. As crises políticas e econômicas que se acumulam, o avanço desordenado da tecnologia, o uso desproporcional de inteligências artificiais, os conflitos geopolíticos e religiosos e a desigualdade que persistem como estruturas já delineiam – silenciosamente, ou não – um cenário distópico.
Cada música deste disco explora uma armadilha diferente, armada pelo tipo de energia maligna e patriarcal que é o HADES. Não se trata de prever um futuro distópico, trata-se de reconhecer padrões destrutivos que já existem. A mesma dinâmica se repetindo em lugares diferentes. Controle disfarçado de proteção. Crueldade apresentada como lógica. Exploração vendida como oportunidade. Uma vez que você começa a perceber esses padrões, fica difícil ignorá-los.
Nota de Melanie Martinez à imprensa sobre HADES, em 4 de fevereiro. (Fonte: Billboard)
Em HADES, o deus grego que rege o submundo é ressignificado como representação do patriarcado e de um sistema estruturalmente opressor, como mencionado em IS THIS A CULT?. A canção idealiza uma realidade onde mulheres subvertem a lógica patriarcal ao dominar Hades e instauram sua própria ordem, evocando à ideia de culto. Fiel ao viés crítico de sua arte, Melanie apresenta aqui um álbum mais politizado e direto, levantando questões como misoginia, desigualdade social, negligência governamental, crise ambiental entre outros debates contemporâneos.
Os elementos orgânicos de natureza-morta e insetos que ilustraram seu último trabalho, PORTALS, agora cedem parte de seu espaço a um ambiente deliberadamente sombrio e fantasioso. Ainda que tenha optado por manter sua identidade artística ao recorrer a tons pastéis na construção visual do novo projeto, essa escolha não compromete sua proposta central de distopia e colapso sistêmico. Ao se associarem aos símbolos religiosos – especialmente católicos – que protagonizam a composição estética, as cores assumem um brilhante papel de equilíbrio e eufemismo, além de contribuir para a coerência que sustenta a ponte entre conceito visual e sonoridade.
Melanie Martinez em photoshoot promocional de HADES. (Fotos: Cho Giseok)
Para além da dimensão simbólica, a era expõe também uma outra face mais ousada e sensual da performance da artista que, até então, havia sido explorada apenas no videoclipe de The Bakery (2020). Esta reaparece agora nos visualizers já disponibilizados, através dos figurinos e coreografias expressivas ao lado de seus dançarinos. É nítida a intenção de Melanie em ampliar a linguagem de sua arte – muito bem-sucedida, por sinal –, bebendo em fontes da performance do pop tradicional combinadas à sua singularidade alternativa.
Ainda nesse sentido, o material audiovisual de HADES abandona os tradicionais videoclipes elaborados que contemplaram toda sua carreira e se limita a “mini clipes” verticais nas redes sociais. Em um álbum que problematiza essencialmente o uso de inteligências artificiais na arte e a liquidez do consumo em tempos digitais, essa abordagem funciona como uma extensão dessa crítica, visto que os usuários têm preferido cada vez mais conteúdos curtos, superficiais e responsivos enquanto a densidade e qualidade da mensagem são deixadas em segundo plano.
Visualizer/mini clipe do segundo single de HADES, Disney Princess
Garbage é a faixa que inaugura a experiência da obra já instaurando uma ambientação nebulosa imersa em conflitos e crises, se afirmando como uma forte epítome de todo o projeto. Nessa abertura avassaladora, há um mergulho profundo no desespero de um mundo à beira de seu declínio e imerso no caos deixado pela própria humanidade, ao mesmo tempo em que traz uma reflexão sobre como um comportamento individualista e oportunista da sociedade pode contribuir para a formação de um fim próximo.
Assim como em Cry Baby e K-12, HADES também se aproveita de diversos recursos sonoros para compor cenários que dialogam diretamente com a lírica de cada canção. Contudo, os sons de brinquedos experimentais são completamente deixados e substituídos por elementos que evocam esse clima apocalíptico de um mundo adoecido, como tiros, sinos e explosões em Garbage e moedas em Monopoly Man, que traz o acúmulo de capital e mais-valia no centro de sua temática.
Garbage, Melanie Martinez
A grama entrou em combustão, a água está sem peixes
Os terremotos são ataques que duram uma hora
A violência se alastra, os tiros substituem
O som dos sinos das igrejas e de hinos
Além da retomada dessa construção de camadas sonoras com efeitos que dinamizam o instrumental, a artista se permite, neste projeto, abraçar outras possibilidades sonoras e expandir seu repertório. Faixas como The Vatican e Hell’s Front Porch incorporam um pop mais eletrônico até então pouco explorado em sua discografia. Há ainda uma presença marcante de dream pop, que envolve Avoidant e Monolith em uma atmosfera melancólica e cinematográfica e que, pela primeira vez, foi executada plenamente e com maturidade. Contudo, são The Plague, ao explodir em um pop funk vibrante, e Grudges, ao trazer ecos de rock industrial adaptados ao seu estilo, que mais se destacam nesse movimento de imprevisibilidade e experimentação.
