Companhia Sobrecéus oferece oficinas teatrais no espaço onde antes funcionava a Penitenciária do Carandiru

Por Bárbara Lo Prete

“Retirar as ruínas é um apagamento, pois elas remetem diretamente à figura de um presídio”. É desta maneira que Mayra Guanaes, diretora da Companhia Sobrecéus, de São Paulo, define as oficinas realizadas no Parque da Juventude, onde antes funcionou a penitenciária do Carandiru.

Diretora Mayra Guanaes (Foto: Bárbara Lo Prete)

As oficinas, ministradas aos sábados desde o dia 9 de março, ocupam diversos espaços do Parque da Juventude. Começou pela dança e a relação do corpo com o espaço, passando por jogos teatrais e reconhecimento do território. O grupo oferece também atividades com a arte do grafite, bordado, oficina de pipa (que termina com o grande pipaço no próximo dia 13) e fecha com uma travessia coletiva pelo parque.

A iniciativa das oficinas surgiu em 2022 com o desejo de trazer um novo projeto de arte educação que interagisse com o território e a população que o cerca. “O projeto tem como objetivo a mediação cultural no parque que fosse afetivo, que integrasse a população e equilibrasse a memória recente com a ciência de que aqui houve uma grande violação dos direitos humanos”, diz Mayra.

O VAI, Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais, é um edital de cultura destinado a coletivos da cidade de São Paulo, com integrantes de 18 a 29 anos e com um mínimo de dois anos de atuação comprovada. Foi este edital que possibilitou colocar em prática o primeiro projeto de intervenção da companhia.

Fundada em 2020 pelo professor Elder Sereni, doutorando em Artes Cênicas pela Unesp, a Sobrecéus começou como um projeto pedagógico formado por estudantes egressos do curso de teatro da ETEC de Artes para servir de referência àqueles que estivessem em formação.

Ao longo dos anos, a companhia teve oportunidade de participar de diversos eventos de teatro com diferentes produções englobadas dentro de seu tema principal “América Latina: Memória e Território”.

Dentre elas, o FETESP 2022 com “Crônicas 1”, o Festival Vamos que Venimos Brasil 2022, com “Lembre de Mim” e uma apresentação da peça “Travessias”, de Carolina Maria de Jesus, no Museu da Língua Portuguesa. Todas essas produções partiram de experimentações cênicas pensadas a partir da memória em diferentes âmbitos e com as oficinas não foi diferente.

Integrantes da Companhia de Teatro Sobrecéus (Foto: Bárbara Lo Prete)

A tentativa de resgatar memórias afetivas dos participantes com o parque e, ao mesmo tempo, criar novas através da arte está sendo registrada por uma equipe de filmagem, também custeada pelo edital, com o objetivo de produzir o documentário “Dia de Visita”.

Além do registro da mão na massa, o documentário contará com entrevistas com participantes, oficineiros e a participação de Maurício Monteiro e Nadja Silva, dois funcionários do memorial do Carandiru, egressos do sistema penitenciário que antes funcionava ali.

O fechamento desta série de atividades acontecerá no próximo sábado, 13, das 14h às 17h no Parque da Juventude, ao lado da ETEC de Artes com uma instalação chamada de Pipaço.

“Esta é uma ação em memória às vítimas do massacre do Carandiru. As pipas tem muitos significados para a pesquisa da Cia. Sobrecéus, porque é uma metáfora de vôo, era um dos trabalhos manuais executados pelos internos do Carandiru no Pavilhão 7 e também é uma brincadeira que compõe a paisagem da periferia em que eu cresci. Como o cárcere tem estreita relação com as periferias, escolhemos a pipa como símbolo para essa ação”, descreve e convida Mayra.

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