Durante a campanha eleitoral de 2024, Donald Trump propôs a anexação da ilha situada no Ártico.

Por Pedro Henrique Oliveira

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem ameaçado constantemente a soberania da ilha situada no Ártico. Durante diversas oportunidades, o chefe da Casa Branca afirmou ter interesse no território da Groenlândia. “Odeio dizer assim, mas vamos tomar a Groenlândia”, afirmou Trump em entrevista publicada no UOL.

      O interesse norte-americano no território da Groenlândia sempre existiu. A presença militar norte-americana na ilha remonta à Segunda Guerra Mundial, quando a Dinamarca foi tomada por tropas alemãs e os EUA enviaram militares americanos para a Groenlândia a fim de proteger os dinamarqueses.

No primeiro momento, o objetivo era o monitoramento das atividades alemãs nas águas do atlântico norte. “A presença militar americana na Groenlândia começou durante a Segunda Guerra, quando a Dinamarca é invadida pela Alemanha e os Estados Unidos estabelece diversos acordos com os dinamarqueses exilados para a defesa da Groenlândia”, afirmou David Magalhães, professor da PUC-SP.

           Após o fim da guerra, a incerteza mundial ainda foi presente. Marcada por um conflito ideológico entre soviéticos e americanos, a atuação militar norte-americana permaneceu presente no território da ilha, levando ao desenvolvimento de bases militares americanas no território da Groelândia.

            “Outro momento que os Estados Unidos agiu no território da Groenlândia foi no começo da Guerra Fria (1951), quando houve um acordo entre Estados Unidos e Dinamarca e, por meio dele, estabeleceram a “Thule Base”, a qual ainda está ativa e é parte da defesa militar americana”, explica David, que pesquisa a política externa de governos ultradireitistas.

Foto de David Magalhães, professor da Pontifícia Universidade Católica.

Mas afinal, por que o presidente Trump quer anexar a Groenlândia? “A Groenlândia tem se tornado um território de cobiça internacional, sobretudo pela presença dos minérios estratégicos”, afirma David.

       A ilha ártica conta com um território de vasta presença de recursos naturais e minerais ainda pouco explorados devido ao seu clima extremo e à cobertura de gelo permanente. Com o derretimento gradual das geleiras causado pelas mudanças climáticas, depósitos antes inacessíveis estão se tornando mais visíveis e atraindo interesse internacional.

A Groenlândia abriga importantes reservas de minerais como ferro, zinco, chumbo, ouro, urânio e terras raras — elementos fundamentais para a produção de tecnologias avançadas, como baterias, ímãs e painéis solares.

Além disso, há potencial para a exploração de petróleo e gás natural ao longo de sua costa.

        “O petróleo e o gás (natural), embora sejam mais promissores, existem uma série de estudos sobre a potencialidade e a possibilidade de exploração, mas ainda não existe de fato uma exploração”.

     Esse cenário coloca a Groenlândia em uma posição estratégica tanto economicamente quanto geopoliticamente no contexto global de transição energética e disputa por recursos.

Summary map showing locations of deposits, important occurrences, and areas with assumed potential for additional CRM resources in Greenland.Source: GEUS

 Geopolítica

     O professor explica também que a Groenlândia ocupa uma posição geopolítica estratégica no Ártico, despertando o interesse de potências globais como Estados Unidos, China e Rússia. “A ilha ocupa uma posição importante na chamada geopolítica do ártico. É uma região de intensa disputa geopolítica”, disse.

           Sua localização entre a América do Norte e a Europa, além da proximidade com rotas marítimas que estão se tornando mais acessíveis com o degelo do Ártico, torna a ilha um ponto crucial para a segurança e o comércio internacional.

Na mira de Trump

       David Magalhães também avalia que o interesse de Donald Trump na Groenlândia ultrapassa questões econômicas e geopolíticas. A forma como o atual presidente dos Estados Unidos age e expõe-se publicamente em entrevistas e debates deixa explícito, segundo David, “a tentativa de reagir a esse momento de atrofia do poder americano”, colocando os EUA nos noticiários mundiais.

            “A anexação é apenas mais uma das tantas estratégias de negociação do Trump de levar a questão ao extremo para conseguir um ponto médio. O ponto médio já é vantagem para os Estados Unidos. Ele tem feito isso e é parte do modo operante dele”, conclui o professor da PUC-SP.

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