Comemorando o aniversário na avenida, a escola de samba se prepara para o Carnaval 2026

Por Helena Singillo e Isabela Nascimento

O batuque é ouvido de longe no bairro da Vila Falcão. A rua Bernardino de Campos, bem iluminada e fechada devido ao ensaio, abriga ritmistas, dançarinos, vizinhos e, todos, sambistas. Aos comandos da mestre Juuba Martins, eles entram em sincronia. Todos acompanham o ritmo e dançam. Vestem vermelho, amarelo e branco e sorriem. Unem-se em prol de um único objetivo: ensaiar para o carnaval de 2026.

Esse é o cenário das quintas-feiras, na sede da escola de samba Mocidade Unida da Vila Falcão, que se prepara para o momento mais esperado de 2026: o de pisar na avenida Jorge Zaiden e ver o trabalho feito ser recompensado. 

Há 50 anos, essa escola de samba nascia – no mesmo bairro -, mas com o nome e alguns rostos diferentes. O Grêmio Recreativo Escola de Samba Mocidade Independente da Vila Falcão foi instituído  em 25 de Janeiro de 1976,  a pouco mais de um mês para o carnaval e sem receita para construir uma escola. 

À época,  os integrantes se juntaram e buscaram diversas formas de arrecadar fundos: rifas, doações e muito esforço coletivo. Se apresentaram e naquele mesmo ano saíram campeões. Era o início de um tempo vitorioso.

A Mocidade Independente inovou o carnaval bauruense. Logo nos primeiros anos de desfile, a agremiação se inspirou na festa  realizada no Rio de Janeiro e chamou a atenção da população.

Nos anos 1970, o carnaval fluminense passou por uma verdadeira revolução estética, feita por Joãosinho Trinta, na época carnavalesco da Salgueiro, que promoveu a maior sofisticação e luxo das escolas. A divisão por alegorias, as fantasias brilhantes e luxuosas e os carros alegóricos grandiosos foram algumas das características do carnaval carioca adaptadas ao contexto local. 

“Nós fizemos, logo no segundo ano da Mocidade, uma visita ao Rio de Janeiro, eu e o Sérgio Araújo, que é um dos fundadores da escola. Fomos recebidos pelo João Trinta no Theatro Municipal. Passamos um dia com ele, ouvindo, buscando informações”, conta José Ricardo Carrijo, um dos fundadores e ex-presidente da escola. “Isso trouxe uma certa competitividade à escola, porque começamos a fazer carros alegóricos bem elaborados, começamos a ter um visual bem cuidado, e isso trouxe uma série de títulos logo no início da escola”, completa.

A escola foi bem recebida pelo público bauruense. A maioria de seus integrantes era residente da Vila Falcão, mas isso não era uma restrição. “Não só eu, mas outras pessoas não éramos do bairro, mas o núcleo principal era relacionado à Vila Falcão. Depois, com o passar do tempo, isso foi se expandindo”, conta Carrijo.

José Ricardo Carrijo. Foto: Redes sociais/ Reprodução

A era vitoriosa durou até 1981, com 6 títulos seguidos. “Em 1982, quando fui presidente pela primeira vez da escola, fizemos um desfile marcante. Talvez tenha sido o maior desfile já realizado, em termos quantitativos, na história. Eram 1.460 integrantes, do tamanho de uma escola média de São Paulo ou até Rio. Fizemos esse desfile maravilhoso e acabamos em terceiro lugar, depois de seis títulos”,  destaca o ex-presidente. 

O jejum de títulos foi curto. Em 1988 a escola voltou a vencer e emplacou mais uma série de vitórias, sendo campeã até 1994. “Quando eu voltei a ser presidente, em 1988, seis anos depois, a gente foi campeão com todas as notas máximas, 45 notas 10. Depois veio o bicampeonato em 89[…]. Naquele momento, nós conseguimos dar a volta por cima”, conta Ricardo.

Até o ano 2000, a agremiação totalizou 13 títulos de campeã, 10 de vice e 1 terceiro lugar. Apesar do bom histórico, a escola também passou por dificuldades. Em 1989, o governo municipal surgiu com a proposta de construção de um sambódromo, mas com a condição de que a verba pública não seria repassada às escolas naquele ano. A proposta foi aceita, mas o impacto financeiro para as agremiações  de Bauru foi grande. Algumas não desfilaram nos anos subsequentes pela falta de dinheiro.

A mocidade, porém, prosseguiu. Desfilou e foi campeã em 1991 no novo local – Sambódromo Municipal “Guilberto Duarte Carrijo”. Mas o repasse do governo foi ficando  pior com o passar dos anos. Isso provocou atrasos na preparação do desfile  e  pressionou as escolas a diminuir o luxo e a sofisticação. 

