Ações promovem aprendizado mútuo e ampliam o impacto social da universidade pública na cidade
Por: Alice Rodrigues

É sábado, 8 de novembro, e o dia começa cedo para o projeto Ao Vivo e em Cores. Às 5h30 da manhã, os primeiros integrantes da equipe já estão em movimento. Serão longas horas, não só para eles, mas também para quem se inscreveu voluntariamente para ajudar a fazer aquele evento acontecer. Baldes de tinta, pincéis, lonas, jornais e coletes se espalham pelo pátio da Escola Estadual Jardim Tangarás, na cidade de Bauru. Foi ali que o projeto escolheu realizar mais uma ação de revitalização e recreação. Enquanto alguns se preparam para preencher os contornos de giz com tinta, outros organizam oficinas que serão realizadas com os estudantes da escola.
O Ao Vivo e em Cores é um projeto criado em 2012 por estudantes de engenharia da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Bauru, com o objetivo de realizar intervenções culturais, estruturais e educativas em escolas públicas da cidade. Hoje, as ações são comandadas por duas mulheres: Júlia Gasparotto, de 23 anos, estudante de Arquitetura, e Yasmin Janine, de 21 anos, estudante de Design. Juntas, elas formam a direção do projeto e fazem parte da equipe desde 2022 e 2023, respectivamente. Apesar de o projeto ter nascido na FEB (Faculdade de Engenharia), atualmente conta com membros dos mais diversos cursos do campus de Bauru, somando 72 ao total.
“Nosso objetivo é conseguir valorizar o espaço público, para que os alunos valorizem onde vivem e se sintam pertencentes a ele”, diz Yasmin. Segundo Júlia, a equipe tem a expectativa de criar uma rede de apoio entre as universidades no Brasil. “A gente tem a intenção de expandir o projeto”, destaca. Atualmente, a iniciativa também é desenvolvida na Unesp de Sorocaba.

Extensão universitária
O Ao Vivo faz parte da rede de projetos de extensão existentes no campus de Bauru, que tem papel central na relação entre a Unesp e a comunidade. Esses projetos diferem das atividades em sala de aula, ao conectar teoria e prática e aproximar estudantes de realidades sociais diversas, além de permitir que o conhecimento acadêmico ultrapasse os muros da universidade e gere impacto direto no cotidiano das pessoas.
Para instituições como a Unesp, as ações de extensão reforçam o compromisso com a democratização do acesso ao conhecimento, com o desenvolvimento local e a divulgação das possibilidades da universidade pública, como explica a professora do curso de Jornalismo, Aline Camargo, que é supervisora do projeto de extensão Vozes do Nicéia, desde 2024. “Essa aproximação é bastante interessante, eu acredito muito nessa perspectiva do imaginário social, de que as pessoas vejam que a Unesp não é só aquele muro afastado, mas é um ambiente que pode e deve ser ocupado por essas pessoas que são atendidas”.
O projeto Vozes do Nicéia foi criado em 2008, com a proposta de produzir jornalismo comunitário, como explica Aline. “A ideia do jornalismo comunitário é que seja um jornalismo não produzido para a comunidade, mas com a comunidade. Então, o nosso objetivo é lutar pelas necessidades do bairro a partir da visão dos moradores”. Depois de ouvir a população, os membros produzem um jornal impresso, que é distribuído no Jardim Nicéia. O projeto também busca utilizar outros meios de informação, como boletins de rádio, audiovisuais e as redes sociais.
Aline explica que muitas comunidades ainda enxergam o espaço universitário como distante, e não se percebem como parte desse ambiente. Em alguns casos, não há conhecimento da existência de uma instituição de ensino superior próxima a elas. Esse pensamento é compartilhado pela diretora do Ao Vivo e em Cores, Yasmin. “Sentimos que esse contato que os projetos de extensão trazem para as crianças, mostram essa perspectiva, mostram os cursos que existem na Unesp e mostram o que eles podem ser além do que geralmente eles acabam tendo que se limitar, por causa de outras questões”, pontua.
A estudante de Relações Públicas Kailainy Vicentini foi uma das voluntárias da ação do dia 8 na escola Jardim Tangarás. Ela afirma que a convivência com pessoas de diferentes lugares e cursos, proporciona aprendizagens que vão além do que é possível adquirir apenas por meio das disciplinas acadêmicas. Além disso, ela comenta sobre a influência de eventos, como o que participou, na percepção das crianças envolvidas. “Eu acho que é muito deles se sentirem vistos de alguma forma. A gente passa 12 anos na escola, é diferente você chegar num lugar todo cinza e chegar em um que tem desenhos, que é colorido, que tem detalhe… enfim, acho que é totalmente diferente a experiência das crianças”.
A diretora da escola, Elaine Fernandes, tem a mesma opinião de Kailainy. “Diante de tudo que eles passam nas famílias, de tudo que eles passam nos lugares que eles moram, aqui dentro eles estão se sentindo importantes, estão se sentindo acolhidos pelos professores, pela gestão da escola e funcionários, mas principalmente pelos estudantes”, complementa.

Desafios
Manter esses projetos em funcionamento, porém, não é simples. Além de dificuldades como orçamento limitado, as equipes também enfrentam desafios cotidianos ligados à comunicação e à gestão. Segundo as diretoras do Ao Vivo, muitos dos obstáculos surgem justamente em situações que fogem do controle do grupo. “Um dos maiores desafios é lidar com coisas que não controlamos, como a comunicação com as escolas. Às vezes fazemos nossa parte, mas os retornos não chegam no prazo, e isso atrasa todas as áreas”, explica Júlia. Elas destacam ainda que, além das demandas externas, o próprio diálogo interno exige equilíbrio. “O projeto é muito grande, precisamos manter uma postura de liderança sem parecer autoritárias, garantindo que todos possam se expressar, mas entendendo a responsabilidade de representar o projeto”, complementa Yasmin.
Para que projetos como o Ao Vivo e em Cores e o Vozes do Nicéia se mantenham ativos, o apoio da Unesp, da comunidade e do poder público é essencial. A professora Aline explica que esse suporte inclui desde recursos financeiros até condições básicas de infraestrutura. “Temos recebido um pouco de auxílio da Unesp, mas ainda enfrentamos limitações, como a falta de um espaço físico adequado no Nicéia”, diz.
Hoje, as atividades do projeto ocorrem em praças e ruas, o que dificulta a organização e o alcance das ações. Ela espera que a inauguração do centro comunitário do bairro, prevista para os próximos meses, garanta um local para reuniões, oficinas e conversas coletivas. “Além do apoio material, precisamos que a comunidade confie no nosso trabalho e acredite no que fazemos”, afirma. Para os projetos de extensão, essa rede de sustentação é decisiva para que continuem promovendo impacto social e aproximando a universidade da população.
