Com a repercussão das acusações ao rapper americano, nasce o questionamento sobre o compromisso nas publicações sobre a temática e as consequências

Por Isabela Nascimento

Sean “Diddy” Combs, rapper e produtor americano, um dos nomes responsáveis pela transformação do Hip Hop nos anos 1990, foi preso no dia 16 de setembro de 2024, após ser acusado de abuso, tráfico sexual e violência doméstica. 

Depois da repercussão do caso, a internet foi dominada por criadores de conteúdo que trouxeram denúncias, teorias da conspiração e até mesmo acusações infundadas. E essa não é uma exclusividade deste acontecimento. Com a ascensão de produções sobre crimes nas redes sociais, é possível identificar esse padrão se repetindo várias vezes. Assim, surge o questionamento: há algo de errado na forma que os comunicadores trazem essas informações? Uma das principais críticas gira em torno da espetacularização exagerada de tragédias reais.

Caso Combs

“P. Diddy” foi acusado pela primeira vez em novembro do ano passado pela sua ex-esposa, Cassie Ventura. A cantora relatou que o rapper abusou e a agrediu física e sexualmente durante o relacionamento que durou onze anos. O caso foi arquivado rapidamente, mas foi um fator importante para outras vítimas que vieram a público posteriormente e contaram os episódios passados com o produtor.

Atualmente, mais de 120 pessoas formalizaram acusações de abuso e tráfico sexual na justiça americana contra o artista. Essas denúncias envolveram homens, mulheres e menores de idade e tratam de crimes que aconteceram desde os anos 1990 até a atualidade.

Sean ‘Diddy’ Combs — Foto: Angela Weiss / AFP

Alguns desses atos teriam acontecido em festas realizadas pelo acusado, que tinham presenças de celebridades. Há acusações que mencionam artistas de Hollywood, porém, nenhum nome foi divulgado ainda na apuração do Departamento Federal de Investigação, o FBI.

A repercussão na mídia começou depois da publicação de um vídeo, pela CNN, do rapper agredindo Cassandra Ventura. O caso passou a ser comentado nas redes sociais, porém, tomou uma proporção maior com a prisão de Combs e a exposição da investigação na internet.

Repercussão

Um dos assuntos mais comentados com relação ao caso é a ligação do rapper com as celebridades que frequentavam suas famosas festas. O faro vem sendo utilizado como base em teorias nas redes sociais, principalmente no TikTok e no YouTube.

Uma delas é o suposto envolvimento de Jay-Z e Beyoncé. Alguns criadores de conteúdo dizem que o casal tem participação e sabiam dos crimes cometidos por P. Diddy. O motivo seria a longa amizade entre Jay-Z e o acusado e o fato dos dois serem da mesma geração de nomes do Hip Hop dos anos 1990. Muitas vezes, essa e outras teorias que estão rodando a internet chegam aos consumidores com um teor informativo. 

Há vídeos nos quais existe uma responsabilidade em contar os fatos, porém, há uma diferença na popularidade desses dois formatos. O conteúdo sensacionalista coleciona visualizações, aparece frequentemente para os usuários e inundam os feeds com histórias sem confirmação.

Esse fenômeno não é incomum em vídeos que envolvem essa temática. Desde a popularização do true crime, ou seja, de crimes reais, vemos esse padrão se repetindo com frequência.

Ascensão do true crime, criação de conteúdo e cenário atual

Nos últimos anos, é notável o crescimento de conteúdos em todos os formatos sobre crimes reais. Séries, documentários e podcasts, como Pacto Brutal, The Menendez Brothers, A Mulher da Casa Abandonada e Dahmer, são produzidos por todo o mundo. Assim, com a popularização desse tipo de entretenimento, criadores de conteúdo identificaram uma oportunidade de explorar esse nicho. 

Além de comentarem acontecimentos em alta, casos sem repercussão midiática ganham destaque numa tentativa de descobrir o potencial de novas histórias. Existem vários formatos sobre o assunto, desde vídeos com teor informativo até teorias sobre possíveis acontecimentos e atualizações.

O caso “Diddy” é um dos que renderam vídeos em todos os formatos. Dessa maneira, a pergunta que fica é se os conteúdos produzidos são confiáveis e qual a responsabilidade dos criadores com relação a crimes reais.

Marcela Aquino, criadora de conteúdos no Tik Tok, classifica seu conteúdo como “entretenimento informativo”. Aquino afirma que sempre prioriza uma pesquisa completa para os seus vídeos, mesmo que sejam mais curtos. Suas fontes são, na maioria, portais internacionais como Variety e The New York Times. 

Sobre suas publicações envolvendo o caso Diddy, Marcela conta que o primeiro vídeo apresentou um resumo de “todo o barulho que estava na mídia” e um contexto geral do envolvimento de outros nomes importantes da indústria. “Depois, se tratou mais de esclarecer alguns pontos e tentar trazer um pouco de ‘senso’ no meio de tanta informação falsa e sensacionalismo”, completa.

