Pesquisa aponta o crescimento da distância ideológica entre mulheres e homens da geração Z
Por Isabela de Andrade Ferreira
O jornal britânico Financial Times colheu dados de quatro países (Estados Unidos, Coreia do Sul, Alemanha e Reino Unido) que apontam um movimento geral: a maioria dos homens entre 15 e 30 anos tende ao conservadorismo e posicionamentos de direita e extrema-direita, enquanto as mulheres da mesma faixa etária tendem a posições mais progressistas.
Historicamente, pesquisas indicam uma disparidade política entre as gerações, tendendo a uma proximidade interna entre a mesma.
A geração Z, foco da pesquisa, é a primeira a crescer imersa no universo da Internet, sendo esse um dos possíveis fatores que vêm reforçando esses padrões pelo mundo.
Um estudo realizado pela Universidade de Dublin simulou contas de jovens rapazes entre 16 e 18 anos. No tiktok, foram necessários, em média, 23 minutos para que conteúdos tóxicos ou misóginos fossem recomendados aos usuários. Assim que os vídeos desses criadores eram visualizados, o algoritmo, que aprofunda os usuários em seus temas de interesse, passava a recomendar mais conteúdo relacionado.
O estudo identificou ainda os temas mais comuns desses perfis: narrativas de crise, que defendem que assuntos como a masculinidade e a família nuclear estão sob ameaça, vídeos motivacionais e vídeos de teor misógino. Uma das limitações do estudo é a falta de transparência das plataformas, faltando informações mais precisas sobre como o algoritmo seleciona o conteúdo que será sugerido.
A professora e pesquisadora do Departamento de Ciências Humanas da Unesp, Larissa Pelúcio, aponta que a intensa produção intelectual feminista e sobre o “ser mulher”, pelos ultimos 60 anos, contribui para um cenário de mulheres mais conscientes e ativas politicamente.
“As mulheres já estão há muito tempo pensando, refletindo e produzindo conhecimento, temos um vasto campo conceitual, analítico e subjetivo para pensar as nossas experiências, questioná-las e agora reivindicar esses direitos. Ao contrário, isso não está acontecendo com os meninos, essa convocação a pensar em si, nos seus comportamentos e privilégios é algo muito novo para os homens em geral. O mundo sempre foi masculino”.
Nesse sentido, o movimento parece ser também uma reação masculina a essa geração de meninas mais conscientes politicamente, que em sua maioria esteve em contato com a quarta onda feminista, em meados da década de 2010, marcada pela popularização e disseminação das pautas do movimento por meio da internet.
Um relatório da empresa Córtex aponta que as bolhas conservadoras online tem um engajamento cinco vezes mais forte nas redes sociais. Ao ser perguntada do porquê os homens jovens são os mais suscetíveis a consumir esse tipo de conteúdo, Larissa explica que, por uma falta de outros modelos, esses jovens se juntam em torno desses movimentos que apresentam respostas sedutoras e atrativas como sociedade.
“Esse discurso captura esses rapazes que estão perdidos no meio dessas transformações e sem uma reflexão teórica consistente, sem um movimento social que reivindique outras masculinidades”, complementa.
E quais as consequências futuras desse movimento historicamente tão novo? Qual o impacto desse distanciamento na nossa sociedade?
Para a professora, as reações já estão acontecendo. Um exemplo é a onda de eleições de figuras masculinistas por uma maioria de eleitores homens, como na Argentina ou nos Estados Unidos recentemente.
“A tendência, por mais obscuro que pareça o futuro, é que não haja um retrocesso sem luta e sem posicionamento. E acho que temos uma geração de meninas e mulheres muito mais nutridas de teoria, prática, reflexão e vocabulário para fazer esse enfrentamento”, conclui Larissa Pelúcio.
