Laura Hirata-Vale

É preciso encarar o que evitamos. Sejam eles sentimentos, emoções, lados de nós que não queremos conhecer. Em 2021, Luke Hemmings – o vocalista da banda australiana 5 Seconds of Summer – lançava When Facing the Things We Turn Away From, seu primeiro disco solo. E, em meio a reflexões cheias de dor, sinceridade e autoconhecimento, recebemos um trabalho singelo, cheio de detalhes bonitos e sons marcantes. Numa jornada de percepção, o cantor se força a se conectar com suas sensações mais obscuras e profundas, que se escondem no fundo do peito e da alma, sem receberem a luz do dia.

Criado durante o isolamento da pandemia – um dos maiores períodos de reflexão que já passamos durante a história – o álbum retrata, de forma verdadeira, todas as emoções que afloraram na pele naquele momento. Dentre elas, podemos ver o luto por causa da mudança – como o perceber que você não é mais a pessoa que era antes, que sua antiga versão não é mais viva, mas uma parte de seu âmago –, a depressão e a tristeza; a saudade e o arrependimento; as dúvidas da juventude e raiva que vem junto com elas. Com versos de partir o coração, a coletânea de doze músicas funciona como um relato pessoal de Hemmings, e foi recebido com muito amor pelos fãs

A narrativa musical começa com as leves teclas de piano de Starting Line, lançada como o primeiro single do disco. Repleta de sonoridades animadas, baterias ritmadas e ondas de sintetizadores, a música é transcendental. Rápida e cheia de emoção, a faixa de abertura do álbum é uma reflexão sobre o nosso tempo no mundo. Levemente agridoce, a música recorda o fim de um período obscuro, e o começo – ou seria o retorno? – da luz e da vontade de viver; com a noção de que coisas ruins continuarão existindo, mas podem ficar menores em relação ao momento. Com versos que oxigenam o sangue e a mente, os pulmões de Luke Hemmings e de todos os ouvintes se enchem de ar. A música é como um grande suspiro de vida, que nos faz respirar novamente.

O começo dessa jornada de reflexão é complicado, mas, definitivamente, necessário. Eu – a autora desse texto – digo que esse disco foi crucial para minha vida. Ao mesmo tempo que esse álbum era lançado, eu estava há um ano e não-sei-quantos-meses confinada em casa, sem ver meus amigos, grande parte da minha família, cheia de dúvidas em relação ao futuro, enquanto tentava entender o que estava acontecendo e o que havia acontecido. Acho que foi a primeira vez que um artigo de mídia descrevia tão bem o que eu estava sentindo no momento, e conseguir explicar as minhas emoções com a ajuda de When Facing the Things We Turn Away From foi algo interessante, de apaziguar a alma. Agora, chega de falar de mim, e vamos de volta para a crítica!

Indo da rapidez levemente positiva de Starting Line e de Saigon, para a melancólica calmaria de Place In Me, os ritmos do disco são diversos. Vemos, em When Facing the Things We Turn Away From, um Luke Hemmings experimentando musicalmente, e indo para outro caminho em comparação aos trabalhos de sua banda, a 5 Seconds of Summer. Com músicas que beiram experiências de elevação, como Mum e A Beautiful Dream, o cantor-compositor dá passos para o gênero alternativo, com instrumentais orquestrais, esotéricos e cheios de genialidade.

Como confissões íntimas, Slip Away, Repeat e Bloodline surgem para estilhaçar qualquer coração, e trazer um mar de lágrimas para os olhos dos ouvintes. Cheio de dor, Luke reflete sobre a vida, e coloca o dedo em feridas que sangram e machucam. Tentar escapar da dor – enquanto se está afundado nela – é algo mais difícil do que parece, e sentir o tempo da vida escorregar entre os dedos, tem um gosto mais amargo ainda. Além disso, Hemmings se encara no espelho, e tenta entender: será que as características de nosso ser são vindas de nosso sangue e de nossa herança familiar?

Foi uma semana infernal. Será que eu saí alguma vez desse quarto?” é como começa o desfecho da caminhada de Luke Hemmings em sua primeira produção solo. A faixa final do disco é Comedown, que chega como um banho de água fresca, e nos lembra que ainda há muita vida para vivermos. “Deixe-me ver todas as coisas que eu deveria ver” e “ilumine uma escuridão, eu nunca fui destinado a isso” foi um ótimo jeito de chegarmos ao fim, pois nos mostra que – mesmo em períodos de escuridão – há uma luz que podemos seguir, para tentarmos sair dessa situação. When Facing the Things We Turn Away From foi – e ainda é – um álbum impactante, que leva a reflexões e a conclusões sobre a vida, a mudança e o amadurecimento.

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