Superendividamento, rompimentos de laços familiares, depressão, ansiedade e até ideação suicida. Essas são algumas das consequências que o vício em apostas online pode causar e que estão em pauta no debate sobre a normatização

Por Sofia Caldas 

Desde a medida provisória (MP) 846/2018, que regulamenta as apostas esportivas de quota fixa, ou seja, em que os ganhos são pré-definidos no momento do lance, a procura por esse tipo de atividade tem aumentado e, com isso, o número de adictos. Além dessas, os cassinos online são muito procurados. Com a explosão das bets virtuais e suas consequências, a discussão sobre como tratar o fenômeno tomou diversos rumos, e um deles é o debate acerca da regulamentação. 

Diferença entre bets esportivas e cassinos online

Apesar de ambas serem apostas virtuais, as bets esportivas e os jogos de cassino online são diferentes tanto para a legislação brasileira quanto para especialistas da saúde. 

Os cassinos online são sites com jogos de azar, como caça-níquel e roletas. Neles, o desfecho depende quase exclusivamente da sorte e não há como saber o valor do prêmio antes de jogar – nem os critérios para o sucesso ou o fracasso. Já as apostas esportivas são baseadas em eventos reais, como uma partida de futebol. Nessa modalidade, o palpite é feito com base no resultado do jogo, e o apostador conhece antecipadamente o valor a ser recebido caso sua tentativa esteja correta. 

Site de bets esportivas. Foto: Acervo pessoal
Site de cassino virtual. Foto: Acervo pessoal

No ano de 2018, a MP, que posteriormente virou lei, legalizou apostas de quota fixa em eventos esportivos e determinou a elaboração da regulamentação da atividade em um prazo de dois anos, prorrogáveis por igual tempo. A estipulação de regras, porém, não ocorreu durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, o que gerou uma proliferação descontrolada da atividade. Diferente disso, os cassinos online são permitidos no Brasil desde que o endereço e o provedor do site sejam estrangeiros. 

Sob a perspectiva da área da saúde, tanto as bets esportivas quanto os jogos de azar online podem gerar prejuízos aos seus consumidores. O psicólogo Rafael Ávila, voluntário do SOS jogador, grupo de apoio para pessoas com vício nesses jogos, explica que, nas apostas esportivas, o estímulo dopaminérgico é diluído pelo tempo do evento, enquanto nos jogos de cassino as rodadas que geram o estímulo duram segundos, facilitando o comportamento compulsivo. “Todos têm potencial de vício, porque até loteria e máquina de ursinho têm. Então, é diferente e não é interessante que a gente coloque todo quadro no mesmo lugar. É a mesma coisa de falar que usuário de qualquer droga tem o mesmo problema”, argumenta.

Impactos na vida dos apostadores-online 

De acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), no primeiro semestre de 2024, mais de 1,3 milhão de brasileiros ficou com o nome sujo devido à atuação em cassinos online. Além disso, a pesquisa publicada na revista científica The Lancet em outubro de 2024 mostra que 9% dos adultos que apostam em jogos de esportes online desenvolveram dependência e que o número aumenta para 16% quando se trata de cassinos na internet.  

Em seu canal no Youtube, Thaina Santana, vítima das apostas virtuais, conta que ela e seu marido perderam, juntos, 37 mil reais. A influenciadora explica que gostava mais dos jogos de cassino, enquanto seu marido das bets esportivas. “A gente, por ter uma vida difícil, de batalha, de correr atrás, acaba se envolvendo nisso para tentar fazer um dinheiro extra”, conta na rede social.

Vídeo de relato no Youtube por Thaina Santana. Foto: Acervo pessoal

Para além de impactos financeiros, motivo pelo qual a maior parte das pessoas busca ajuda, o vício em apostas online também pode afetar a esfera social dos jogadores. O rompimento de laços familiares, geralmente causado por atritos financeiros, como empréstimos não devolvidos e o isolamento devido à priorização do jogo em detrimento de outras atividades sociais, são consequências que o psicólogo observa entre os adictos. 

É possível, ainda, verificar danos à saúde causados pelo vício em apostas virtuais. Ávila explica que um jogador patológico tem a mesma ativação cerebral, ou seja, mesmos estímulos neuronais, que um dependente químico usuário de cocaína. Além disso, picos de dopamina gerados a cada rodada, combinados com a queda sequencial desse hormônio, podem causar crises depressivas, além da busca incessante por novas altas de produção do neurotransmissor.

A expectativa pelo retorno financeiro e a recuperação do dinheiro perdido, bem como a semelhança entre os sintomas de ansiedade e os causados pela liberação de adrenalina durante as jogadas podem causar quadros ansiosos. “O acúmulo dessa adrenalina aliado com as perdas faz com que o hormônio deixe de representar a satisfação e se torne muito mais sobre a preocupação de estar perdendo dinheiro”, diz Rafael. 

Formas de combate 

Retomada em 2023, com o Ministro da Fazenda Fernando Haddad, a regulamentação das apostas virtuais suscita diversas opiniões. As múltiplas formas de enxergar o fenômeno resultam em diferentes maneiras de combater seus prejuízos. 

Marcada pela sua história e de seu marido com as bets esportivas e cassinos online, Thaina defende a proibição das duas modalidades de aposta virtual. Para ela, as consequências da prática são muito danosas, pois muitas pessoas começam a apostar em busca de uma melhoria de vida, mas acabam piorando sua situação. “Não é todo mundo que tem cabeça para jogar, eu mesma me arrependo amargamente de ter conhecido esses jogos”, declara a influenciadora em entrevista para o Jornal Contexto.

Por outro lado, existem aqueles que acreditam que a regulamentação seja a medida mais eficaz quando se fala nos malefícios das apostas virtuais. Rafael julga que, ao proibir apostas online, a atividade não deixará de acontecer e que, com a regulamentação, será possível conscientizar a população e justificar a criação de políticas públicas, além de gerar banco de dados sobre o fenômeno, o que auxilia em seu tratamento. 

Site SOS Jogador. Foto: Acervo pessoal

Ávila ainda acredita que a proibição dessas apostas afeta a autonomia daqueles que têm um relacionamento saudável com o jogo e que a regulamentação ainda poderia aumentar a arrecadação de impostos para o Estado. “Acho que é justamente aceitar a liberdade individual de cada um e estar preparado para os riscos, porque a atividade vai criar danos”, opina o psicólogo.

Diferente disso, Thaina não pensa que a proibição afeta a liberdade dos indivíduos. Para a influenciadora, impedir que as pessoas se prejudiquem jogando por meio da restrição das plataformas é mais importante do que garantir a jogatina àqueles que não desenvolveram vícios.

O raciocínio defendido por Rafael também indica que é preciso conscientizar os jogadores: “É melhor jogar limpo e falar ‘as coisas são assim, o vício é assim. As apostas esportivas têm esse risco, esses comportamentos, o cassino tem esses riscos’”. Para Ávila, é preciso informar as pessoas sobre as populações de risco, que devem evitar as apostas, como: pessoas que têm histórico de depressão ou transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), histórico familiar de ludopatia (dependência em jogos) ou vício em substâncias. 

SAIBA MAIS:

Deixe um comentário