Entre identificação e confusão, jovens recorrem a conteúdos virais para se autodiagnosticar, mas especialistas alertam sobre os riscos desse comportamento

A psicóloga Saraí Rivera López. Foto: Redes Sociais

Por Andrés Herrera

A popularização de conteúdos sobre saúde mental, muitas vezes baseados em listas simplificadas de sintomas, estimulou uma tendência entre jovens: o autodiagnóstico. “Você tem esses 5 sinais… então provavelmente tem TDAH.” e “Se você evita interações sociais, pode ser autista”, são algumas das frases que se tornaram comuns em vídeos curtos que circulam diariamente no TikTok e no Instagram.

Para Saraí Rivera López, formada em Psicologia pela Universidad Nacional Multidisciplinaria Ricardo Morales Avilés, em Manágua, e que concluiu um estudo sobre o fenômeno, a problemática em questão se intensificou nos últimos anos, especialmente em relação a transtornos como Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Transtorno de Personalidade Borderline, Ansiedade Social e, em alguns casos, Autismo nível 1.

“O problema não é falar sobre saúde mental, mas como se fala. Em TikTok e Instagram virou tendência usar sintomas clínicos como se fossem partes da personalidade. Não há contexto, não há história, não há análise. Só há: ‘me passa isso, então devo ter isso’”, afirma.

De fato, o acesso a conteúdos que antes eram restritos a profissionais contribuiu para maior conscientização sobre saúde mental. No entanto, quando consumidos sem orientação ou criticidade, podem gerar falsas certezas e reforçar estereótipos. “Acreditar que um vídeo de 30 segundos pode te definir é muito arriscado. Isso não é diagnóstico, é suposição sem análise”, alerta Saraí.

Segundo ela, que atualmente realiza estágio profissional no Centro Educativo Sor María Romero, em Manágua, onde atende casos individuais, os riscos do autodiagnóstico são diversos: desde abandonar a busca por ajuda profissional até moldar toda a identidade com base em uma etiqueta.

“As pessoas começam a evitar desafios porque pensam: ‘é assim que sou, tenho isso’. Ou seguem consumindo conteúdos que reforçam a ideia de que estão mal, mas não oferecem ferramentas para melhorar. Não é exagero: o que se reforça nas redes é a emoção, a heurística, não a razão — e isso provoca mais confusão do que alívio”.

Apesar das críticas, Saraí reconhece que, em alguns casos, o contato com esse tipo de conteúdo pode funcionar como um disparador para o autoconhecimento ou para a busca de ajuda. “Há quem se sinta identificado e procure um profissional. Mas isso não é o que acontece na maioria dos casos. Infelizmente, muitas pessoas se encerram em diagnósticos sem estrutura, sem análise de fundo e sem conhecer como se chega a um diagnóstico real.”

Outro efeito preocupante apontado pela psicóloga é a banalização de termos clínicos. “Dizer ‘tenho ansiedade’ ou ‘sou TDAH’ já não significa nada clinicamente — virou adjetivo. Isso esvazia o peso dessas palavras e prejudica tanto quem realmente precisa de diagnóstico quanto os profissionais, que acabam sendo questionados por não confirmar o que alguém leu em um post”.

O ambiente digital, segundo Saraí, favorece a romantização e a viralização desses rótulos, mas pouco contribui para que se trabalhe efetivamente as questões de saúde mental. “Cria-se um espaço onde tudo se trivializa, mas nada se aprofunda”.

Diante desse cenário, o que os profissionais de saúde recomendam? Para Saraí, a abordagem deve ser cuidadosa, sem ridicularizar ou minimizar o sofrimento. “É preciso convidar ao questionamento: de onde vem isso que vi? Quem está dizendo? Por que me afetou tanto? O que eu realmente preciso?”.

Ela destaca a importância de buscar espaços seguros, presenciais ou virtuais, para falar sobre saúde mental de forma profunda, e recorrer a terapias baseadas em evidências, com enfoque contextual. “Ter um diagnóstico psicológico não é ter uma explicação total de quem você é… é apenas uma parte. O real está no trabalho que você faz com isso, não em como o nomeia”.

Enquanto o debate sobre saúde mental nas redes sociais continua crescendo, especialistas como Saraí lembram que informação é fundamental, mas deve vir acompanhada de análise crítica e orientação profissional.

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