Por Flávia Carvalho de Souza

Para os antigos gregos, Circe era a divindade filha do titã Hélio e da ninfa Perseis, habitante da ilha de Eana e poderosa feiticeira que, dentre suas habilidades de magia, transformava homens em porcos.

Ela apareceu pela primeira vez em Odisseia, poema épico de Homero que relata o regresso de Odisseu após a Guerra de Tróia, mas, sob a perspectiva de um homem, foi retratada como a ninfa submissa à sagacidade do herói: ela já havia transformado o resto da tripulação, mas não ao guerreiro, que foi ajudado pelo deus Hermes com uma erva contra encantamentos e instruído a ameaçá-la com sua espada. Circe implora por misericórdia e convida-o a se deitar com ela, sob o juramento de não o fazer mal. Assim, a deusa deixa de ser a feiticeira orgulhosa para ser aquela que oferecerá banhos e banquetes a Odisseu e seus companheiros, depois que os liberta a pedido dele. 

Na obra de Homero, Circe foi apenas uma coadjuvante que serviu ao protagonista. Quase três mil anos depois, os papéis se invertem na releitura moderna de Madeline Miller e a personagem finalmente recebe a voz e o espaço para contar sua própria história. O livro “Circe: Feiticeira. Bruxa. Entre o castigo dos deuses e o amor dos homens” é um romance de 2018, sucesso de vendas internacional e eleito a melhor fantasia no Goodreads Awards no ano de lançamento. 

A HISTÓRIA DE CIRCE REFLETE O PODER DA AUTOCONSCIÊNCIA FEMININA

Em 27 capítulos, somos convidados a conhecer o passado, o presente e o futuro da deusa. A narrativa em primeira pessoa nos permite caminhar com a Circe em sua jornada de autoconhecimento, cura e amor próprio. As experiências vivenciadas pela personagem, embora místicas, propõem uma reflexão profunda acerca de questões de gênero, identidade, violência, relações afetivas, maternidade e liberdade. É uma história potente, carregada de significados que ecoam na realidade de muitas mulheres ao redor do mundo.

Desde que nasceu, Circe é rejeitada pela família. O desgosto da mãe em relação à primogênita partiu do presságio de que ela se casaria com um príncipe mortal, o que significava, para os deuses, que ela não seria de muito valor. Em uma tentativa de suprir a falta da mãe, ela buscava a atenção do pai, sentando-se aos pés dele nos salões de Oceano, mas o titã do sol não se interessava por ninguém além dele mesmo. Quando seus irmãos nasceram, os gêmeos Perses e Pasifae, a negligência parental somou-se às provocações ofensivas, e a infância de Circe foi marcada pelo trauma do abandono e da importunação. 

“Os dois eram espertos e rapidamente viram como as coisas funcionavam. Adoravam zombar de mim por trás de suas patas de arminho. Os olhos dela são amarelos como mijo. Sua voz é como o guincho de uma coruja. Ela se chama Gavião, mas deveria chamar-se Cabra, de tão feia que é”.

Acostumada ao menosprezo, Circe sentia-se deslocada entre os deuses, ainda não conhecia a dimensão do seu poder e mal reconhecia-se como uma divindade. A primeira esperança que teve de sentir o amor foi quando o último de seus irmãos nasceu, Aietes. O caçula também foi vítima da indiferença da mãe, e Circe teve o prazer de carregá-lo nos braços. Eles cresceram juntos e foram a companhia um do outro, até o dia em que Aietes a abandonou também, e foi tornar-se rei de Cólquida. 

Sozinha novamente, Circe foi a única de seus irmãos que restou. Pasifae havia se casado com Minos, filho de Zeus e rei de Creta, enquanto Perses também havia partido para ser o rei de uma terra distante. Sem marido e sem um reino para si, Circe passa seus dias sentindo-se insuficiente e desejando uma vida melhor. 

É então que conhece Glauco, um pescador que desembarca na praia que ela costumava frequentar, e esse fascínio pelo mortal faz com que a deusa tente mantê-lo sempre por perto. Ele acredita erroneamente que Circe está abençoando sua pesca e encanta-se por sua gentileza, passando a visitá-la todos os dias. Mas quando as redes começam a diminuir, ela o vê se afastar. Os primeiros traços de uma dependência emocional aparecem quando a deusa corre para implorar pela ajuda da avó, a ninfa Tétis, para que abençoe a pesca de Glauco realmente. Assim, ele retorna, e a ingenuidade de Circe não a permite perceber que se encontra em uma relação de interesse. 

“Desejei ser uma deusa de verdade para poder lhe oferecer baleias numa bandeja dourada, e ele nunca me deixaria escapar”.

Ela demonstra curiosidade em saber da história do homem e anima-se com os momentos que tem ao lado dele, mas lembra-se de que é um mortal e não suporta a ideia de perdê-lo. Em uma tentativa desesperada de eternizá-lo, Circe consegue transformá-lo em um deus marinho, mas acredita que o poder veio das raízes da flor que utilizou, e não de si mesma. Glauco, orgulhoso em sua nova forma, começa a frequentar os salões de Oceano, acreditando que virou um deus do dia para a noite porque era o seu destino. 

