As doenças psicológicas relacionadas à alimentação têm foco especial neste mês de junho. De acordo com nutricionista, família e amigos precisam estar atentos aos sinais de alerta
Por Maria Luisa Hardt

O dia 2 de junho último foi instituído como o Dia Mundial da Conscientização dos Transtornos Alimentares. A iniciativa partiu da Associação Brasileira de Psiquiatria, e é um movimento desenvolvido para e por pessoas afetadas por um transtorno alimentar, suas famílias e os profissionais médicos e de saúde que os apoiam.

A data tem como objetivo chamar a atenção para a realidade de mais de 70 milhões de pessoas afetadas por esses transtornos em todo o mundo. No Brasil, segundo o Hospital da Universidade de São Paulo (USP), são 15 milhões de brasileiros que vivem com algum tipo de distúrbio alimentar. O dia aproveita para trazer o tema de volta à tona.

“Hoje, eu percebo que é um assunto que está fora do holofote, então, tem momentos em que surge o transtorno alimentar, principalmente quando existe uma personalidade, quando alguém famoso fala sobre transtorno alimentar, aí começa todo mundo a falar sobre transtorno alimentar”, comentou Priscilla Primi Hardt, nutricionista e colunista do jornal O Globo.

De acordo com a Associação, os transtornos alimentares são caracterizados por uma perturbação persistente na alimentação ou no comportamento alimentar, resultando no consumo ou absorção alterada dos alimentos. Além dessas alterações, são percebidas outras manifestações nesses indivíduos, como distúrbios na imagem corporal e problemas com a autoestima. Como causa dessas doenças existem os fatores psicológicos e socioambientais, mas também existe uma preocupação extrema com o peso e a imagem corporal, fruto de uma cobrança pessoal e social, reforçada pela mídia, que estabelece um padrão de beleza inalcançável, criando um ambiente suscetível para o desenvolvimento desses transtornos.

Redes sociais como fator causador

Atualmente a saúde mental ligada ao comer também se relaciona com o poder midiático e a influência das redes sociais, que afetam diretamente a alimentação e a imagem corporal pessoal dos indivíduos. “E as pessoas, os adolescentes e até os adultos mesmo, olham aqueles corpos nas redes sociais e querem ficar igual. Então, é mais um fator agravante para o desenvolvimento do transtorno alimentar. Porque você tem um modelo ali toda hora aparecendo para você como um símbolo do sucesso”, observou a nutricionista.

A má propagação de informações e a divulgação de dietas criadas sem embasamento são fatores que influenciam a evolução dos transtornos alimentares, especialmente das doenças associadas à distorção de imagem. “Principalmente a bulimia, que é esse ato de comer e vomitar, porque gera ansiedade, essa questão do corpo e a questão dos resultados rápidos geram ansiedade, você tem um comportamento de restrição e depois um comportamento de compulsão”, complementa Priscilla.

As redes sociais impactam, principalmente, no ato de comer transtornado. “É um comportamento, onde a pessoa passa por várias dietas, ela tem muita oscilação de peso, ela tem uma relação muito ruim com a comida, então, ela acaba achando ali que a comida é um inimigo dela, ela não trata a comida como algo prazeroso”, explicou a colunista.

Ela explica que no ato de comer transtornado, a pessoa seleciona mentalmente os alimentos entre proibidos e permitidos. Essa ação vem da divulgação de algum influenciador ou de alguém que diz que só alguns alimentos específicos são permitidos. Esses alimentos, normalmente, são os mais indicados por esses criadores de conteúdo, como ovos, frango e batata doce. Ao mesmo tempo, eles contraindicam alimentos com carboidratos e açúcar, até mesmo as frutas.

O desenvolvimento de algum tipo dessas doenças, normalmente, vêm acompanhados de alguns sinais:

  • Comer e logo sair da mesa;
  • Aparecimento de alguns calos nas mãos, devido ao ato de enfiar o dedo na boca para induzir o vômito;
  • Evitar comer junto de outras pessoas;
  • A recusa de alguns alimentos repentinamente;
  • Seletividade de alimentos;
  • Perda de cabelo;
  • Sono irregular;
  • Preocupação excessiva com o corpo;
  • Seguir dietas constantemente.

“Então são comportamentos isolados, são um sinal de alerta. É sempre a alimentação que vai ser a primeira fuga nesse tipo de situação, também é um outro fator que a gente tem que observar. Tudo que saia da normalidade, a família e amigos tem que estar muito atenta a isso”, disse a nutricionista. Em casos em que a pessoa ou a família perceba atos diferentes relacionados à alimentação, é recomendado o acompanhamento com um nutricionista e também a procura de um psicólogo ou psiquiatra especializado.

“E o recado que eu deixo é: comam de tudo, comam com prazer. O alimento nunca vai ser ruim, não trate o alimento como lixo, eu vejo muito isso nas redes sociais, o dia do lixo, a comida nunca é lixo. Para a família e amigos, fiquem sempre atentos a quem está ao seu redor, olhe com cuidado para esses sinais de alerta, para essas mudanças de comportamento em relação ao momento do comer. E se você perceber alguma mudança, tenta conversar, saber o que está passando e não abordar diretamente, mas perguntar o que tá passando, se a pessoa tá bem, se ela precisa de ajuda. E quanto antes puder tratar, ajudar, melhor”, encerra Priscilla Primi Hardt.

Para saber mais: https://oglobo.globo.com/blogs/espiritualidade-e-bem-estar/post/2025/06/o-comer-transtornado.ghtml

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