Edusa 

Na área central da cidade, numa torre, uma garota branca chorava pela injustiça da vida. Além do mais, era esperado que o pai ajudasse a se manter financeiramente. apenas, esperado. Trabalhou a manhã inteira com telemarketing. Ficou triste a tarde inteira. Foi para a faculdade e foi pior. Chorou no banho. chorou de luz acesa e apagada, enquanto a torre brilhava com pisca-piscas. Numa vala, Luciane sorria pelo que tinha. ao menos, tinha algo. A pele escura refletia o cansaço do dia, mas fingia ânimo. Andou desde a manhã até a noite. Andou dois quilômetros para levar as crianças na escola. Tentou construir um centro comunitário com alguns moradores, apenas com tocos de árvores e madeirite. Como tentavam há dois anos. Andou mais dois quilômetros para buscar as crianças. À noite o sorriso vacilava. a fossa que tinha de vaso sanitário ficava assustadora esse horário. a luz, não chegava no seu barraco. Irregular. Era a palavra que ecoava em sua mente toda vez que pensava em sua casa.  

A garota da torre continuava triste e chateada com a injustiça. A outra menina tinha tudo, por que ela não poderia ter? Andava para o trabalho cansada, comia o iFood que “mereço, pois estou triste”, ia estudar na melhor faculdade do país e ia participar do projeto de extensão sobre inclusão social. injustiça. Luciane sabia como a vida dela era difícil, mas podia ser pior. Já viu muita gente morrer de fome e morte matada. Ainda está viva e com um barraco sobre a cabeça. ganhava comida, às vezes. suas crianças comiam bem – na escola. Ia catar reciclável na rua para conseguir dinheiro, também faxinava casa de estranhos e fazia crochê. O descarte de lixo era feito no próprio bairro, ao lado do seu barraco.  

Agradecendo aos céus pela chuva que vinha, a garota da torre acompanhava os céus com suas lágrimas. Luciane se desesperava com a chuva. nada tinha asfalto, apenas terra. terra que virava lama. lama que ameaçava invadir todo o pouco que tinha. Tremia com o choro das crianças e tentava não chorar. Passava a noite acordada com medo de tudo cair, o som de trovões e gritos impossibilitava de se acalmar. sentia falta do barulho de tiros que, normalmente, embalava o seu sono. cantava para as crianças não ouvirem.  

De manhã, agradecia não ter perdido tanto. ia trabalhar. De manhã, a garota da torre ainda pensava na injustiça. ia trabalhar. Luciane pulava as valas e se afundava em lama. descartava o lixo e ignorava os corpos soterrados. agradecia por não ser ela e os filhos. em dias assim, o bairro abandonado parecia pior para as 800 famílias que viviam lá. Luciane se revoltava.  

A garota da torre se sentia cada vez pior. tremia e chorava. vomitava o pouco que comia. tinha diarreias também. passava mal. Luciane tinha uma de suas crianças no braço. Marcinha cresceu rápido demais, e com 12 anos já estava com 8 meses de gravidez. A bolsa se rompera e a menina sangrava. Luciane ligava desesperada para conseguir uma ambulância e não tinha retorno. A garota da torre ainda estava na mesma, mal conseguia andar. Chamou uma ambulância, que chegou em menos de 5 minutos. Marcinha morreu após esperar 5 horas por ajuda. Ninguém subiu. O assentamento ajudou a descer o pequeno corpo. 

Anos se passaram. A garota da torre tirou um ano sabático e depois se formou. ganhava muito e trabalhava pouco. justiça. Luciane lutou pelo mínimo. muito. fez ofícios, manifestações, cobrou a prefeitura, a imprensa, a sociedade. Recebeu promessas vazias e sonhos vazados. Alguém não achou certo. As crianças viraram adultas e catavam e descartavam recicláveis. agradeciam pelos trocados e ignoravam o cheiro insuportável. sabiam que era o corpo de Luciane descartado. justiça. 

Esta é uma história fictícia, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Ou não. 

Eduarda Cardoso de Sá. Edusa. 

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