O remake da clássica animação estreou no Brasil em 20 de março, mas vem sofrendo críticas desde muito antes disso. As mudanças da história original, a escolha dos atores e o uso de computação gráfica ganharam espaço de discussão principalmente nas redes sociais
Por Isabela Nascimento
“Branca de Neve e os Sete Anões” foi o primeiro longa de animação a cores, em 1937, e teve dezenas de adaptações desde então, algumas bem sucedidas e outras que caíram no esquecimento. A remontagem oficial da Disney (2025) trouxe atualizações da história original que foram questionadas, além de problemas na divulgação e o fracasso de bilheteria.
No início da divulgação do filme a protagonista Rachel Zegler, que já havia sofrido racismo e reclamação vindos do público ao ser escalada como a princesa, se envolveu em debates políticos.
Zegler criticou o presidente Trump e demonstrou apoio à Palestina no contexto da guerra, enquanto a israelense Gal Gadot (Rainha Má) defendeu seu país. O filme também foi banido no Líbano por contar com Gadot em seu elenco.
Dentre as novidades do longa, destacam-se a ausência do príncipe que salva a princesa, sendo substituído por um rebelde (Andrew Burnap) e o maior empoderamento de Branca de neve como líder.
Além disso, o próprio nome da produção não conta com “os sete anões”, característicos da história. Isso se deu pela decisão de não perpetuar um estereótipo, alterando os personagens para criaturas mágicas. Ao optar por não escalar atores anões para interpretá-los, a Disney levantou polêmica. Dentre os intérpretes com nanismo não houve unanimidade: o astro Peter Dinklage criticou a regravação de uma história preconceituosa sobre eles, enquanto outros atores, como Dylan Postl, retrataram a atitude de Dinklage como egoísta. “Ele tirou o emprego de sete de nós”, disse o ator em entrevista ao canal de Piers Morgan, do Youtube.
A computação gráfica do filme foi severamente criticada. O modelo usado para os seres mágicos não foi condizente com a estética do filme e caracterizou-se como o ponto de maior debate do público. Além das criaturas da floresta, o CGI (computer-generated imagery, imagens geradas por computador) foi usado em cenários e animais. A direção de arte em geral, como cenários, figurinos, ambientação e músicas, foram classificadas como superficiais e sem transmitir emoção à história.
Outro fator de discussão foi o conceito de “beleza interior” adicionado na nova versão. Agora, Branca de Neve é a “mais bela” por sua gentileza e bondade, colocando em pauta uma crítica ao padrão de beleza imposto pela sociedade.
As razões do fracasso
Outros filmes criticados mundialmente acabaram alcançando altas bilheterias, como “Emilia Pérez”, vencedor do Oscar em duas categorias. Com o sucesso de tantas outras adaptações da obra e de remontagens de clássicos da Disney, questiona-se o que levou ao fracasso de Branca de Neve.
Para o estudante de cinema na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e profissional da área Enzo Benedocci, o insucesso do filme se deu primeiramente pela quebra de uma expectativa. Por ser um filme clássico da infância, tem-se um “encanto” que acaba não sendo correspondido com a adaptação.
“Fez parte da infância de muita gente, então quando você põe um live action, você personaliza essas pessoas, você tira aquela mágica que o desenho tem”, explica Enzo. “É uma quebra de expectativa muito grande independentemente de quem for escalado para o elenco ou de como a obra foi feita”.
Enzo explica também que o segundo motivo foi a falta de harmonia pela estética hiper-realista, principalmente de alguns personagens. Isso acaba gerando uma concepção além do natural que atrapalha a experiência da história.
“Para você comunicar isso pra pessoa [a mensagem do filme] ela tem que se sentir confortável, ela tem que relaxar pra mergulhar na história e eu acredito que imagens muito realistas, para alguns personagens ou para cenário, exageram um pouco porque elas fazem com que a pessoa chegue no limite da visão”, explica.
Por fim, Enzo destaca a diferença entre a linguagem de uma animação para um live action. Um conto de fadas clássico, feito para um público infantojuvenil, tem naturalmente uma comunicação mais simples que condiz com o estilo de animação.
Ele explica também que ao tentar transformar isso para pessoas reais, a história acaba se tornando muito rasa e parece não ter tanta complexidade ou desenvolvimento, o que aconteceu com Branca de Neve.
O filme foi orçado em 209 milhões de dólares e alcançou uma bilheteria mundial de apenas 181 milhões, bem abaixo do esperado.
