Com a trégua entre Israel e Irã, Gaza retorna ao centro das atenções. Especialista explica o contexto histórico do conflito
Por Gustavo Palhares

Depois de uma curta escalada militar entre Israel e Irã, um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos trouxe uma pausa ao confronto direto. Logo em seguida, autoridades israelenses declararam que seu “foco militar retorna para a operação na Faixa de Gaza”, recolocando a Palestina no centro das atenções internacionais. Diante da situação crítica em Gaza após semanas de bombardeios e de um bloqueio que já dura 18 anos, os debates sobre a ocupação de mais de sete décadas voltam a ganhar força.

Para entender as raízes históricas do conflito entre Israel e Palestina, o Jornal Contexto conversou com o professor Lucas Maldonado, que é mestre em Filosofia.

Jornal Contexto: Com a atenção mundial voltando novamente à Palestina, vale relembrar: como se iniciou o conflito entre israelenses e palestinos?

Lucas Maldonado: Primeiro que a Palestina era ocupada pelos ingleses, era um mandato britânico. Até que veio a Segunda Guerra, é criada a ONU, e aí, com o apoio dos Estados Unidos, o Estado de Israel é criado no território palestino. Então, todo aquele território que vivia um povo de origem árabe passa, com o fim da Segunda Guerra, a virar um Estado judeu. Israel se constitui como um Estado judeu, então ele tem esse caráter étnico, mas veja: o conflito em Gaza não é um conflito, é um genocídio, ele não é uma questão étnica. Ele é um massacre que se constitui por uma ideologia de extrema-direita, que é o sionismo, que se baseia na perpetuação da violência contra os povos árabes, no caso os palestinos.

Jornal Contexto: Quais os principais marcos históricos que nos levam à situação atual?

Lucas Maldonado: Em 1948 é criado o Estado de Israel, e aí o que acontece? Israel passa a invadir e expulsar os palestinos do seu território. O primeiro grande acontecimento é a Nakba. Nakba é “catástrofe”, em árabe. Milhares de palestinos são expulsos do seu território. É um grande marco do apartheid e de toda a constituição do Estado de Israel. Todo o século XX vai ter uma série de guerras que vai, aos poucos, expulsando e eliminando os palestinos do seu território, até chegar hoje, que até a Faixa de Gaza está basicamente deixando de existir. A Palestina, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia… são vários territórios em áreas diferentes de onde era o território onde viveu o povo palestino, e aí com isso eles vão sendo expulsos. Mas isso não fica restrito também só aos palestinos. Veja: durante todo o século XX, nas guerras que aconteceram, Israel vai e invade os países árabes também — o Líbano, o Irã, e por aí vai.

Jornal Contexto: E quanto ao Hamas? Qual é o papel desse grupo na história do conflito, e como ele chegou ao poder em Gaza? O que desencadeou a guerra mais recente, em 2023?

Lucas Maldonado: O Apartheid não nasceu em 2023. Não foi o ataque do Hamas que se mostrou catastrófico. O Hamas controla a Faixa de Gaza, e isso foi uma medida incentivada por Israel para dividir a luta palestina, que antes, no século XX todo, era a OLP, a Organização de Luta pela Libertação da Palestina. Eram grupos mais radicais, a extrema esquerda. Durante todo o século XX vai ter uma força maior, e aí passa a ser o Fatah, que é um partido de centro-esquerda, que controla a Cisjordânia até hoje. Na Faixa de Gaza, em 2006, tem eleição, e aí é o Hamas que passa a controlar. Em 2023 o Hamas lança um míssil, sequestra e mata cidadãos israelenses. Então, mais ou menos para começar, seria isso.

Jornal Contexto: Muito do que ocorre hoje na Faixa de Gaza tem sido chamado de genocídio. Na sua visão, essa definição faz sentido? Como você caracterizaria a ofensiva israelense em Gaza e a reação da comunidade internacional até agora?

Lucas Maldonado: É um genocídio. Acho que não tem muito o que dizer. Isso tudo que está acontecendo na Faixa de Gaza é um genocídio. É um apartheid. A mídia tem ignorado isso. Tem que deixar claro o que está acontecendo e evidenciar tudo isso. Inclusive por parte do governo Lula deveria haver um rompimento de relações com Israel — diplomáticas e comerciais — visto que o governo brasileiro tem mantido relações, venda de produtos importantes como petróleo, armas, com Israel. Isso, querendo ou não, beneficia o Estado sionista.

Jornal Contexto: E o Brasil? Até agora o governo Lula tem condenado a violência em Gaza, mas como você disse, tem mantido relações diplomáticas e comerciais com Israel. Na sua opinião, o Brasil deveria adotar uma posição mais firme diante dessa crise?

Lucas Maldonado: Deveria haver rompimento de relações com Israel, diplomáticas e comerciais. O governo brasileiro tem mantido relações: venda de produtos importantes como petróleo, armas com Israel, o que, querendo ou não, beneficia o Estado sionista.

Jornal Contexto: Houve um episódio recente envolvendo o barco Madlen, que levava ativistas, entre eles Greta Thunberg e Thiago Ávila. O que esse caso representa dentro disso tudo?

Lucas Maldonado: A interceptação de um barco civil em águas internacionais é uma grande violação do direito internacional. Você não pode pegar e sequestrar um barco em outras águas que não sejam do seu país, levar para o seu país, prender as pessoas, fazer as pessoas sofrerem violência. É um processo flagrante de violência. Não é à toa que o presidente de Israel, Benjamin Netanyahu, foi condenado no Tribunal Penal Internacional. Se ele for a alguns países, ele seria preso. O Thiago Ávila é o pior dos casos, porque a Greta ainda tinha um nome, conseguiu, de certa forma, não ser tão afetada. Foi afetada também, mas o Thiago sofreu mais: foi para uma prisão, fez greve de fome e ficou doente! 

Jornal Contexto: Israel já entrou para a história?

Lucas Maldonado: Já entrou. A diferença é que o genocídio em Gaza está sendo filmado. Na Alemanha nazista, tinha os campos de concentração. Hoje, com todo esse avanço tecnológico, a gente está vendo isso.

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