Problemas internos também dificultaram a situação: divergências entre a gestão e a saída de membros importantes colaboraram para que a escola parasse de desfilar, em 2000. 

Unida, a mocidade renasce

 Luiz Carmo e Cléber Alves, presidente e vice-presidente. Foto: Redes sociais/ Reprodução

Em março de 2014, na quadra do Clube Fortaleza de Bauru, surge a Mocidade Unida da Vila Falcão, pelas mãos de Jair Odria e dissidentes da antiga Mocidade Independente.

Cléber Alves Pedro, atual vice-presidente da agremiação, conta como surgiu o convite para participar da escola: “Eu nasci em Agudos e lá o meu pai tinha uma escola de samba. Eu tocava tamborim e também desfilava. Quando eu vim para Bauru eu morava perto da Cartola, que é a principal concorrente da Mocidade e acabei frequentando muito a escola. Na época eu não era fanático em relação à escola de samba. Comecei a frequentar aqui [Mocidade Unida] em 2014, com os eventos. Aí, de repente, uma amiga do Carmo [atual presidente da Mocidade Unida] montou uma ala aqui. Ela colocou o Carmo e me adicionou na ala. Eu desfilei e estou aqui até hoje”.

Em 2015, primeiro ano desfilando no sambódromo como Mocidade Unida, a escola leva o vice-campeonato, atrás da rival Acadêmicos da Cartola. Já em 2016 o título volta às mãos da mocidade. Desfilando com 600 integrantes, oito alas e quatro carros alegóricos, a agremiação apresentou o enredo “Asas pra que te quero? O eterno sonho de voar”, uma homenagem ao astronauta bauruense Marcos Pontes.

Desfile de 2016. Fotos: Redes sociais/ Reprodução

O bicampeonato veio em 2017 e, a partir disso, a escola foi intercalando os títulos com a Acadêmicos do Cartola. O carnaval mais recente, de 2025, não deu outra: Mocidade Unida campeã, somando 5 títulos desde a sua fundação em 2014. Na avenida Jorge Zaiden, a escola homenageou a diversidade, com o enredo “Um Canto de Encanto Colorindo o Samba, Um Arco-Íris de Emoção”. Os mais de 300 integrantes que desfilaram na avenida levaram mais uma vez a taça para a Vila Falcão.


Respeite minhas diferenças pro amor vencer

Vou celebrar mais uma vez

Em um paraíso sem igual

Meu pote de ouro é levar esse carnaval

Trecho do samba-enredo campeão


O Carnaval 2026

Para comemoração dos seus 50 anos, a escola vem preparando um enredo sobre as conquistas e dificuldades ao longo das décadas de existência, além de trazer um pouco da história do próprio carnaval bauruense.

A escolha do enredo não foi por acaso. Cléber Alves comenta que em uma data tão especial, o presidente Carmo escolheu a dedo quem iria prepará-lo. “Ele vai retratar as vitórias da Mocidade, tanto Independente ou Unida, então ele vai abordar os carnavais, tanto da Rodrigues Alves, nas Nações Unidas, depois passa pelo Sambódromo e atualmente pela Jorge Zaiden”, comenta.

Ricardo Carrijo fez parte desse grupo seleto e explica a razão por trás desse enredo: 

“50 anos não são 50 dias. É muito carnaval pela frente, muita água que passou debaixo da ponte. […] A gente pretende mostrar um pouco dessas duas características. Primeiro, a da independência, a proposta inicial é que a escola fosse cada vez mais independente do poder público, porque a gente considera que o poder público deve organizar o carnaval, deve ajudar, porém a escola tem de ser independente.”

Com os esforços para manter-se unida e a necessidade de organizar-se sem a dependência governamental, a Mocidade incluiu a realização de eventos na própria quadra para integrar os membros e arrecadar fundos para as produções, além de contar, é claro, com a ajuda indispensável dos integrantes.

“E a segunda parte é de como é hoje a escola, que é a mesma escola, teve dois grandes momentos, mas que hoje continua unida, apesar de todas as dificuldades. Reunir gente não é fácil, porque as pessoas pensam diferente, cabeças diferentes, culturas diferentes, posições diferentes, idades diferentes […]. Mas o mais importante é que o coletivo prevaleça”, completa Ricardo.

Ensaio da bateria rua Bernardino de Campos. Foto: Acervo pessoal

Para esse ano são cerca de 350 pessoas desfilando entre as 5 alas, comissão de frente e bateria. Mas vale lembrar que o carnaval não acontece só na avenida. Sobre isso, Carrijo destaca: “É o momento em que você vai mostrar para o público todo o trabalho que foi construído ao longo de um ano anterior de organizar as ideias, estruturar o enredo, escolher o samba, preparar as fantasias, desenvolver figurinos. É uma máquina, uma engrenagem.”

