A trajetória de pessoas queer no mundo político que lutam por seus direitos
Por SOPHIA GARCIA GONZAGA
No mês do orgulho LGBTQIAP+ é importante celebrar a história de pessoas que conquistaram seu espaço na política, apesar das dificuldades impostas a todos que fogem do padrão dominante no senado e no congresso brasileiro. Histórias como a de Erika Hilton, que foi a mulher trans mais votada na câmara municipal paulistana, e de Carolina Iara, a primeira pessoa intersexo eleita na América Latina, inspiram pessoas queer e pretas a entrarem na política e lutarem por suas pautas.

Erika Hilton teve uma trajetória difícil até alcançar seus objetivos. Ela foi expulsa de casa aos 14 anos, morou na rua e, para garantir sua sobrevivência, teve que se prostituir. Sua vida se cruzou com a política em 2015, após uma disputa com uma empresa de ônibus que se recusava a colocar seu nome social na passagem.
Desde então, Erika teve sua ascensão na mídia e com suas falas sobre os direitos LGBTQIAP+ se filiou ao PSOL e se elegeu como co-deputada em 2018. Mesmo conquistando muitos votos em 2020 e sendo a vereadora mais votada em São Paulo, seu caminho continuou sinuoso e ela sofreu com diversos ataques virtuais e ameaças a sua vida mesmo dentro da Câmara Municipal de São Paulo. Ela foi perseguida por um homem mascarado com símbolos religiosos.
A primeira mulher trans a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal paulistana agora exerce o cargo de Deputada Federal e realiza projetos para combater o preconceito sofrido pela comunidade LGBTQIAP+ e equidade de direitos e acesso para a população negra.

Outra importante ativista pelos direitos das minorias é a co-deputada estadual Carolina Iara, a primeira pessoa intersexo a ser eleita no território latino-americano. Nascida intersexo, ela passou por diversas cirurgias durante a infância para “consertá-la” e passou sua vida toda sofrendo com preconceito e desinformação sobre o assunto. Para acolher mais pessoas como ela, em parceria com Thais Emilia Santos, fundou a Associação Brasileira Intersexo em 2019. A Organização sem fins lucrativos luta para promover os direitos humanos das pessoas intersexo no Brasil, através da conscientização sobre variações sexuais.
Em 2014, enquanto trabalhava no Hospital Tatuapé oferecendo suporte para vítimas de violência, recebeu o diagnóstico de HIV. Mesmo após passar por um choque tão grande, ela não se permite desistir da luta. Carolina é a única pessoa com HIV no parlamento, e utiliza sua soropositividade como uma das pautas e militâncias que realiza em tal espaço.
Atualmente, atua na política e integra a bancada feminista do PSOL, e busca criar espaços para pessoas que, assim como ela, não se encaixam nos padrões. Em entrevista à revista Universa Uol, a co-deputada afirma: “a existência do corpo de uma mulher intersexo, negra, travesti e vivendo com HIV, por si só, representa um ato político”.
Mas a ação dessas mulheres não está concentrada apenas na Câmara, e são capazes de inspirar vidas a trilhar caminhos similares. O estudante e membro da “Juventude do PT” Thiago Henrique dos Santos Alves se identifica como um homem gay e conta um pouco da sua trajetória na militância e a importância da representatividade em cargos de poder.
Segundo Thiago, a presença de pessoas LGBTQIAP+ como ele na política significa que as necessidades dessa comunidade serão ouvidas. “Me sinto acolhido e visto nos holofotes de maneira realmente representativa”, disse.
O estudante de Publicidade e Propaganda diz que sempre se interessou pelo assunto, desde os 14 anos já devorava livros de Karl Marx. Quando conheceu a organização “Juventude do PT” se encontrou dentro do ambiente militante e participou de diversas passeatas e inclusive conheceu o atual Ministro da Fazenda Fernando Haddad.

Mesmo não desejando desempenhar cargos administrativos, Henrique planeja se especializar em Comunicação Eleitoral e Marketing Político, trabalhando diretamente com os políticos os quais ele se identifica, como Erika Hilton, que é uma das suas maiores inspirações. “Quem me impulsiona a seguir essa carreira é a Erika Hilton, mulher trans a qual eu admiro muito o posicionamento político, ideais e a eloquência na fala”.
Thiago explica também que “a representatividade nos torna mais bem vistos e valida nossa luta diária por respeito e igualdade, principalmente para mudar os estereótipos que a comunidade LGBTQIAP+ carrega por frutos do preconceito enraizado no Brasil”.
