“Sempre vista como um objeto sexual”, presidente da FENAJ afirma que já foi assediada por fontes e colegas de trabalho
Por Maria Gabriela Oliveira
Os avanços na representação feminina em áreas como a política e a comunicação devem ser reconhecidos, mas direitos fundamentais para o exercício do jornalismo ainda são influenciados pelo gênero e, como resultado, as mulheres jornalistas enfrentam um “duplo desafio”.
Essa é uma das questões levantadas pelo estudo “Mulheres jornalistas e liberdade de expressão – Discriminação e violência de gênero contra jornalistas no exercício da profissão”. O documento foi feito pela Relatoria Especial para Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
O estudo leva em consideração diversos tipos de violência contra mulheres, como assassinato, violência sexual, intimidação e abuso de poder.
Segundo a CIDH, os atos de violência de gênero mais comumente relatados por jornalistas são: agressão verbal, violência psicológica, exploração financeira e violência física. Das entrevistadas, 44% disseram ter sido vítimas de um ataque virtual.
No Brasil, a raça também influencia o tratamento a jornalistas. O CIDH pontua no relatório que, no Brasil, o racismo agrava ainda mais as dificuldades enfrentadas por jornalistas.
O estudo cita uma pesquisa do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) da qual 500 mulheres foram entrevistadas. Destas, 86% afirmaram que jornalistas negras tinham menores chances de ascensão na mídia tradicional.
Se analisarmos os perfis nas redações brasileiras, o que predomina são as mulheres brancas entre 31 e 40 anos, moradoras de São Paulo, solteiras e sem filhos.
Samira de Castro, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), observa que desde que ingressou na área, em 1997, sempre sofreu diversos assédios, mas que na época não entendia como tal.
“Naquela época, sofríamos muito assédio, mas não tínhamos consciência do que aquilo se configurava, de fato. Eu fui assediada por fontes, colegas de mesmo nível hierárquico e até superiores. Sempre vista como objeto sexual”, explica.
A presidente ainda afirma que duvidavam de sua capacidade pelo simples fato de ser mulher e jovem, mas que a partir do contato com outras jornalistas mais experientes, foi ganhando consciência de que os acontecimentos eram abusivos.
Samira de Castro também foi presidente do Sindicato dos Jornalistas no Ceará e conta um pouco da experiência. “Eu observava nas negociações que os representantes das empresas se dirigiam aos homens que estavam sentados à mesa e não a mim. Por diversas vezes eu tinha que dizer a eles que quem mandava na negociação do lado dos trabalhadores era eu e não o meu assessor jurídico ou economico”, relata.

Samira de Castro, presidente da FENAJ
Com relação a ser mulher e jornalista dentro de uma redação de um veículo de grande porte, em áreas consideradas campo de saber masculino, Samira afirma que existe um estigma de machismo e misoginia. Em sua fala, cita como exemplos as áreas de economia, esporte, política e segurança pública.
Segundo ela, as maiores dificuldades enfrentadas pelas mulheres jornalistas no Brasil são o excesso de jornada ocasionada pelo acúmulo de tarefas de trabalho e lar, o atravessamento do machismo, da misoginia e do sexismo.
“O jornalismo é um espaço de poder. E por isso, os homens brancos, cis, heteros e patriarcais não querem que nós mulheres ocupemos esse espaço”, afirma a presidente da federação.
Para ela, os meios para superar essas formas de discriminação e opressão contra as mulheres no jornalismo é a autoorganização e a organização sindical. “Nós precisamos de mais mulheres nos sindicatos, nos espaços de decisão e de poder. Como vamos pensar em uma política voltada para as mulheres se não estivermos nos espaços sindicais?”, conclui.
