Caramujo, Porpetane e TopMusa contam suas realidades vendendo imagens íntimas

Por Maria Clara Buchalla

Cadu Batista, do Projeto Descubra, fotografa Porpetane 

Você já ouviu falar do OnlyFans? E do Privacy? Os sites mais famosos no mercado de conteúdo adulto por assinatura registram, juntos, mais de quatro milhões de criadores, que são “colírios” para os olhos de 234 milhões de usuários. Desde seu crescimento na mídia em 2020, ocorrem discussões sobre a dignidade dos trabalhadores na venda de imagens íntimas que tais plataformas promovem: a relação de exposição versus faturamento é positiva? Existe muito sofrimento e assédio? Grandes criadores mostram o lado de quem produz o conteúdo e suas opiniões sobre a profissão.  

Brasil, um país que produz e consome

Os dados revelam que o Brasil é um dos países que mais consome material pornográfico no mundo, ocupando a décima posição no PornHub, por exemplo, de acordo com a pesquisa divulgada pelo site. 

Levando em consideração os riscos do vício, em 2023, foi convocada uma audiência pública com a Comissão de Assuntos Sociais do Governo Brasileiro para debater o tema. “De acordo com estatísticas de 2020, o site de pornografia mais popular recebeu cerca de 3,5 bilhões de visitas por mês. Ademais, os dados evidenciam que cerca de 75% dos homens e 35% das mulheres consumiram pornografia pelo menos uma vez no ano anterior”, explica o senador Eduardo Girão, o qual convocou a audiência, para a Agência Senado.

É preciso apontar também que não só de consumo vive o Brasil: o site Privacy é nacional e reúne, sozinho, cerca de 24 milhões de usuários e 150 mil produtores de conteúdo.

Perspectiva dos criadores: a pressão estética

Gabriel Araújo, conhecido em suas redes sociais como Caramujo, produz conteúdo adulto em diversas plataformas. Começando pelo Privacy, em abril de 2023, coleciona hoje centenas de milhares de seguidores em suas redes sociais. O influenciador conta que sua rotina mudou muito devido à pressão estética que acompanha o trabalho. “Hoje tenho que cuidar do meu corpo, ter uma rotina regrada, uma boa alimentação e fazer exercícios. Para a gente que cria conteúdo, é importante. As redes sociais se voltam para as pessoas estarem sempre bem e bonitas”, relata.

Gabriel Araújo, conhecido em suas redes sociais como Caramujo (Foto: Reprodução/ Instagram)

A ideia em torno da existência de padrões de beleza influencia esse cenário. “A exposição midiática tem contribuído para  a  crescente  aceitação  e  busca  por procedimentos  estéticos,  moldando  as atitudes em  relação  à beleza  e  autoimagem”, analisa o estudo “A evolução da cirurgia plástica no Brasil: avanços, influências socioculturais e perspectivas futuras”, publicado em 2024 na revista científica Studies in Health Sciences. Isso quer dizer que, o Brasil, afetado pela mídia, tem grande interesse por cirurgias estéticas, que despertam o senso de “aparência ideal”, cultura que afeta os profissionais que utilizam de sua imagem para obter sustento. 

Exposição


 “As pessoas não conseguem ter a mente aberta pra esse tipo de coisa, há muito tabu e conservadorismo no quesito sexo, corpo e exposição”

Gabriel Araújo, o Caramujo, criador de conteúdo adulto 

[Fama: substantivo feminino; 1. conceito (bom ou mau) que um grupo humano tem de alguém ou de algo; reputação.]

Segundo a definição de fama, estar em evidência está relacionado com a percepção dos outros. Como prova disso, a influenciadora de 21 anos, que se identifica como Porpetane, compartilha sua posição. Algumas vezes “engessada socialmente”, diz que se afastou de muitas pessoas. “Comecei a ser mais cautelosa com os lugares que frequento e como me porto. Não uso o estilo de roupa que gostaria, nem me posiciono nas redes sociais como queria”, narra. De acordo com seus relatos, essas são partes da vida que muitos jovens adultos que vendem sua imagem têm que abdicar por sua profissão.

Porpetane, criadora digital de conteúdo adulto (Foto: Divulgação/Cadu Batista, Projeto Descubra)

Quando perguntados sobre o maior ponto negativo da carreira, os dois criadores declararam que suas maiores ameaças estão relacionadas à exposição. Para Porpetane, a parte mais difícil é ter que lidar com tantos homens “sem noção”, que assediam e perseguem as mulheres que são seus objetos de desejo. Já Gabriel revela sua preocupação com o futuro, dizendo que ainda não tem tanta dimensão de como isso pode atrapalhá-lo, seja num emprego ou concurso. “Esse arrependimento passa pela cabeça em alguns momentos”, observa.

Assédio


Quando se trabalha com o mercado imagético-sexual, o ônus pode ser bem grande. Nota-se que o Brasil ainda é muito consevador quando o assunto é sexo; afinal, a cultura religiosa que prega relações íntimas só após o casamento está enraizada na cultura nacional há séculos, conforme sustentam Regina Facchini e Carolina Parreiras no texto “Conservadorismo, religião e política: um diálogo entre Brasil e Argentina”, publicado no blog SciELO em Perspectiva. “O foco na moral sexual da agenda conservadora tem alvejado especialmente os direitos relacionados à equidade de gênero e à diversidade sexual e de gênero”, apontam. As autoras também destacam que, para compreender as condições que tornam possível essa nova virada conservadora, há a necessidade de deslocar oposições como secular/religioso, laico/religioso, científico/religioso, político-jurídico/religioso ou mesmo estatal/eclesial. Ligado a isso está o fato de que ataques a mulheres e homens que vendem imagens íntimas não são nada raros, como visto no compilado de notícias abaixo:

Foto: Reprodução

Por outro lado, na nação que é uma das maiores consumidoras de material pornográfico do globo, a pesquisa do PornHub indicou, também, que a categoria mais acessada pelos brasileiros é de vídeos de pessoas trans. Ao mesmo tempo, é o país que mais assassina pessoas transgênero, conforme o relatório anual da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Por esses fatos, pode-se notar a existência de uma contradição entre o que se repudia “à luz do dia” e o consumo “às escondidas”.

