Para Andréa Martinelli, editora-chefe da revista, há um cansaço das telas e uma busca por se conectar de formas diferentes do digital

Por Rafaela Parizoto

Vinis, CDs, DVDs, câmeras analógicas… a busca por mídias físicas tem se tornado cada vez mais frequente e os veículos de informação não escapam disso. No último ano, a Capricho retornou ao impresso, publicando sua primeira revista física em dez anos. Com isso, surge o questionamento: Por que aderir às edições físicas mesmo em uma era tão digital?

Sobre esse retorno, Andréa Martinelli, editora-chefe da Capricho, explica que há um cansaço das telas e uma busca por se conectar de formas diferentes do digital. “Vários estudos de tendência de comportamento mostram o quanto as pessoas estão carentes de curadoria ou de alguém dizer pra você o que é prioridade, o que é importante ou não nesse mar de conteúdo que é a internet.”

Desta forma, uma revista, ou qualquer outra mídia física, deixa de ser apenas um produto e passa a ser encarada como, nas palavras da própria editora, uma experiência por quem a consome.

Com o uso exacerbado das mídias digitais, é natural que as pessoas comecem a buscar algo que fuja disso. Hoje em dia, ao entrar em qualquer rede social, somos bombardeados por milhares de conteúdos e informações. Além disso, somos constantemente influenciados a consumir o que é mostrado nessas redes, não só no sentido bruto de consumir como mercadoria, mas consumo esse que também dita as tendências de cultura e entretenimento que devemos seguir.

É justamente onde surge a necessidade de procurar outras formas de consumir e qualquer mídia física se encaixa nisso, pois trata-se de um conteúdo previamente pensado e selecionado especificamente para seu destinatário.  

A editora da Capricho explica que o retorno da revista impressa se deve principalmente à demanda do público e ao atual cenário social, onde o digital é constante até demais. “A cada capa digital que a gente publicava, todo mundo pedia a edição impressa daquela capa, então a gente viu um movimento a partir dos leitores, tanto que na capa da edição de dezembro está escrito ‘agora impressa do jeito que você pediu!’” 

O movimento de retorno ao analógico, muito presente na geração z, também pode ser encarado como uma busca pelo passado, pela infância, ou seja, por um sentimento nostálgico. Apesar disso, ao ser questionada sobre o apelo nostálgico de uma revista, de ir à banca comprá-la, Andréa responde que “a nostalgia nunca foi um fator de fato decisivo para imprimir revista, muito pelo contrário, a gente quer que a Capricho esteja no presente, se relacionando com a vida das pessoas”.

O perfil da revista

De fato, a Capricho se mantém mais atual do que nunca. Desde sempre trazendo assuntos à frente de seu tempo e até um pouco polêmicos. A revista, ao contrário do que muitos pensam, não trata apenas de conteúdos sobre moda e celebridades para adolescentes, também traz uma conscientização extremamente necessária nessa fase de formação. A Capricho sempre apresentou para seus leitores conteúdos sobre saúde sexual, bem-estar e vem, cada vez mais, trazendo questões políticas e sociais em suas edições.

Nas décadas de 2000 e 2010, pautas feministas, como a legalização do aborto, eram sempre abordadas na revista. Na questão de informar sobre saúde sexual, que é algo tão negligenciado para os jovens, a Capricho tinha uma sessão na revista sobre o assunto, sempre enfatizando a importância do sexo seguro. 

Em 2022, a Capricho teve seu primeiro projeto político, chamado “CH na Eleição”, criado com o objetivo de informar o público jovem sobre a importância de sua participação na política. De acordo com Andréa Martinelli, “ele foi feito muito porque a gente tinha ali um ano eleitoral muito importante na história e a movimentação do voto jovem cresceu muito, então a gente não podia ficar fora dessa conversa.” Na sua volta ao impresso, a revista também trouxe pautas políticas, com uma sessão que dava destaque a mulheres que estão adentrando o meio político e enfatizando a importância de aumentar a participação feminina nos cargos políticos.

Ao longo dos anos 

A revista Capricho começou sua história em 1952, surgindo não só como a primeira revista da Editora Abril dedicada ao público feminino,  mas a primeira em todo o país. Inicialmente, o foco da revista eram as fotonovelas, com o passar do tempo, outros assuntos passaram a ser abordados também, como moda e entretenimento, e assim, a Capricho foi conquistando um público cada vez maior.

Tendo seu ápice nos anos 2000, a Capricho desde décadas atrás é um marco na adolescência de milhares de mulheres brasileiras. No entanto, em 2015, após mais de 60 anos de sua existência, a editora tirou a revista de circulação, ou seja, por alguns anos a Capricho existiu somente através de seu portal na internet, sem qualquer edição da revista física e nem mesmo digital. 

Foi só em agosto de 2023 que a revista retomou suas edições, a princípio apenas de forma digital, com um novo posicionamento editorial, pautado na auto-expressão e criatividade. Após mais de um ano lançando edições digitais mensalmente, e a cada capa sendo cada vez mais requisitada a sua impressão, acontece o tão esperado retorno às bancas, provando que a revista ainda se mantém relevante para os jovens atuais.

As edições impressas da revista são semestrais e essa foi uma mudança planejada para longa duração. “A gente quer ter duas edições ao ano por um bom tempo e estamos trabalhando para que isso aconteça da forma mais alinhada editorial possível”, diz a editora-chefe.

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