O silêncio ensurdecedor dos grandes atletas do esporte vem gerando discussões, especialmente quando se trata de questões sociais e políticas relevantes.

Por Bruno Vila Costa
O futebol, esporte mais popular do mundo, possui uma influência global e milhões de fãs apaixonados. Dentro desse cenário, os jogadores de futebol são figuras de destaque, idolatradas e acompanhadas atentamente por pessoas de todas as idades e origens. O esporte sempre esteve entrelaçado com a política. Ao longo da história, vimos exemplos de como o esporte pode ser usado como uma plataforma para protestos e para a promoção de mudanças sociais.
Desde a luta contra o apartheid na África do Sul, quando ocorreu um boicote esportivo internacional, até os protestos silenciosos realizados por Colin Kaepernick durante o hino nacional dos Estados Unidos, o esporte tem sido um terreno fértil para o ativismo político.
“Pelo fato de terem muita visibilidade e serem referências para crianças e jovens, seu engajamento poderia dar mais visibilidade a temas relevantes — sobretudo os sociais, colaborando na criação de oportunidades para pessoas vulneráveis ou lutando contra o racismo, por exemplo.” (Fernando Beagá)
E quando perguntado sobre os motivos de tal ausência de opinião pública ele acrescentou: “Creio que por falta de repertório, principalmente, por um conjunto de fatores que varia de uma educação precária na infância à indiferença pós-fama, quando o jogador foca a vida extracampo em consumo e entretenimento. Também se deve considerar que os astros do futebol, atualmente, têm um ambiente controlado de relação com a imprensa e de geração própria de conteúdo. Portanto, eles raramente são expostos a perguntas incômodas. E vale uma ressalva: aqueles que se posicionam enfrentam a forte repercussão das redes sociais, principalmente em relação à polarização Lula-Bolsonaro — e essas reações devem inibir aqueles que seguem calados.”, reforça o jornalista
Contudo, nos últimos anos, temos notado uma tendência entre os jogadores de futebol de evitar posicionamentos em questões políticas sensíveis. Essa falta de atitude política pode ser atribuída a diversos fatores. Em primeiro lugar, a pressão exercida pela mídia e pelos patrocinadores pode levar os jogadores a adotarem uma postura mais conservadora. Eles temem que expressar opiniões políticas controversas possa prejudicar suas carreiras ou resultar na perda de contratos de publicidade lucrativos.
Além disso, muitos profissionais simplesmente não se sentem preparados ou suficientemente informados para se envolverem em debates políticos complexos, já que o mundo político é cheio de nuances e controvérsias.
Kfouri: “Aplaudo esportistas se posicionando, deploro que seja a favor do Bolsonaro”
Em uma entrevista dada ao jornal Brasil de Fato, o jornalista Juca Kfouri reflete sobre a falta de politização no esporte e rechaça a volta do futebol.
É importante destacar que, ao optar por não se posicionar, os jogadores de futebol perdem a oportunidade de usar sua influência para chamar a atenção para questões sociais importantes, levantar debates e promover mudanças positivas. Ao permanecerem neutros, esses atletas podem estar desperdiçando uma plataforma valiosa para amplificar vozes marginalizadas e inspirar ações coletivas.

