Viral nas redes sociais, a colaboração entre o rapper Xamuel e a marca de maquiagens Luna Beauty trouxe ao público a discussão sobre maquiagem e gênero, dividindo opiniões.
Por Daniel Souza
Na letra do jingle, o parágrafo “maquiagem é pra quem quiser”, seguido pelo questionamento “ué, mas isso não é coisa de mulher?”, evidencia a visão social majoritária que existe sobre o assunto.
Utilizados para realçar traços, esconder “imperfeições” ou mesmo expressar sua arte com criatividade, os cosméticos oferecem aos seus usuários infinitas possibilidades. No entanto, devido à construção do que é feminino e masculino, a maquiagem é vista por muitos como algo a ser utilizado apenas por mulheres.
Com registro de sua existência desde 3000 a.C., o processo de se maquiar tem origem no Egito antigo, com o kohl, um pigmento preto utilizado para dar destaque à região dos olhos.
Produtos de beleza também foram utilizados séculos posteriores, na Grécia e em Roma, sem distinção entre homens e mulheres. Entretanto, após a queda dos grandes impérios e, posteriormente, com a ascensão da Igreja Católica na Idade Média, apenas nobres passaram a utilizá-los.
No século XX, com o surgimento de grandes figuras femininas do entretenimento, como Marilyn Monroe, que até hoje é referência quando se fala em beleza, o mercado de produtos cosméticos teve um grande crescimento, se tornando a potência que conhecemos hoje.
Utilizando um recorte de gênero para vendas atualmente, a maquiagem virou um sinônimo de feminilidade, sendo vista por muitos como uma ferramenta restrita às mulheres. Mas, com o avanço nas discussões relacionadas a gênero, sexualidade e preconceito, homens cisgêneros, pessoas não binárias e queers passaram a usar a maquiagem tanto de forma estética, como também artística.

Marcos Pin, aluno de arquitetura da Unesp de Bauru, começou a usar maquiagem há um ano e meio de forma artística. “Sempre considerei a minha cara como um papel, só que uma versão viva. Então, se eu posso fazer isso num papel, posso fazer na minha cara”.
O estudante, até então, se maquiava em momentos mais performáticos, em festas. Hoje, a maquiagem se faz presente tanto em ocasiões sérias, como apresentação de trabalho, quanto em ocasiões descontraídas.
“Às vezes eu gosto de ter uma coisa mais divertida na minha cara, tipo um delineado, às vezes simplesmente para sair de casa, e às vezes simplesmente para me sentir bonito. Eu acho que a maquiagem tem esse potencial de realçar um pouco o rosto, de ressaltar a nossa identidade, a nossa autoestima”.
Tratando-se de uma quebra de padrões sociais, o ato de se maquiar, quando realizado por homens, pode ocasionar em situações de preconceito. Marcos conta que às vezes sai de casa maquiado, e encontra na rua alguém fazendo uma cara de surpresa muito grande e isso causa um choque, pois é algo que ele esquece que está usando.
O estudante de arquitetura diz já ter ouvido alguns comentários pejorativos e reparado olhares tortos em sua cidade, Pirangi. Em Bauru, é algo mais normalizado, mas ainda assim há pessoas que olham para ele com desconforto.
Claudia Martins, 59, aposentada, tem uma concepção diferente sobre o tema. Para ela, cada um tem seu gosto, mas considera algo normal quando se trata de artistas ou celebridades, que precisam se apresentar melhor para o público, ou homens gays. No entanto, não considera normal homens héteros usarem maquiagem.
A concepção de que usar a maquiagem torna o homem “menos homem” é predominante em nossa sociedade, o que contribui para o preconceito quando alguém de gênero masculino faz uso de um artifício considerado feminino.
“Aos olhos da sociedade, isso acaba feminilizando a imagem masculina, que geralmente é muito viril, muito máscula, daquela forma muito simples. Só que pra mim, não tem nenhum sentido, nenhum embasamento, mas não dá para dizer por todos”, comenta Marcos.

“Quando eu estou maquiado e saio maquiado, eu estou realmente mostrando quem eu sou por dentro, independente de sexualidade, de gostos. Eu acho que além de mostrar minha sexualidade, minha identidade, eu consigo transmitir minha identidade artística, minha identidade de liberdade, de sair sem se importar com o que as pessoas vão dizer”, encerra o estudante.