Em uma de suas postagens, Marcela apresenta uma teoria da conspiração envolvendo a cantora Rihanna e o rapper Jay-Z, em uma suposta polêmica de uma problemática na relação dos dois. Sobre essa escolha, a tiktoker explica que suas produções são criadas a partir da coleta e apresentação de informações e, nesse caso específico, o motivo foi a existência de outras pessoas espalhando conjecturas como verdades. “No meu vídeo, eu explico o porquê existe uma teoria da conspiração envolvendo o tema, apresento os fatos e, por fim, trago a conscientização sobre o assunto,” argumenta Aquino.

Reprodução Tik Tok: Marcela Aquino

No que se refere à responsabilidade no tratamento de acontecimentos criminosos envolvendo pessoas reais, entende que teorias da conspiração existem e sempre existiram. “Mas é importante saber olhar cada coisa como é e ter uma postura crítica para tudo, principalmente quando se trata de Hollywood e a cultura das celebridades. Não acredito que nenhum dos meus conteúdos sobre esse caso se encaixe num tópico problemático”, reflete Marcela.

 Por fim, acredita que vídeos com base em suposições podem afetar o julgamento das pessoas e desencadear consequências. “Uma coisa é você criar um conteúdo explicando e contando sobre uma teoria da conspiração que existe por aí, outra é tratar disso num tom de ‘verdade absoluta’. O conteúdo responsável é e sempre será o melhor caminho”, analisa.

Mas, mesmo havendo produções nas quais os comunicadores trazem informações com responsabilidade, o debate sobre a espetacularização de true crimes se mantém.

Para o jornalismo

Com a popularização desse tipo de conteúdo na internet, uma das possíveis consequências seria uma falta de entendimento por parte dos consumidores, que podem deixar a busca de informação em mídias confiáveis e buscar como fontes as publicações nas redes sociais.

Amanda Barboza, jornalista cultural e criadora de conteúdo literário, acredita que há uma confusão entre o que é ser jornalista e o que é ser influencer. “As pessoas acabam tomando essas redes como se fossem locais para ter a informação completa, e esquecem que existem sites de notícias especializadas para fazer esse tipo de coisa”, pontua.

A profissional diz que esse meio pode ser usado para introduzir os assuntos, porém enfatiza que não são veículos especializados e reforça a importância de procurar informações em lugares confiáveis. Amanda também comenta a forma problemática como alguns criadores de conteúdo estão direcionando os vídeos sobre “Diddy”. “Nesse caso em específico, as pessoas acabam lidando muito com essa situação como se fosse fofoca. E isso é muito perigoso, porque, apesar da gente estar falando de um famoso, não é uma simples fofoca sobre a vida dele, mas sim um caso sério, uma questão de justiça, que mexe com os direitos humanos”, salienta.

Sobre a utilização de teorias da conspiração em vídeos sobre crimes reais, entende que alguns criadores usam para ganhar visualizações e acaba ignorando a sua responsabilidade em levar as informações para frente. “Diferente do jornalista, o influenciador pode não perceber a proporção do quão antiético é aquilo que ele está fazendo”, opina.

Amanda reflete ainda mais sobre o formato desses conteúdos. “Quanto mais sensacionalista você for, mais a atenção das pessoas você chamará. E aí a gente entra naquele ponto: ‘a gente é curioso, quer saber, quer fazer fofoca e dar a nossa opinião’”, completa. 

A jornalista reforça a importância da ética na comunicação com os consumidores. Isso porque, mesmo boa parte não tendo formação na área, é importante a consciência sobre como transmitir informações.

Consequências

Por fim, é significativo ressaltar os efeitos do sensacionalismo e  do consumo exagerado. A psicóloga Adriana Nunan afirma que existem consequências positivas e negativas desses conteúdos sobre crimes reais. “As boas são o desenvolvimento de algum tipo de empatia pela vítima e pelos investigadores. Observar uma situação trágica de um crime, de uma forma controlada, seria, em tese, bom”, analisa. No entanto, as consequências ruins seriam justamente a perda da empatia. “Você banaliza a violência como se fosse uma coisa normal ou natural”, destaca.

A profissional reflete sobre a internet no caso do rapper “Diddy”. “As pessoas acreditam muito na mídia, principalmente pensando que, se saiu no Instagram, saiu no jornal, saiu no TikTok, deve ser verdade”, avalia. Todavia, chama a atenção para o fato que muita gente não para para pensar na confiabilidade dos conteúdos. “Será que essa pessoa fez aquilo? E depois que alguém, seja famoso ou não, é rotulado como assassino, pedófilo ou ladrão, por exemplo, é muito difícil de se desvinciliar”, encerra Nunan.

O julgamento de Sean “Diddy” Combs já foi marcado para maio de 2025. O caso segue em aberto, e novas denúncias contra o rapper continuam surgindo, mesmo que a popularidade do tema tenha “esfriado”. Isso mostra que, atualmente, o debate sobre o consumo de conteúdos nas redes sociais é atual e necessário. O desinteresse em buscar informações confiáveis e responsáveis é uma possível consequência que dá pistas de como será a relação da sociedade com a internet nos próximos anos.

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