A ação amplia o acesso ao ensino superior e representa um passo importante no combate à desigualdade.
Por Larissa Cunha, 28 de abril de 2025
Em uma decisão histórica, a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) anunciou, no início do mês, a implantação da cota destinada a pessoas trans, travestis e não binárias nos cursos de graduação da instituição, tornando-se a primeira universidade estadual de São Paulo a adotar essa política afirmativa.
A medida, aprovada por unanimidade no Conselho Universitário (Consu) da Unicamp, fará parte do sistema Enem-Unicamp, que em seus próximos processos seletivos destinará a cursos com até 30 estudantes, ao menos uma vaga para esse público e no mínimo duas vagas para os cursos com mais estudantes.
Desde sua recente aprovação, a cota destinada ao público trans vem sofrendo diversas críticas, fundamentadas em sua maioria no medo de que sua implantação possa comprometer as vagas destinadas à ampla concorrência. Entretanto, essa suposição foi descartada pelo diretor da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest), José Alves de Freitas Neto. Em sua entrevista ao G1, o diretor esclareceu que devido à cota estar ligada ao vestibular Enem-Unicamp, sistema já voltado para ações afirmativas, dificilmente vagas regulares seriam prejudicadas, principalmente, levando em consideração que as estimativas seriam de que a maioria das vagas seriam adicionais.
Para quem convive com a exclusão, a medida contribui para o combate à discriminação. Segundo Eliza Miranda, estudante trans de história da Unicamp, a adesão da cota para estudantes trans, travestis e não binários em universidades no país funcionaria como uma política pública que ameniza o quadro de desigualdade social, como a transfobia, que aflige grande parcela dessa população no país, através da garantia de acesso a uma educação de qualidade.
“Acredito que a política de cotas é importante porque a população trans é extremamente marginalizada. É muito difícil uma pessoa trans ser contratada, não importa onde, e isso só piora em cargos que exigem mais qualificação profissional. A transfobia afeta as mais diversas esferas de nossas vidas. Por isso, a oportunidade de nos qualificar, ocupar espaços em universidades é de extrema importância, pois contribui para vivermos com dignidade”, afirma a estudante.
De acordo com a aluna, a chegada de mais estudantes trans à universidade representa uma mudança necessária e urgente que “será extremamente benéfica, pois trará novas perspectivas e questões nas diferentes esferas do conhecimento”. Ao garantir o acesso a esses espaços, Eliza acredita que a cota não apenas ajuda a combater a discriminação presente na instituição, mas também cria um efeito transformador em geral, pois também serve como “um passo para superarmos a transfobia enraizada em nossa sociedade”. Uma vez que, segundo Eliza, ver cada vez mais pessoas trans circulando em ambientes fora da marginalidade ajuda a mudar a visão estereotipada e errônea da sociedade sobre estas pessoas. A respeito das cotas, a estudante ainda declara que “as cotas são quase como um ato de rebeldia no país que mais mata pessoas trans”, como a Associação Nacional de Travestis e Transexuais também apontou seu último dossiê, apesar da redução de 16% em relação ao ano anterior, pelo 16º ano o Brasil é o que mais mata essa população.
A respeito do que se espera para o futuro, outras universidades pelo país possuem ações nesse sentido, como a Unesp (Universidade Estadual Paulista), que através de movimentos estudantis, como o Afronte, luta pela inclusão e oportunidade.