Tal contraste impacta negativamente os criadores de conteúdo adulto dos dois jeitos: tanto pelo preconceito quanto pelo assédio advindo da obsessão de consumidores. Esses últimos, muitas vezes, sendo os mesmos que julgam a profissão.

Ambos, Caramujo e Porpetane, contam histórias de importunação vindas de “fãs obcecados”. “Mandam fotos sem minha solicitação e enchem minha caixa de mensagens, alguns conversam até sozinhos. Mas também já aconteceu pessoalmente de tentarem me beijar ou pegarem na minha genitália”, narra Gabriel. “Algum tempo atrás um ‘fã’ descobriu que eu trabalhava onde eu moro e começou a enviar o meu endereço em todas as minhas lives, nos comentários dos meus posts e vídeos. Além de enviar no direct em forma de chantagem”, conta Porpetane.

Diante desse cenário, é importante frisar que assédio é crime, inclusive online.

Artes: Maria Clara Buchalla/ Fonte: Código Penal Brasileiro

Mas existem criadores que, por outro lado, compartilham experiências positivas. A modelo e repórter Naty Vargas, de 28 anos, começou a postar imagens íntimas em 2021 pelo Telegram e diz que gosta muito do que faz. No quesito relacionamento com o público, declara que não tem muitas histórias de fãs incômodos, mas sim da criação de um fã-clube.

Naty Vargas, conhecida em suas plataformas como Top Musa (Foto: Rodrigo Finotti/Divulgação)

Uma nova vida

Outra dúvida do público muito recorrente quanto a essa profissão é a mudança de vida. Porpetane conta que, para ela, tudo mudou. “Antes de entrar nesse mundo eu trabalhava em um laboratório veterinário e estudava Ciências Biológicas no período noturno. Morava com a minha mãe, levava uma vida bem simples”, conta. Gabriel, por sua vez, relata que abdicou de seu outro emprego: “Eu sou ex-militar das forças armadas”.

É perceptível que as realidades de Gabriel e Porpetane se transformaram conforme os criadores se envolveram com o mercado digital. Ao trabalhar com internet, com a liberdade de produzir conteúdo de qualquer local e receber, em alguns casos,  grande ganho monetário, muitos profissionais abrem mão de seus trabalhos ‘comuns’, isto é, empregos formais que exigem, por exemplo, deslocamento até o local de trabalho e nos quais o ganho é, possivelmente, menor.

Ganhos e benefícios

Para se obter um panorama geral da vida dos criadores, também é preciso abordar os pontos positivos. Nesse sentido, os criadores contam o que consideram as melhores facetas de suas escolhas de trabalho. “Hoje em dia, faço os meus próprios horários, moro sozinha e tenho a minha própria empresa. Sou reconhecida na rua, viajo e saio com mais frequência”, explica Porpetane. Já para Naty, os benefícios são, além de tudo, ter tempo livre com a família e poder trabalhar de qualquer lugar do mundo.

Caramujo, por sua vez, afirma que trabalhar com internet é a “melhor coisa que existe”. “Consigo ter uma vida tranquila e conquisto meus objetivos. Tem sido positivo no geral. Mudei meu padrão de vida e o da minha família também”, destaca.  

É possível observar que o trabalho de venda de conteúdo pela internet possui uma grande diferença na renda e na facilidade de obtê-la, em comparação ao trabalho comum da média dos brasileiros, tendo em vista que o salário mínimo, em 2024, é de R$1.412 por mês. Os dados do ano de 2023 de rotação monetária do OnlyFans, por exemplo, são de 6,6 bilhões de dólares ou 37 bilhões de reais, segundo a Revista Forbes. Desses, 80% vão para os criadores, fazendo com que a plataforma fature cerca de US$1,3 bilhão ou R$7,2 bilhões — levando em conta que os números para a conversão de moedas são os da época. Assim, os US$5,3 bilhões remanescentes vão para os quatro milhões de criadores. Caso dividido igualmente – o que não é a realidade –, isso geraria, em 2023, cerca de 1.325 dólares por ano para cada criador no mundo. 

Os ganhos podem ir mais além: não só como sustento familiar ou upgrade no padrão de vida, a indústria de conteúdo adulto também possibilita construção de carreira. Naty Vargas, conhecida como Top Musa, além de disponibilizar conteúdo adulto no Only Fans e outros sites semelhantes, é apresentadora do programa Papo de Pijama no canal Sexy Clube e repórter na Revista Sexy, ambos referência do universo no Brasil. Naty diz que, apesar do preconceito que ainda perdura em nossa sociedade, é muito feliz com seu trabalho. 

Abertura do programa Papo de Pijama com a apresentadora Naty Varga (Foto: Reprodução)

Em meio a ganhos e perdas, como qualquer ofício, pode-se ver que a venda de conteúdo imagético pessoal pode ser lucrativa. É válido lembrar também que as imagens são de seres humanos e que devemos respeitá-los como a qualquer outro.

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