Mesmo com o crescimento de diversas vertentes e subgêneros, o movimento permanece forte em sua essência
Por Ivan Rossi

Como diz o rapper Dexter, além de ritmo e poesia, o rap é a revolução através das palavras, o único ritmo musical capaz de reunir 30 mil pessoas para ouvir artistas falando sobre causas sociais e raciais.
Toda luta social praticada por esse movimento no Brasil, desde o final dos anos 1980, vem rendendo resultados. O rap deu voz (e autoestima) a grupos socialmente desfavorecidos, historicamente silenciados, sendo frente de referência para a cultura negra.
Hoje, graças à evolução de diversas vertentes e subgêneros, há um crescimento do público que consome rap. A maior vertente no Brasil é o Trap, cujas faixas frequentemente estão no top 1 do Spotify, além de carregar o título de “maior estreia de uma música no Youtube Brasil”. Essa popularização do rap causou algumas mudanças que não agradaram uma parte da velha guarda, que diz que o movimento se tornou diferente do que era quando nasceu, alcançando um público de “playboy”. O rap para muitos virou pop.
Esse fenômeno de popularização proporcionou diversas manifestações que anos atrás eram impensáveis quando falamos da cultura hip hop. Existem hoje, por exemplo, páginas de “rap” com pensamentos conservadores, influencers se intitulando como “rappers de direita”, além de um público branco que ignora a luta social e ainda ironiza a militância, presente na cultura desde sua origem. Podemos até observar policiais fazendo “reacts” e ganhando dinheiro em cima do movimento. Tudo isso nos faz pensar: o que aconteceu com o rap?
O rap ainda é o mesmo, com uma proposta de resistência ainda maior, considerando a expansão do movimento. Obviamente um crescimento tão grande iria trazer um novo público e, com isso, pessoas que tentam, assim como no samba, se apropriar e moldar o ritmo para fins comerciais. Mas assim como o samba, o rap agoniza, mas não morre.
Hoje, conseguimos ter acesso, no rap, a sons para todos os gostos. Nomes do Trap como o de Raffa Moreira e Recayd Mob são capazes de animar contextos de festa, com músicas e estéticas que reforçam a autoestima do público. Porém também conseguimos encontrar artistas que têm o compromisso de defender o rap, lutar pela causa social e principalmente racial em diversos aspectos do seu trabalho.
A tradicional cena do rap preocupada com as causas sociais e raciais sempre permaneceu viva em nomes que continuam rimando até os dias de hoje. Racionais, Facção Central, Mv Bill, Dexter e RZO são exemplos de artistas que nunca abandonaram o rap, mas essa cena também foi renovada. Um marco desta renovação foi o lançamento da faixa “sulicidio” de Baco Exu Do Blues e Diomedes Chinaski, em 2016, que abriu os olhos do público para artistas à margem do mainstream dominado por rappers brancos. O surgimento dos movimentos “Ano Lírico” e “Pretos no topo” – eternizados pelos versos de Coruja Bc1 e Baco no cypher “Poetas no Topo 2”, lançado em 2017 – também servem de referência para essa renovação.
Os nomes mais conhecidos pelo grande público são os de Djonga e BK, mas existe uma cena diversa que não chega aos ouvidos do público mainstream. Podemos citar o álbum “Zulu: de César a Cristo (Vol.2)”, o segundo da trilogia “Zulu”, criada pelo rapper Zudizilla. Essa obra é um grande exemplo dessa resistência, como citado no verso da música “Tela em branco”: “Cena recheada de encenação, eu taco fogo, essa é a ópera preta, três atos sobre a trajetória do preto que conseguiu burlar o sistema para que continue preto”. A música “fod*se o rap”, composta por RT Mallone e BRK Mallone, especialmente na parte rimada por RT, é também uma expressão dessa crítica. “A verdade é que o Hip-hop é uma preta num trem lotado, o rap ficou rico e ainda é seguido no mercado”. Há uma constante tentativa de embranquecimento do rap, como se este pudesse ser um movimento sem posição e sem militância, sem classe e sem cor. Mas o rap se mantém forte, apesar de tudo. Parafraseando Nego Max, “ouvi dizer que o rap não tem cor, o rap é preto!”. Por isso, eu reafirmo: o rap agoniza, mas não morre!
