O que seria uma celebração da cena do trap virou um retrato do caos: programação instável e um incidente com bomba levaram o fim do último dia do festival.
Por: Kelly Naphtali

O festival teve sua primeira edição em 2019, sendo um sucesso entre os jovens, com apresentações marcantes ao trazer grandes artistas internacionais e nacionais do meio. O Cena se destaca por dar espaço a artistas independentes e valorizar a cultura do gênero trap, que apesar de nichado, tem seu cenário ampliado com o evento.

Com teoricamente três dias de evento, a sucessão de tragédias começou com a insatisfação do público pelo fato de o festival não anunciar todos os artistas que se apresentariam e quando divulgou, foi com atrasos .Os próprios cantores tiveram de anunciar em suas redes sociais o horário em que iriam subir ao palco. Houve ainda casos de músicos que só foram divulgados após se apresentarem. 

Nos palcos, logo no primeiro dia do evento, os artistas tiveram seus shows afetados por falhas na organização do cronograma, resultando em cortes de microfone durante as performances. Um dos artistas (que prefere não se identificar), que se apresentou no segundo dia, relatou que teve problemas de comunicação com os responsáveis da organização. “Era difícil ter retorno e contato com a equipe do evento sobre o que iria acontecer e o que iria ser feito”, recorda. Além disso, menciona que só recebeu o contrato na semana do evento, teve problemas técnicos com os equipamentos locais, resultando em redução do seu tempo de show e que não recebeu pagamento. “Foi a maior mancada do século com nosso movimento”. 

Por conseguinte, foi divulgado de última hora o cancelamento de shows de artistas renomados internacionalmente como Young Thug, Ferg, Lil Gotti, Oodaredevil e Zukenee, que eram destaques do festival. 

Ainda no segundo dia, houve um atrito acalorado entre a equipe do cantor Major RD e a segurança do festival. A discussão terminou com a explosão de uma bomba nos bastidores, cuja nenhuma das equipes assumiu responsabilidade. 

Para completar o caos, no domingo, último dia do evento, a Neo Química Arena, local que sediou o festival, informou que uma vistoria da Polícia militar e do Corpo de bombeiros, identificou a impossibilidade de dar continuidade ao evento, visto a ausência de serviços médicos que haviam sido cumpridas nos outros dois dias de evento.

 Diante de toda situação e da impossibilidade do último dia de apresentações, mais artistas se decepcionaram com a organização, que não esclareceu de forma coesa as equipes sobre o cancelamento, muito menos ao público, que foi informado através das redes sociais da Neo Química Arena e presencialmente por seus funcionários. Mateus Vinícius, fotógrafo do artista Yokel que se apresentaria no último dia, expôs a falta de comunicação que passaram: “Um chegava e dizia que o festival acabou, outro falava que ia rolar, ou seja, não tínhamos certeza absoluta. Ficamos num fogo cruzado “, diz ele ao lembrar que teve de aguardar por quatro horas até serem informados da suspensão dos shows.

Otrashy, produtor de duas artistas que se apresentariam no domingo, não esconde a revolta com a condução do festival. Para ele, faltou comprometimento em todos os níveis de organização, que tratou os artistas e o público com descaso.“Falta de comprometimento de cima para baixo, de quem está organizando com as pessoas que consomem”. O produtor considera o ocorrido um desrespeito aos artistas e ao trabalho que desempenham. “É muito importante ver as pessoas como seres humanos que estão vivendo sua arte e querem viver disso”, afirma, classificando como “nada digno para os artistas”.  Othay acredita que faltam pessoas que conheçam e consumam o movimento musical apresentado entre os organizadores. “Nós vivemos a cultura, nós vivemos hip-hop”, finaliza. 

O perfil oficial do festival fez um único pronunciamento no dia seguinte, segunda-feira (24), por meio das redes sociais, comunicando que foram responsáveis por parte do ocorrido e que a confusão envolvendo a bomba gerou um redirecionamento operacional. O Cena afirma que essa mudança de rota mudou o funcionamento do evento e juntamente com uma falha de comunicação interna, resultou na saída das empresas responsáveis pela ambulância e pelo posto médico. 

Diante disso, o festival alega que fez todo seu esforço para reverter essa situação e que não foi o causador do evento desencadeador da crise. O Cena declara estar trabalhando em soluções e que seriam divulgadas nos próximos dias. 

Assim, o Cena revela que a construção de um festival exige responsabilidade, comunicação e respeito à comunidade que o legitima. O episódio ocorrido expõe falhas estruturais e a fragilidade da relação do evento com a própria cena que representa.

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