Uma discussão sobre como o espaço ofertado pelas mídias sociais é utilizado pelos usuários e suas consequências na saúde mental.

Por Maria Luisa Hardt

As discussões sobre as redes sociais se tornaram cada vez mais presentes e se mantém até hoje, principalmente os debates sobre a liberdade que as mídias digitais oferecem. As plataformas serviram de espaço para as pessoas se expressarem e divulgarem mais sobre elas mesmas, mas atualmente esse espaço abre caminho para uma superexposição da vida pessoal e detalhes íntimos dos criadores de conteúdo.

Os conteúdos compartilhados pelos usuários da internet trouxeram uma nova perspectiva sobre o tema e aprofundam a discussão em relação à exposição nas redes sociais. O ato de se expor excessivamente, com o tempo, faz com que o indivíduo passe a associar seu valor pessoal à resposta dos outros, o que afeta diretamente na autoestima, ansiedade social, comportamento e saúde mental, segundo a psicóloga Camila Salvi.

A psicóloga, pós-graduada em Neuropsicologia e qualificada em Ansiedade e Depressão, apresenta as motivações e esclarece a problemática: “A exposição contínua às redes estimula o sistema de recompensa cerebral, liberando dopamina, o mesmo neurotransmissor ligado ao prazer e à motivação. Esse mecanismo pode gerar um ciclo de busca constante por curtidas e aprovações.”

Camila Salvi | Foto: Arquivo pessoal

Camila explica que vivemos em uma era de visibilidade, onde as pessoas querem ser vistas, reconhecidas e validadas, e as redes sociais oferecem esse espaço. A prática de compartilhar aspectos pessoais é uma necessidade que, muitas vezes, está relacionada a carências emocionais ou à busca por pertencimento. 

A exposição midiática pode virar um vício que se encaixa na rotina da pessoa. “Isso acontece quando o ato de postar se torna automático. Estudos em neuropsicologia mostram que o cérebro passa a antecipar a sensação de prazer antes mesmo da interação acontecer, criando uma expectativa constante. Quando tudo o que se vive precisa ser publicado, o prazer da experiência real é substituído pela necessidade de registro”, informa a profissional.

Tainá Cúrtolo, psicóloga com aprimoramento clínico pela PUC-SP, introduz uma nova perspectiva na discussão, reforçando as consequências da superexposição na internet. “A exposição constante tende a gerar um estado de vigilância interna, em que o sujeito se observa o tempo todo, buscando corresponder a uma imagem idealizada de si mesmo. Isso pode provocar ansiedade, sensação de inadequação, dependência de validação externa. Em alguns casos, eu até diria que há um risco mais subjetivo, o esvaziamento da identidade. A pessoa passa a se reconhecer mais pelo olhar do outro do que pela própria vivência”, relata a especialista.

Tainá Cúrtolo | Foto: Arquivo pessoal

Segundo Tainá, a exposição excessiva pode fragilizar os âmbitos psíquicos e sociais, isso porque o íntimo acaba perdendo o espaço de desenvolvimento interno e se torna uma performance para o público. Essa atitude pode gerar julgamentos, invasões de privacidade e até desgaste nos vínculos familiares e nas relações cotidianas, pois o que antes era vivido no espaço privado passa a ser atravessado e mediado pelo público usuário das redes sociais.

“A validação online cria uma autoestima condicional, baseada na resposta do outro, isso torna o sujeito vulnerável às oscilações do ambiente digital, quando a aprovação externa diminui, a autoestima tende a desabar. Como a exposição envolve vulnerabilidade, críticas públicas podem gerar retraimento, vergonha, ansiedade ou raiva. Em alguns casos, a pessoa tenta compensar com mais exposição, numa tentativa inconsciente de restaurar a imagem ferida”, destaca a psicóloga.

De acordo com a profissional, esse comportamento começou a ser normalizado pela sociedade de forma muito rápida e implícita, pois a cultura da exposição foi incorporada como “linguagem social”. Atualmente, é comum medir relevância, sucesso e até afeto pela visibilidade digital, essa normalização, no entanto, disfarça o sofrimento que muitas pessoas vivenciam ao tentar sustentar uma persona idealizada, sempre coerente, feliz e produtiva.

Ambas as psicólogas definem a diferença entre compartilhar e expor. Conforme Camila, compartilhar é dividir algo de forma consciente, com um propósito. Já a exposição excessiva acontece quando há perda de limites, e o que é íntimo passa a ser público sem reflexão. “A diferença está no nível de consciência e na intenção”, argumenta a psicóloga.

“Compartilhar envolve uma escolha consciente sobre o que se quer mostrar, mantendo o discernimento entre o público e o íntimo. A superexposição, por outro lado, acontece quando essa fronteira se dissolve, e o ato de publicar se torna automático, em tentativa de preencher o vazio da desconexão interna devido a presença do digital”, complementa Tainá.

As profissionais apontam que é necessário procurar ajuda quando o uso das redes começa a interferir no sono, no humor, na concentração, no bem-estar ou nas relações pessoais. Sinais como ansiedade, comparações constantes, dependência da aprovação digital e necessidade de estar sempre conectado indicam que a situação precisa ser analisada com mais profundidade.

Como sugestão, Camila e Tainá recomendam estabelecer limites de tempo nas telas, criar pausas para refletir sobre o que realmente faz sentido compartilhar, valorizar momentos e atividades que não envolvam as redes e exposição, e redefinir o propósito do uso das mídias digitais, usar para aprender, se inspirar e se conectar de forma genuína.

“A melhor forma é promover a conscientização. Falar sobre o impacto emocional, sobre a diferença entre aparência e realidade, e incentivar o fortalecimento da autoestima”, comenta Camila sobre como orientar as pessoa sobre os perigos da superexposição e da busca por aprovação digital.

“A instrução passa por promover consciência, não proibição. É preciso convidar as pessoas a refletirem sobre o que buscam ao se expor e se esse movimento as aproxima ou as afasta de si mesmas. A educação emocional e o autoconhecimento são caminhos para que o sujeito se torne autor da própria narrativa, e não apenas personagem de um feed”, completa Tainá.

Para finalizar, as psicólogas aconselham que antes de publicar ocorra uma reflexão sobre o sentido da postagem, se é apenas uma tentativa de ser notada ou uma publicação genuína, pois quando o uso é consciente a tecnologia passa a ser uma ferramenta de conexão e aprendizado. “Lembrando que presença verdadeira não depende de visibilidade”, encerra Tainá.

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