Ao mesmo tempo em que explora novos territórios musicais, Martinez também preserva respiros que já integram sua concepção artística, com instrumentais que resgatam sua identidade enquanto cantora indie e alternativa. Batshit Intelligence, por exemplo, soa como uma faixa descartada de seu debut Cry Baby ao recorrer à uma estética característica da época de 2015/2016, enquanto Gutter e Weight Watchers utilizam a mesma lógica de construção sonora de outras canções que marcaram cada fase de sua carreira como Carousel (Cry Baby), Nurse’s Office (K-12) e Pluto (PORTALS).
Carousel, Nurse’s Office, Pluto e Gutter em sequência, evidenciando o uso da mesma base instrumental para todas as músicas, constituindo uma estética sonora que já se tornou assinatura de Melanie Martinez
Como já pincelado, este trabalho se apresenta, no geral, liricamente menos denso em comparação ao seu último lançamento, PORTALS, embora ainda traga faixas pontuais mais intimistas e profundas. Aqui, as composições adotam uma linguagem direta e clara ao retratar realidades espinhosas, buscando transmitir a mensagem de forma acessível e sem ruídos, enquanto em Cry Baby e K-12 predominavam metáforas ligadas ao universo narrativo criado. White Boy With a Gun, quarta faixa do álbum, por exemplo, menciona diretamente a violência que assola o povo palestino desde 2023: “Seus cérebros ignorantes chamam genocídio de guerra, protegem os sentimentos brancos enquanto rolam o feed e ignoram”.

Apesar de HADES percorrer por diversas temáticas complexas e muitas vezes desconfortáveis de serem abordadas, há duas músicas que certamente são mais polêmicas: The Vatican e Chatroom. A primeira, como o título sugere, estabelece uma referência direta à Igreja Católica, trazendo à tona diversas questões como hipocrisia, misoginia e até menções aos escândalos envolvendo pedofilia que se arrastam pelo catolicismo há seculos. A canção coloca em xeque a instrumentalização da religião que valida preconceitos e hierarquias que controlam certos grupos, enquanto faz uma reflexão provocativa sobre o fanatismo religioso para com uma imagem idealizada de Deus.
Já Chatroom, penúltima faixa do álbum e também a mais longa, com mais de 6 minutos de duração, assume um papel de carta aberta de Melanie Martinez aos seus haters, que alimentam ondas de ódio contra a artista há anos. A composição – assim como todas as faixas do projeto – conta com total autoria de Melanie em colaboração de seu produtor Cj Baran. Com um tom levemente sarcástico, a letra sugere que aqueles que promovem comentários maldosos na internet estão, na verdade, projetando nos outros suas próprias frustrações e carências afetivas. Desabafos falados na voz da cantora, introduzidos ao longo da canção de forma estratégica como se fossem trechos grampeados de uma ligação, criam uma atmosfera íntima na melodia que conduz suas palavras diretamente ao ouvinte.
Em seguida, The Last Two People on Earth, encerra a obra como sua única love song. Em um clima de conformismo diante de um mundo que já encara seu fim, reforçado por efeitos de explosões, sirenes e fogos de artifício, a lírica soa como uma declaração de amor em meio ao caos. Há o desejo e a paixão latentes que envolvem as duas últimas pessoas da Terra em uma calorosa despedida e o desejo de encontrarem seu destino fatal juntos. Assim, a lógica de conectar o início e encerramento do álbum aplicada previamente em PORTALS é retomada, ao estabelecer um diálogo entre a primeira faixa, que marca o início do fim, e a última, onde o colapso já é irreversível e se encaminha para seus últimos estágios.
Tracklist completa do álbum HADES ilustrada em stop motion (Produção: Phoebe Jane Hart)
HADES se consolida como o disco mais conceitualmente coeso de Melanie Martinez, articulando com precisão as temáticas dentro desse novo universo criado em torno da personagem Circle. É nítido o efeito do tempo e da experiência ao longo dos anos na habilidade da artista em equilibrar construção narrativa e liberdade criativa. Em 2020, seu EP After School funcionou como vitrine para a potência de sua composição em sua forma mais profunda e livre, o que foi reforçada agora no novo projeto com letras que, apesar de expressivas e diversas, não escapam à proposta central.
Entretanto, esse refinamento conceitual contrasta com uma das eras promocionais mais difusas de sua carreira. A ausência de uma estratégia de marketing clara e a aposta em formatos fragmentados, ao mesmo tempo em que parece uma escolha deliberada – tendo em vista que métricas e adequação ao novo padrão de consumo nunca foram grandes preocupações de Melanie –, também evidenciam uma ineficiência na condução de sua divulgação. Esse descompasso não diminui a força do álbum, mas fragiliza sua recepção e alcance não apenas para além de seu nicho, mas até mesmo dentro dele.
Ainda assim, o lançamento reafirma que Melanie Martinez, mais do que buscar números, está interessada em construir universos e fazer da arte seu campo legítimo de expressão, reflexão e comunicação com aqueles que a apreciam. HADES é a primeira parte de um projeto de disco duplo e parece concretizar uma proposta que vinha sendo desenvolvida desde K-12: “Tenho dois álbuns novos que, pessoalmente, sinto que são os melhores até agora”, afirmou a cantora em sua mensagem para a Retrospectiva do Spotify 2025. Trata-se de sua obra mais madura e politizada até o momento, que revela uma artista mais segura em relação às suas criações ao se permitir explorar novas abordagens, ao mesmo tempo em que sustenta sua identidade e essência, tanto estética quanto sonora.
Ouça HADES na íntegra do Spotify



