Com a popularização da carreira de digital influencer, crianças e adolescentes entram nas redes sociais sem preparo ou acompanhamento e sofrem as consequências da superexposição precoce
Por Maria Eduarda Almeida

Durante o último mês, a internet acompanhou uma das maiores ascensões seguidas de queda entre os influencers mirins. Foi o caso de Miguel Oliveira, jovem de 15 anos que se popularizou nas plataformas por pregações e supostos milagres.

A fama repentina ocasionou ataques cibernéticos ao chamado “pastor mirim”. Com o intuito de preservar a imagem do adolescente, o Conselho Tutelar proibiu o menor de utilizar redes sociais e pregar em igrejas. Em seguida, sua família acusou inúmeras contas de uso indevido da imagem do mesmo. Todo o caos gerado na vida de um jovem traz o questionamento acerca dos perigos da superexposição precoce nas mídias.

A cultura do cancelamento sempre foi uma prática comum no mundo virtual. No entanto, sua abrangência a menores de idade – pessoas que sequer respondem legalmente por suas ações – prejudica a saúde mental de crianças e adolescentes que, sonhando com a fama, se colocam em frente às câmeras.

“Adolescentes erram. Então, errar na frente de todo mundo, na rede social, e ter que lidar com esse erro na frente de todos, às vezes também acaba interrompendo esse desenvolvimento psicológico, psíquico, que deveria ser de uma forma e acaba não sendo. Isso, claro, para quem é influenciador, está aí no meio do furacão e está sendo observado pelo mundo”, afirma a psicóloga Julia Maria Saiyori Yano Costa, em entrevista.

Julia Maria Saiyori Yano Costa. Reprodução: redes sociais.


O exemplo mais recente é o desentendimento entre Liz Macedo, Duda Guerra e Antonella Braga, jovens influenciadoras de 16 anos. Uma discussão, comum entre amigas, tomou proporção nacional por tratar de pessoas famosas no mundo
teen. São apenas adolescentes, mas por sua influência foram vilanizadas para a construção de uma narrativa dos internautas, que se entretêm com as vivências delas.


Em uma rede cujo público determina o comportamento aceitável, não resta opção aos influenciadores senão se adequar. “Esses jovens costumam criar uma persona, uma ‘máscara’ baseada naquilo que viraliza, naquilo que dá like, nos algoritmos, na expectativa que as pessoas têm em cima deles. Isso pode gerar consequências dentro do desenvolvimento psicológico desses jovens, no que se refere à formação de identidade, relação com a própria imagem”, declara a terapeuta.


Apesar dos malefícios já previstos, a internet, quando utilizada do modo correto, pode ser benéfica aos jovens. A profissional destaca o amparo financeiro e auxílio na decisão de um nicho profissional futuro como alguns dos pontos positivos. “Desde que haja um tipo de supervisão e suporte por parte desses pais e que eles possam conversar com esses jovens, para criar algum tipo de consciência da parte deles também”, adiciona.


Relembra ainda que, de acordo com o Art.18 do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), “é dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor”. Assim, preservar a imagem de qualquer menor de idade é função de todos os adultos – incluindo aqueles que o acompanham – não exclusivamente dos responsáveis.


Aos internautas, a psicóloga aconselha que evitem a idealização dos influenciadores mirins. “Por trás dessa pessoa pública existe uma criança, um adolescente que tem seus próprios conflitos, que está em desenvolvimento e que vai errar em algum momento”. Já aos pais desses jovens, alerta: “Lembre que, para além da pessoa pública, além do seu filho talvez estar contribuindo financeiramente com você, ele é uma pessoa e não só um produto”.

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