Investimentos em infraestrutura escolar avançam, mas pais e alunos enfrentam falhas e transtornos.

Por Maria Eduarda Clementino

EMEF Dirce Boemer Guedes de Azevedo, decorada com trabalhos de alunos, antes das reformas. Foto: Rita de Cássia.

Desde 2019, a comunidade escolar da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Dirce Boemer Guedes de Azevedo, em Bauru, enfrenta um cenário de instabilidade. O que começou como uma promessa de reforma e ampliação do prédio se transformou em uma sequência de mudanças, atrasos e dificuldades que afetam diretamente a rotina de alunos, pais e professores dos bairros Tangarás, Manchester, Ferradura e região.

A reforma da unidade, localizada no Parque Bauru, foi anunciada em 2020, após a abertura de uma licitação pela Prefeitura. O contrato foi firmado durante a gestão do então prefeito Clodoaldo Armando Gazzetta, com previsão de conclusão em 365 dias a partir de maio de do mesmo ano. Desde então, o retorno ao prédio original se tornou uma expectativa, distante da realidade.

O avanço da obra não ocorreu conforme o planejado. A pandemia de Covid-19, a troca de governo de Gazetta para Suéllen Rosim e os sucessivos atrasos da empreiteira levaram à rescisão do contrato em 2021. Quando as aulas presenciais retornaram, o prédio ainda não estava finalizado ou apto para a realização das atividades escolares.

Aulas em barracão improvisado

Em entrevista ao Jornal Contexto, Rita de Cássia, mãe de uma ex-aluna do EMEF, relatou que, diante da impossibilidade de utilizar o prédio, os alunos foram transferidos temporariamente para um barracão de uma igreja próxima à sede original.

Segundo ela, o local acolhia as crianças para a realização das atividades híbridas (parte online e parte presencial), mas as condições eram precárias: as turmas eram divididas em mesas plásticas de festas, e havia pouco contato direto entre alunos e professores.

Rita também destacou que, em comparação com outras escolas da região, a instituição escolar apresentava defasagens pedagógicas, o que motivou a comunidade a um pedido para que a reforma da escola fosse retomada, após ter sido interrompida e deixada sem continuidade.

Remanejamento para o CTV

Após o período em que as aulas ocorreram no barracão da igreja, os estudantes foram remanejados para o Centro de Transformação e Vivências (CTV), localizado no Núcleo José Regino, onde as atividades passaram a ser presenciais em meio período.

De acordo com Rita, um ônibus da empresa Brambilla era responsável por buscar as crianças de diferentes regiões da cidade. Os alunos que residiam no bairro Manchester precisavam se deslocar a pé até o prédio original da escola, de onde partia o transporte escolar com destino ao CTV, situado a aproximadamente 1,5 quilômetro de distância da sede inicial.

Dificuldades para famílias e infraestrutura precária

Os sucessivos remanejamentos trouxeram dificuldades para as famílias. Rita relata que os alunos não podiam embarcar nem desembarcar sozinhos, o que obrigava muitas mães e responsáveis a faltarem ao trabalho ou cancelarem compromissos para acompanhar os filhos — especialmente no bairro Ferradura.

Outra situação de instabilidade foi mencionada por ela: o espaço do CTV apresentava diversos problemas, pois o prédio não havia sido projetado para fins escolares, tornando-se insalubre em alguns momentos, ainda mais em dias chuvosos. 

Durante esse período, a comunidade escolar buscou o apoio de vereadores para apurar as irregularidades relacionadas à obra. O movimento resultou na abertura de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) na Câmara Municipal. No entanto, o pedido para instaurar uma Comissão Processante (CP) foi rejeitado.

Novas mudanças e longas distâncias

No fim de 2022, uma nova transferência foi anunciada: a escola passaria a funcionar no prédio do antigo Colégio Guedes de Azevedo, na Vila Universitária,  aproximadamente sete quilômetros da sede original.

Prédio original da EMEF Dirce Boemer Guedes de Azevedo em 2022, após 2 anos do início da reforma. Foto: Rita de Cássia.

Embora o transporte escolar tenha sido garantido pela Prefeitura, o deslocamento gerou um novo desafio. O trajeto contava com dois pontos de embarque, o que atrasava o início das aulas em 15 minutos e antecipava o término em 20 minutos, resultando em uma perda pedagógica diária de cerca de 35 minutos.

Protestos e nova mudança em 2023

Em dezembro de 2023, a situação voltou a mobilizar pais, alunos e professores da EMEF Dirce Boemer Guedes de Azevedo. Eles realizaram um protesto em frente ao prédio original da escola, no Parque Bauru, contra uma nova transferência – a quarta em três anos.

O ato contou com a presença do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Bauru (Sinserm), de lideranças sociais e dos vereadores Estela Almagro (PT) e Junior Lokadora (PP).

Foto: Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Bauru (Sinserm).

A mudança, confirmada pela Prefeitura de Bauru, levou a escola para o prédio da antiga Escola Santa Maria, localizada na Vila Santa Luzia.

O novo endereço, entretanto, apresentou outros problemas. O prédio, construído em 1965 e que já abrigou o SESI e a própria Santa Maria, possuía condições estruturais precárias. Havia relatos de infestação de ratos, morcegos e baratas, além de telhado danificado, fiação exposta e janelas quebradas. As salas não tinham ventiladores, e o parquinho destinado às crianças estava coberto de mato alto, dificultando o uso.

De acordo com Moisés Ferreira, diretor do Sinserm.” O Sindicato se propôs a apoiar a causa, porque também era uma situação de péssimas condições de trabalho aos servidores que laboravam no local”, declara.

Segundo ele, após as denúncias, houve reforma nos telhados e um trabalho para erradicação dos morcegos.

Além da precariedade, a distância também dificultou a participação das famílias na rotina escolar, segundo Rita. “Os pais não têm tanta facilidade, quando o prédio da escola não é no bairro, para participar de reuniões”, explica.

Obra avança, mas ainda apresenta falhas e falta de clareza da Prefeitura

Hoje, Rita mantém a esperança de que a escola seja entregue em definitivo até 2026. “Não ficou um prédio com a excelência que foi anunciada. Tá lindo, o parque tá lindo, eles fizeram a parte do playground e uma casinha de bonecas maravilhosa, igual tinha no prédio do Guedes”, conta.

Apesar do novo visual, ela aponta falhas estruturais, como a ausência de rampa de acessibilidade e  a falta de uma barreira de segurança que separe o parque escolar do estacionamento.

Para Rita, ainda falta transparência por parte da Prefeitura sobre o andamento e os custos da obra. “Não há clareza sobre o que realmente está acontecendo. A Prefeitura não se explica, não justifica os valores exorbitantes. Desde que a obra foi retomada, já está atrasada e sem novo prazo de entrega.”

A administração municipal havia informado que a escola seria entregue no primeiro semestre de 2025, o que não se confirmou. Até o momento, nenhuma nova previsão oficial foi divulgada.

Resistência e reconhecimento

Apesar das dificuldades enfrentadas ao longo dos anos, a EMEF Dirce Boemer Guedes de Azevedo foi uma das escolas do município a receber o Prêmio de Excelência Educacional por seus resultados no SARESP de 2024. 

Segundo Rita, o reconhecimento simboliza a força da comunidade escolar diante das adversidades. “Quando a família e a criança entendem as dificuldades que o sistema está impondo, acabam se agarrando ainda mais à resistência — e foi isso que garantiu o sucesso”, afirma.

Até o momento, procurados pela reportagem,  a Prefeitura e a Secretaria da Educação de Bauru, não retornaram contato.

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