Em um país onde muitos estudantes precisam escolher entre estudar ou trabalhar, o programa aparece como uma ponte possível para a dignidade e o futuro
Por Helenita Queiroz
Desde sua implementação em 2024, o programa Pé de meia, criado pelo governo federal, se tornou uma das principais apostas na tentativa de enfrentar a evasão escolar entre estudantes do ensino médio da rede pública. Esta proposta consiste em uma poupança educativa, que destina valores mensais a estudantes de baixa renda, matriculados e com frequência regular no ensino médio.
O governo passou a oferecer um pé de meia financeiro para que a queda na participação dos alunos diminuísse, engajando jovens estudantes a concluir seus estudos. Ao final do ensino médio, o valor acumulado pode chegar a R$ 9.200,00 caso o estudante cumpra todos os critérios estabelecidos.
Mas, passados mais de doze meses da iniciativa, quais tem sido os reais impactos do programa? Em entrevista ao jornal Contexto, estudantes e um professor explicam até que ponto o Pé de meia tem contribuído com a transformação da realidade educacional brasileira, e quais os desafios que ainda persistem.
Como uma espécie de bolsa-poupança, os valores são depositados mensalmente, podendo variar entre as parcelas mensais de R$ 200, bônus por matrícula (R$ 200), aprovação anual (R$ 1.000) e participação em exames como o ENEM (R$ 200), totalizando até R$ 9.200 ao final dos três anos do ensino médio.
Os pré-requisitos estipulados pelo programa incluem estar regularmente matriculado em escola pública, ter frequência mínima de 80% nas aulas, ser de baixa renda e estar inscrito o CadÚnico.
Após a alarmante taxa de evasão escolar no ensino médio em 2022, mais de 480 mil jovens abandonaram os estudos antes da conclusão da etapa. “O Pé de meia não é apenas um incentivo à permanência, mas também a valorização do estudante como protagonista do seu futuro”, disse o professor Eliton Aparecido.
A jovem Ana Laura Silva dos Santos, de 17 anos, estudante do 2o. ano do ensino médio em Bauru, é uma das beneficiarias do programa desde o início. Ela revela que o programa foi um bom apoio tanto dentro como fora da sala de aula.
“O Pé de meia ajuda, mas não acho que seja o suficiente, até poque, muitos dos adolescentes deixam a escola por morarem sozinhos ou por já terem filhos e família para cuidar. Essa realidade os obriga a trabalhar”.
Dados divulgados pelo MEC mostram que nos primeiros meses de 2025 a taxa de evasão escolar de estudantes que recebem o benefício caiu mais de 30% em relação ao mesmo período de 2023. A frequência escolar também subiu e a participação no vestibular público Enem aumentou em 18%.
Críticas ao modelo
Para Gabriel Dias, estudante de Relações Públicas da UNESP em Bauru, recebeu o apoio do Pé-de-meia quando estava em seu último ano do ensino médio. “Claro que o dinheiro ajuda, mas o que afasta os alunos da escola é que o jovem quer mais. Duzentos reais não suprem as necessidades de um jovem hoje em dia. Até poque, no final, esse dinheiro vai para as despesas da família. No fim, não tem muito o que guardar para o futuro”.
Gabriel também aponta o que chama de dependência financeira imediata. Para ele, todo o valor dado aos estudantes é gasto pela família, no dia a ia para transporte, alimentação e não consegue guardar a quantia na poupança como desejava. “O jovem vai sair para trabalhar sim. Está tudo muito caro”.
Uma grande conquista do Pé de meia foi colocar em pauta um dos maiores desafios do Brasil contemporâneo: a permanência e valorização dos jovens na escola. Em um país onde muitos estudantes precisam escolher entre estudar ou trabalhar, o programa aparece como uma ponte possível para a dignidade e o futuro.
O ministro da educação, Camilo Santana, em recente entrevista ao site Poder 360, afirmou que o programa deve ser mantido e expandido. “Não estamos falando apenas de dinheiro, mas de investimento na vida dos nossos jovens. Precisamos dar condições para que eles sonhem e permaneçam sonhando. O Pé-de-meia é uma política do estado e não do governo”.
Para o ministro, o Pé de meia representa um marco nas políticas públicas voltadas para a juventude. O programa conseguiu em pouco tempo, reduzir a evasão escolar, e aumentar a presença dos estudantes em sala de aula. Mas o grande desafio é garantir uma educação de qualidade que persiste.
Na visão de Ana Laura, o programa tem pontos positivos que ainda podem ser lapidados para melhor aproveitamento. Para Gabriel, ele é apenas um alívio temporário, e por mais que seu alvo seja os alunos, o investimento preenche problemas financeiros nas famílias brasileiras.
Entre avanços e limitações, o Pé-de-meia mostra que o caminho para a valorização da juventude brasileira está além do que somente cifras.
