Nesta semana, entre os dias 8 e 16, conheceremos o campeão mundial de surfe da temporada 2023.

Por Gabriel Turolla

Desde 2014, quando Gabriel Medina se tornou o primeiro campeão mundial do país, o Brasil se tornou de vez a casa do surfe mundial. A “Brazilian Storm”, como é chamada a geração de surfistas brasileiros da última década, pode conquistar no Finals o sétimo título dos últimos nove anos com Filipe Toledo, líder do ranking da WSL, ou João Chianca, o Chumbinho.

Além dos brasileiros, as ondas de Trestles na Califórnia recebem o surfista americano Griffin Colapinto e os australianos Ethan Ewing e Jack Robinson, na disputa pelo título de campeão mundial.

Formato

Gabriel Medina e Carissa Moore, primeiros campeões do formato do Finals. Créditos: Pat Nolan/World Surf League.

Desde 2021, a World Surf League decide seus campeões em um formato de eliminatórias. Chamado de Finals, o evento acontece em dia único com baterias alternadas entre os cinco surfistas melhores ranqueados durante todo o circuito. 

A primeira bateria é a disputa entre os surfistas que se classificaram para a etapa final em 4º e 5º lugar durante a temporada regular. O Vencedor, encara o 3º colocado. 

Depois, o vencedor dessa bateria encara o surfista número 2 do ranking e, finalmente, o “sobrevivente” dessa eliminatória em formato de “cascata” encara quem foi o líder do ranking ao término do circuito completo das etapas do mundial.

Para o número 1 do ranking, se tornar o grande campeão da temporada, é preciso vencer apenas uma disputa. Mas diferentemente das anteriores do dia, nessa o surfista precisa levar a vantagem numa melhor de três, vencendo duas baterias para se consagrar campeão.

O formato é polêmico entre atletas e especialistas, por resumir a um único evento todo o resultado da temporada. Para o comentarista do Sportv, Diogo Mourão, o formato mais justo seria o que definisse o melhor surfista do mundo em variados tipos de ondas e não apenas o da grande final, como é Trestles.

“Se você fizesse (o Finals) em Teahupoo ou Pipeline seria um resultado, se fizesse em Bells Beach seria outro. Imagina fazer em Sunset, por exemplo, onde o Kelly Slater (maior campeão da história do esporte) nunca venceu uma etapa sequer. Ele não ganharia.”

Mas apesar disso, Diogo ressaltou que mesmo que alguns surfistas não gostem desse modelo, outros já afirmaram publicamente que aprovam. É o caso do bicampeão mundial John John Florence, que disse gostar da adrenalina que o evento causa.

A praia

Lower Trestles, a mais democrática das ondas. Créditos: WSL.

Pelo terceiro ano consecutivo, o palco da decisão será a praia de Lower Trestles, na Califórnia, conhecida como a onda mais democrática do circuito. As ondas de lá costumam ser muito semelhantes umas às outras e são férteis para os mais variados tipos de manobras. Se em águas como a do Surf Ranch ou Pipeline o surfista precisa dominar o estilo específico das ondas formadas, em Trestles o fator natureza não é tão decisivo como em outras etapas.

Apesar disso, Filipe Toledo costuma se dar muito bem nas ondas para a direita do local. Com seu surfe agressivo de borda, Filipe chegou na final nas últimas duas edições da etapa e, por ser o líder novamente, já garantiu a terceira. Em 2021 foi derrotado por Gabriel Medina, que se tornou tricampeão mundial, e em 2022 venceu o também brasileiro Ítalo Ferreira, se sagrando campeão do mundo pela primeira vez na carreira.

Filipe inclusive foi o último campeão da etapa de Trestles inclusa no circuito regular, em 2017. 

Filipinho busca o bicampeonato

Filipe, campeão mundial pela primeira vez em 2022. Créditos: Mark Rightmire.

Assim como na edição passada, Filipe chega como o nome a ser batido e o surfista mais próximo do título mundial, já classificado para a disputa final.

Em 2023, Filipe foi consistente do começo ao fim: campeão em Sunset Beach, El Salvador e J-Bay, Filipe esteve no mínimo nas quartas-de-final em 7 das 10 etapas disputadas.

