Por Lucas Capodeferro Nonato
Não me lembrava de ter adormecido, ainda assim lá estava eu acordando no sofá da sala. A manhã entrava pela janela, carregada por uma brisa fresca. Naquele breve momento, senti como se minha casa fosse a única coisa que existisse. Minha casa era tudo que eu queria; todo o universo pouco me importava. Sentia que minha casa era, definitivamente, o meu Lar.
Esse sentimento, contudo, logo se perdeu. Como se fosse enevoado ou encoberto por uma sombra. Uma sombra que estava sentada numa poltrona, ao lado do meu sofá. Ali, parada como se fosse uma sentinela, ou uma ave agourenta; pacientemente esperando para ter a certeza se ainda me restavam forças.
Não me lembrava desde quanto tempo, mas sempre estive na companhia desta sombra. Parte de suas trevas sempre estiveram sobre mim, ecoando meus passos. Mas naquele momento, ela realmente estava ali – sentada em sua poltrona, ao lado do meu sofá.
Não via para onde seus olhos miravam, não conseguia olhar diretamente para seu rosto, mas tinha medo de imaginar que ela estaria olhando para mim. Um medo que congelava a minha garganta e que se arrastava, viscoso, pela minha pele.
Não me lembrava de quando passei a sentir esse medo, apenas me lembrava de sempre senti-lo. E agora, esse mesmo medo estava postado ali, ao meu lado, me impedindo de me levantar e seguir com minha vida. Tive medo de nunca mais poder me levantar do sofá. Tive medo de ficar ali, refém daquela sombra, para sempre. Tive medo de nunca mais me livrar daquela sombra.
Pensava em todos os momentos em que poderia perder dali para frente, em toda a vida que se derretia diante da luz da tarde, imersa em meio ao ar abafado. Pensava nos momentos em que já vivi, nas lágrimas que já derramei sobre sorrisos e dores.
Não me lembrava desde quando sentia medo daquela sombra, mas me lembrei de que ela não fora a única coisa que me acompanhou ao longo de minha vida. Pensei em meus relacionamentos, nas pessoas que sempre me apoiaram e que sempre estiveram comigo, mesmo que não estivessem sentadas em uma poltrona, ao lado do sofá.
Não me lembrava de ter começado a chorar, mas pude sentir quando a lágrima escorreu pelo meu rosto. Encarei a sombra e seus olhos escuros. Me pus de pé e caminhei até a porta do outro lado da sala. Deixando a sombra para trás, eu pude assistir ao pôr do sol e senti na pele o sopro revigorante do anoitecer.
Inspirado na Crônica de Lya Luft, “A marca no flanco”
