Mesmo com a facilidade do streaming, os discos de vinil voltaram como os queridinhos do público
Por Helena Pompeu
Em um cenário dominado por plataformas de streaming, o vinil se destaca como o formato físico preferido entre os jovens. Seja pela música, ou pela experiência completa de ouvir um disco, e até mesmo pela arte de colecionar, esse público cresceu consideravelmente nos últimos anos, movimentando tanto sebos quanto grandes lojas especializadas.
O mercado do vinil teve seu auge nos anos 1980, até o declínio que quase o levou à extinção no final da década de 90. No entanto, após duas décadas, o formato voltou a ganhar espaço no mundo da música: em 2023, as receitas de vinil no país subiram 136%, atingindo o maior faturamento de mídias físicas desde 2018.
Para a adolescente e colecionadora Julia Ramos, 16 anos, o interesse pelo vinil está na combinação de estética e memória afetiva. “Meu interesse por vinis surgiu há pouco tempo, pois nunca tive muito acesso a isso e achava que era algo caro que pouca gente conseguia. Sempre gostei e achava bonito quem tinha coleção. Adorava ver vídeos sobre isso, mesmo sem ter visto um disco pessoalmente”, relata.

Disco da coleção de Julia. Foto: Arquivo Pessoal
Julia revela ainda que ouvir um disco físico tem um impacto emotivo diferente de quando se escuta pelo celular. “Eu acredito que muda, porque para mim ouvir pessoalmente você sente mais a música e a emoção dela; pelo celular não é o mesmo nível”. E não é apenas o som que a atrai, a estética das capas é algo que a encanta: “Cada uma tem uma história, uma memória. Gostaria de ter muito mais só para deixar registrado, como algo que tem valor afetivo ao meu ver”, diz.
Do outro lado, o lojista Antônio Guerra, responsável pelo sebo “Espaço Literário”, em Bauru, percebeu a virada há cerca de cinco anos. “Houve um aumento considerável na procura pelo público jovem. Eles buscam principalmente Pop/Rock e MPB”, afirma. Para ele, a venda por meio dos marketplaces e das redes sociais facilitou o acesso aos discos, antes restrito a lojas físicas especializadas. “Hoje em dia, muitos negociam diretamente em plataformas online, antigamente os colecionadores só conseguiam adquirir presencialmente”, comenta.
É justamente pela internet que Julia costuma garimpar discos, e ocasionalmente os encontra em feiras locais, sebos e lojas da cidade. “Sempre encontro em loja online como no Marketplace do Facebook e também em algumas lojas da minha cidade, que ficam em feiras ou perto do shopping”, revela a estudante.

Vinis são sucesso no sebo “Espaço Literário”. Foto: Reprodução/Redes Sociais
O futuro do vinil, na visão de Guerra, tende a ser duradouro. “Acredito que essa ‘moda’ da volta na procura por vinil tem tudo para durar. Para os adoradores de música, o som de um disco é insubstituível. Possui qualidade incomparável e o prazer de colecionar e garimpar seu disco favorito faz toda a diferença, especialmente agora que está mais acessível”, completa o vendedor.
Na opinião de Antônio, os preços dos discos de vinil já estiveram mais baixos, na década passada, por exemplo, quando a demanda e a concorrência não eram tão grandes. Ainda assim, a possibilidade de negociar, sem a necessidade de aquisição em uma loja, torna o processo de colecionar mais acessível.
Num mundo onde o play é dado com um toque na tela, o vinil oferece uma pausa para a experiência de ouvir música: escolher a capa, encaixar a agulha e ouvir cada lado sem pressa. É esse ritual, e o valor afetivo atrelado a colecioná-los, que mantém os discos de vinil em alta e os fazem conquistar novas gerações em todo o Brasil.