Felizmente, há jogadores que estão rompendo com a tendência de neutralidade política. Nomes como Megan Rapinoe, capitã da seleção feminina de futebol dos Estados Unidos, têm usado sua visibilidade para levantar questões relacionadas à igualdade de gênero e justiça social. Ela se tornou uma defensora incansável dos direitos LGBTQIAPN+ e tem usado seu status para promover mudanças significativas dentro e fora do campo.
Érika Alfaro de Araújo, jornalista e doutoranda no Programa no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unesp, que realiza pesquisa com foco no jornalismo esportivo e suas relações com a questão de gênero e autora do livro “Mulheres em Campo: Gênero no Jornalismo Esportivo Brasileiro”, quando questionada sobre o motivo da diferença do futebol feminino ser mais presente em causas sociais do que a masculino ela disse: “Na minha leitura, a razão é a diferença de vivências, tanto no futebol quanto em outros âmbitos da sociedade. No campo do esporte, existem os dominantes (homens) e os dominados (mulheres). A falta de posicionamento, muitas vezes, está relacionada ao conforto do privilégio e ao julgamento da não necessidade de mudança”, e finaliza mencionando que “No caso das mulheres, o simples fato de elas escolherem uma carreira no futebol já pode representar o despertar para a consciência das desigualdades de gênero na sociedade e, consequentemente, para a importância do engajamento em pautas políticas…”.
No Brasil, um exemplo notável é o jogador Richarlison, que tem sido ativo nas redes sociais ao abordar questões como a preservação ambiental da Amazônia e a situação dos povos indígenas. Sua postura de engajamento político tem sido elogiada e tem gerado debates importantes.
Reconhecer que cada jogador tem sua própria jornada e suas motivações pessoais é importante. É fundamental respeitar a liberdade individual de cada atleta, mas também incentivar e apoiar aqueles que optam por se posicionar.
Alan Tomaz de Andrade tem estudado sobre o racismo e foi consultado a respeito do racismo no futebol, após recente caso com o jogador do Real Madrid, Vinicius Jr. “A falta de posicionamento dos jogadores, times e outros setores do esporte sobre violências interseccionais, cria um pano de fundo de legitimidade dessas violências, já que, se os jogadores e os times não repudiam tal crime, quer dizer que “ele não existe”. O racismo no Brasil é um crime velado, durante séculos, o estado brasileiro preferiu criar uma cortina de fumaça sobre as violências sociais ao invés de resolver essa problemática. O posicionamento das pessoas em campo é um reflexo desse tipo de política imediatista e não aprofundada para superação das violências.”.

A sociedade como um todo também tem um papel importante a desempenhar. Devemos criar um ambiente em que os jogadores de futebol se sintam seguros para expressar suas opiniões, independentemente de serem populares ou controversas. Os clubes, as federações esportivas e os patrocinadores devem reconhecer que os atletas têm o direito de expressar suas opiniões e se envolver em causas que considerem importantes. A Lei Pelé (Lei 9.615/98) foi importante ao dar a abertura para manifestações políticas nos esportes.
O que diz a Lei Pelé?
“A Lei Pelé (Lei 9.615/98) tem como principais objetivos promover o desenvolvimento e democratização do esporte, proteger os direitos dos atletas, estabelecer normas para a gestão dos clubes, regular as relações trabalhistas no esporte e incentivar a transparência e profissionalização na sua administração.”

- 1961: É criado o Instituto Nacional de Desportos (IND) no Brasil, com o objetivo de regulamentar e desenvolver o esporte no país.
- 1975: O governo brasileiro sanciona a Lei nº 6.251, conhecida como “Lei do Passe”, que estabelece o sistema de transferências de jogadores de futebol e o vínculo com os clubes.
- 1993: A Lei nº 8.672, mais conhecida como “Lei Pelé”, é promulgada, revogando a “Lei do Passe” e introduzindo uma série de mudanças significativas no futebol brasileiro.
A Lei Pelé representa um marco importante na história do futebol no Brasil. Ela introduz o princípio da autonomia do atleta, permitindo que os jogadores sejam donos de seus próprios direitos econômicos.
Em última análise, o debate sobre a falta de posicionamento político dos jogadores de futebol é complexo e envolve uma série de fatores. É um tema que requer uma reflexão profunda sobre os valores do esporte e o papel dos atletas na sociedade. Ao promover um diálogo aberto e respeitoso, podemos avançar em direção a um ambiente em que os jogadores de futebol se sintam encorajados a usar sua influência para promover mudanças positivas e enfrentar questões sociais e políticas relevantes.