Filipe ainda foi espetacular somando 26 notas excelentes (acima de 8.00) durante todo o ano, o que resulta em uma média de quase três notas excelentes por etapa. Venceu 74% das baterias que participou, além de abrir mais de 8.000 pontos para Griffin Colapinto, o 2º da tabela.

Filipe, assim como Griffin, é surfista local de Trestles, onde mora com a família e outros diversos atletas da WSL. O desempenho de Filipe em Trestles deixa os especialistas impressionados, o que o coloca como favorito ao bicampeonato em território bastante conhecido.

“Se ele surfar o que sabe, não perde pra ninguém em Trestles, principalmente porque são (necessárias) duas vezes. É muito difícil alguém ganhar do Filipe duas vezes nessa onda.” – ressaltou Diogo.

Quem pode “jogar água no chopp” de Filipe?

Griffin chega como principal concorrente de Filipinho. Créditos: Beatriz Ryder.

A principal ameaça ao Filipe, muito pela semelhança de estilos, é o americano Griffin Colapinto. Griffin, além de ser surfista local como o brasileiro, cresceu nas ondas californianas e pode aprontar diante da apaixonada torcida americana. Os aéreos e o surfe de borda fazem parte do repertório vasto do talento americano, que busca seu primeiro título mundial em casa.

Mas, mesmo com todas essas credenciais, o favoritismo ainda é de Toledo. “Filipe é mais rápido, um pouco mais agressivo que o Griffin e consegue cravar mais a borda”.

Colapinto ainda precisa garantir sua vaga na disputa final. Para isso precisa enfrentar e vencer o ganhador da bateria entre Ethan Ewing (que vai pra Califórnia mesmo sem condições totais de disputa, devido uma lesão) e a bateria anterior, entre Jack Robinson e o brasileiro João Chianca.

Chumbinho tem chance?

O garoto João Chianca já entre os melhores do mundo. Créditos: Leandro Amorim.

O outro brasileiro na disputa é João Chianca, o Chumbinho. Em apenas sua segunda participação na elite do surfe mundial, Chianca já começa a se destacar entre os grandes nomes da modalidade, se classificando para o Finals na 4ª colocação, além de carimbar sua vaga olímpica para a disputa de Paris 2024.

O caçula da Brazilian Storm com apenas 22 anos é a grande promessa verde e amarela para os próximos anos do esporte.

Para o seu primeiro Finals, Chumbinho acaba largando um pouco por fora na corrida pelo caneco, já que para se sagrar campeão, precisa vencer todos os outros surfistas e “escalar” a chave no formato cascata, o que é mais improvável. Em 2022, Ítalo seguiu caminho parecido com o que precisa fazer Chumbinho: venceu três baterias mas acabou terminando a competição em segundo lugar, perdendo a grande final para o próprio Filipe Toledo.

Os critérios abordados pelos juízes também dificultam a vida de João, que precisa mudar um pouco o estilo de surfe para ter notas melhores. Polêmicos durante os últimos anos, os avaliadores da WSL tendem a valorizar um estilo de surfe mais progressivo e de borda, mas da sua maneira. Após resultados controversos, a organização prometeu valorizar também outros estilos de onda, como a de Chumbinho.

Para Cássio, dono do perfil “Cassiolímpico” no Twitter, a entidade maior do surfe tem um histórico de anunciar mudanças e fazer o de sempre. “Eles falaram que vão valorizar os aéreos, mas acho difícil eles mudarem o que eles fizeram o ano todo”.

Por isso, João Chianca acaba começando com uma leve desvantagem, já que os outros quatro competidores “sabem fazer o que a WSL quer ver”.

Quando acontece?

Na tarde desta sexta-feira (8), a WSL soltou o “sinal amarelo”, que consiste num alerta emitido 24 horas antes de um possível “dia on” para a realização do Finals.

Com isso, a disputa que era prevista para acontecer próximo da quarta-feira, teve uma reviravolta e com o tempo propício, pode ser realizada amanhã.

A próxima chamada acontece então nesta manhã de sábado, às 11h30, quando saberemos se o campeão mundial será decidido ao decorrer do dia ou em outra data da janela.

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