Imaginando que agora não haveriam obstáculos entre os dois, Circe espera que ele a peça em casamento, e é tirada de sua ilusão amorosa quando percebe que Glauco sente-se atraído pela ninfa Cila. Enciumada, ela prepara outra poção e a leva para o lago onde Cila costumava se banhar, pensando que a transformaria em uma ninfa feia. Mas o que aconteceu foi um erro que atormentaria Circe pelo resto de sua vida: uma criatura horrenda e faminta de doze pernas e seis cabeças emergiu da água, a nova forma monstruosa de Cila seria responsável pela morte de marinheiros por gerações.

Circe é humanizada através de um sentimento incomum aos outros deuses: o arrependimento. Ela reconhece que agiu pelo impulso de suas emoções e com o coração envolto em amargura, e decide confessar ao pai que foi ela quem transformou Glauco e Cila. A princípio, Hélio não acredita que a filha teria esse poder, afinal, ele a vê como a pior deles, “esmaecida e quebrada”, mas logo descobre que seus irmãos possuíam habilidades semelhantes. Apesar disso, somente Circe foi punida. Ela é acusada de traição por usar seu poder contra o próprio povo e é condenada por Zeus a viver em exílio eterno na ilha de Eana.

Um castigo que deveria tirá-la a liberdade é justamente o que fará com que Circe se liberte. Agora adulta, sozinha e longe dos abusos da família, ela descobre mais de si mesma e da magnitude de seu poder, começa a estudar cada planta da ilha e ocupa suas horas testando diferentes poções e feitiços. É na solitude que ela se dá conta de sua força e coragem, e faz de Eana um lar infinitamente melhor do que aquele de onde veio.

“Eu não serei como um pássaro criado em uma gaiola, pensei, entorpecido demais para voar mesmo quando a porta está aberta.

Entrei naquela floresta e minha vida começou”.

Mas o exílio não impedia que outras personagens fossem visitá-la. Assim, ao longo da história, o caminho de Circe cruzou-se com o de muitas figuras da mitologia grega, e essas interações contribuíram para a construção da protagonista e um enredo emocionante. Ela conheceu sua sobrinha Ariadne, o talentoso arquiteto Dédalo e seu filho Ícaro, o deus mensageiro Hermes – com quem manteve relações casuais durante um tempo, por carência e conveniência –, e teve rápidas interações com Apolo e Atena. Ninfas consideradas desobedientes por suas famílias eram enviadas à Eana para um período de isolamento, e marinheiros famintos desembarcavam constantemente em busca de repouso e alimento.

Como na vida real, Circe aprendeu que nem todo homem é confiável. Ela ofereceu boa hospitalidade aos primeiros que chegaram, servindo-os com banquetes e deixando que ficassem pelo tempo necessário, até o dia em que foi violentada sexualmente. Como um golpe em sua confiança e generosidade, ela teve de aprender a se defender e fazer justiça por si mesma – foi quando começou a transformar homens em porcos.

“Quando terminava, só restava conduzi-los ao chiqueiro. Eu erguia meu cajado de madeira de freixo e eles corriam. O portão se fechava e eles se pressionavam contra os postes, seus olhos suínos ainda úmidos com as últimas lágrimas humanas”.

É nesse contexto de autodefesa que Circe, enfim, conhece Odisseu. Como coadjuvante nessa releitura, o guerreiro desperta o interesse da deusa e sente-se atraído por ela também, é convidado a ficar e aceita. Não há ameaça nem submissão, mas acordo e benefícios mútuos. Tornam-se amigos, e depois amantes. Eles aprendem um com o outro e ela o deixa partir quando chega o momento, mesmo tendo adquirido sentimentos genuínos por ele.

“Ele me mostrou suas cicatrizes e em troca deixou-me fingir que eu não tinha nenhuma”.

Dessa união nasceu Telégono, mas Odisseu não veio a conhecê-lo. A maternidade também representou um novo desafio para Circe, talvez um dos maiores que a deusa já enfrentou. Ela pariu e criou um filho mortal sozinha, sofreu com a depressão pós-parto e com todas as mudanças que essa nova fase lhe trouxe. Mas, sobretudo, vivenciou o amor verdadeiro pela primeira vez. E era recíproco.

Próximo do fim do livro, Circe ainda conheceu Penélope, esposa de Odisseu, e Telêmaco, filho primogênito deste. Não houve ciúmes nem rivalidade feminina, mas uma troca de ensinamentos poderosa. Àquela altura, Circe já havia passado por transformações internas que a tiraram de um lugar inseguro para um lugar de paz.

Em uma caminhada de altos e baixos, a escrita poética de Madeline Miller e a sensibilidade com que aborda temas tão atuais fazem o leitor se compadecer das dores de Circe, entender as motivações de seus erros e amar a construção dessa personagem que é intrinsecamente humana.

Forte, corajosa e livre. Todas as mulheres do mundo podem se ver em Circe.

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