Cléber conta que, apenas para a produção de fantasias, enredo e alas, são cerca de 40 pessoas escolhidas a dedo. Todos os envolvidos têm se dedicado desde abril para transmitir a essência da agremiação e dos seus 50 anos de história, 40 de Mocidade Independente e 10 de Mocidade Unida.

Para guardar todas as estruturas, os carros alegóricos transformam-se em palcos e se misturam na quadra da escola. Fantasias são guardadas e adaptadas para serem usadas em outros anos e estruturas maiores ficam alocadas na estrutura do Estádio Alfredo de Castilho, do Noroeste. 

Fantasias antigas e estruturas dos carros alegóricos reutilizadas. Fotos: Acervo pessoal

O amor pela escola

Para Giovanna Batalha, rainha da escola aos 20 anos, entrar na avenida é uma mistura de medo e principalmente amor. Sensações de alguém que se dedica o ano inteiro, dentro e fora dos ensaios, para fazer acontecer.

“Ninguém está aqui porque recebe, a gente faz por amor”, conta.

  Da esquerda pra direita: Sandra Tonelli, rainha de bateria da Mocidade, e Giovanna Batalha, rainha da escola. Foto: Redes sociais/ Reprodução

O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Anderson Vieira e Valéria Ruiz, destaca o nervosismo em abrir o caminho para a escola, mas também a alegria contagiante ao ouvir a primeira batida da bateria.

“Você fala ‘agora vai’ e não tem como você deixar de imaginar tudo aquilo que você passou durante o ano. Agora ali, em uma hora, você vai estar mostrando a sua escola”, compartilham.

 Anderson Vieira e Valéria Ruiz, mestre-sala e porta-bandeira. Foto: Redes sociais/ Reprodução

Sheilla Benedicto atualmente é diretora administrativa e de eventos, mas está na Mocidade desde 2014 e esse ano desfila como madrinha da comissão de frente. Mesmo todos esses anos não diminuem a emoção de desfilar cada vez como se fosse a primeira

“É uma emoção muito grande e ao mesmo tempo é uma honra muito grande poder estar desfilando com a escola, estar apresentando o trabalho de todo o ano que a gente idealiza, que a gente realiza”, se emociona Sheilla ao falar.

 Sheilla Benedicto, diretora administrativa e de eventos. Foto: Redes sociais/ Reprodução

Para Carrijo e seus 50 anos de desfiles na Vila Falcão, é o resultado de tudo o que foi trabalhado ao longo do ano, o mais importante. Para quem viu gerações passando pela escola, é a união que caracteriza o resultado final.

“Quando você participa e vê que você entregou, juntamente com toda a comunidade e com o pessoal que trabalha, que vocês conseguiram colocar na avenida, já é muito gratificante”, comenta ele.

Todos os entrevistados pela reportagem são unânimes: a Mocidade da Vila Falcão é como uma grande família. Assim como para o ritmista Juliano Salles, os ensaios são o refúgio para o estresse do dia a dia e do trabalho, Mário Pereira se sente em casa às quintas feiras na rua em frente à quadra da mocidade.

A boa integração entre os membros não só garante um ambiente mais agradável como melhora a unidade nos desfiles. Cada passista, ritmista e intérprete precisa estar sincronizado com o samba enredo e com a animação geral para um desfile inesquecível.

“E isso nunca é feito por pessoas individuais. É sempre um coletivo”, destaca Carrijo sobre a importância de se trabalhar como escola unida.

A questão do sambódromo

 Sambódromo Guilberto Duarte Carrijo. Foto: Prefeitura Municipal de Bauru/ Reprodução

O carnaval de 2026 será realizado, mais uma vez, na avenida Jorge Zaiden. O Sambódromo Municipal, lugar destinado ao carnaval, está fechado desde 2019, quando uma cratera de mais de 40 metros abriu em sua estrutura. A Prefeitura de Bauru estimou que a reforma do lugar custaria cerca de R$10 milhões de reais.

O lugar é de extrema importância para a história do carnaval de Bauru e para o Brasil. O Sambódromo Guilberto Duarte Carrijo foi o terceiro a ser construído no país, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro, o que reforça a ligação da cidade com a festa popular.

O debate público sobre sua reforma veio à tona novamente neste ano. Em Setembro de 2025, a vereadora Estela Almagro convocou uma audiência pública para discutir o interesse de conceder o lugar para a iniciativa privada, para que assim ele seja reformado. A maioria dos presentes eram aqueles envolvidos com a festa popular e também representantes governamentais. Entretanto, ainda não há decisão definitiva em relação a ele.

Serviço:

Os desfiles de carnaval deste ano em Bauru ocorrerão nos dias 14 e 16 de fevereiro, na avenida Jorge Zaiden.

A escola de samba Mocidade Unida da Vila Falcão desfilará às 23h10 no sábado, 14 de fevereiro.

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