Por Raquel Freire

Quando sua mãe, aos cinquenta e tantos anos de idade, pede para que você a faça companhia enquanto ela resolve alguns de seus afazeres, quase nenhum motivo é grande o suficiente para que você negue. E é numa tarde ensolarada de uma quarta-feira qualquer que você, então, começa a perceber.

Você acha que será poupada do destino de sua mãe. Como ela sempre lhe contou, ela costumava ter cabelos compridos, sedosos e mais claros, iguais aos seus. Eles atrapalhavam sua visão quando o vento soprava mais forte no fim de tarde, e era com o antebraço dobrado em frente ao rosto, enroscando os fios entre os dedos, que ela podia evitar isso. Ela tinha quadris finos e seu corpo carregava apenas hematomas da adolescência. Quando ela ria, cobria a boca. E quando ela falava, era raro, mas sempre bom. Depois da escola, seu tempo era ocupado com livros e tarefas domésticas. Com suas amigas, tudo era engraçado, e nada era importante. Compartilhava com elas suas comidas, suas tristezas, suas alegrias, e elas, as delas. Ser sua mãe ali era ser apenas uma menina, e isso era tudo.

Sua mãe não se casou tão jovem quanto sua avó. Ela deu prioridade aos estudos e tempo ao tempo para que ele trouxesse alguém digno da confiança de uma família, e isso significa muito, ela te diz. Com um diploma e um emprego, ela iniciou seu novo lar ao lado de apenas uma pessoa, mas foi só quando sua barriga inchou contra o tecido de seus vestidos que ela se olhou no espelho e, pela primeira vez, sentiu a mudança. Ela aprendeu, então, a palavra Mãe. Não no saber, mas no sentir, estando agora do outro lado da chamada. E a cada chamada que ela atendeu, Mãe Mãe Mãe. Tornou-se ela, ainda é ela. Ela diz que não sabia muito bem o que estava fazendo. Que seu irmão chorou, e ela com ele, e quando você veio, ela cortou o cabelo. Ela diz que nunca mais deixou crescer muito. A pele clara ficou manchada, as mãos finas endureceram e sua voz assumiu o tom de uma pessoa que conhece a perda.

Você pensou, sinceramente, que seria poupada do destino de sua mãe?

À medida que o tempo passa, você começa a enxergar o quão internalizado está a premissa de que somos exatamente quem somos em um dado momento da vida. Você foi ensinada que ser jovem, por exemplo, é ser vivaz, enquanto que ser velho é ser recluso. Essa realização surge quando sua Mãe, uma mulher, diz eu também já fui jovem e você ouve da mesma forma que ouve o início de um conto de fadas, ou o fim do sonho da soneca de alguém. Algo distante e obscuro, turvo com o brilho de uma beleza que ninguém além da oradora consegue ver.

Você pensa: nunca deixarei de estudar, mesmo supostamente casada e com filhos. Não deixarei de sair com minhas amigas, tirar fotos sorrindo, aceitar minha vulnerabilidade. Cuidarei da minha saúde para nunca conhecer a doença. Eu darei, e serei boa, e perdoarei, e seguirei minha verdade. Eu não vou cortar meu cabelo tão curto, nem sentir falta de algo ou alguém por muito tempo. Não vou me afastar daqueles que amo. Vou ser acolhedora, como minha Mãe. Serei leal e verdadeira e defenderei o que acredito, como minha Mãe. Mas eu nunca, jamais, cometerei os erros da minha Mãe.

Assombra você o pensamento de que toda mulher é uma Mãe, enquanto todo homem é apenas um menino. Que não é sem razão que as lições parecem ser mais pesadas somente no pescoço de um gênero. Que quando sua história cessa, se torna sem importância, insignificante, estereotipada, a deles se expande. Para um homem há vida depois dos filhos, e antes, e sem. Não há erros a serem cometidos que não possam ser corrigidos com o tempo, que é tão amável sem o tique-taque do relógio que soa apenas no ouvido da mulher. Na dor de cada mês, você já é feita uma Mãe na sombra, na promessa. E é a mulher que dói, e sofre, e queima, feita para aprender as lições que os homens nunca precisarão, pois eles são apenas um menino, e você… Você, uma mulher, uma Mãe.

A imagem de, um dia, uma filha, começa a consumir você. Ela tem seus olhos, mas o olhar de seu pai. Embora ela seja amorosa e gentil, há coisas que ela sabe que você não sabe. Ela vem de você uma pessoa inteira formada e, ainda assim, ela não é inteiramente sua. Mas você ainda tenta reivindicá-la, então liga para ela, para contar histórias de como você está agora. Você se pergunta se isso vai decepcioná-la, o que ela aprende. Você sabe que ela vai crescer longe de você, e você deve deixá-la, na esperança de que ela se vire e veja, olhando para trás, algo que ela entenda, do jeito que você faz agora.

Você acha que será poupada do destino de sua Mãe, mas veja como seus quadris já começaram a crescer e como seus cabelos já escureceram. E quando você abre a boca para falar, você pode ouvir a maneira como você já assumiu a voz de alguém que sabe das coisas, uma voz não muito diferente da sua Mãe.

Deixe um comentário