Alvo de críticas desde o começo de sua atuação no Brasil, sua premissa de preservar o sigilo do usuário é colocada em xeque quando a lei se impõe.
Por Lucas Amaral

Telegram sobreposto sobre teclado escrito “Fake News”. (Reprodução pt.or.br)
No dia das mães de 2019, a ex-deputada Manuela d’Ávila teve sua vida mudada para sempre, com prints de mensagens do que viria a ser talvez o vazamento mais importante pós- redemocratização do Brasil: um hacker a abordara com uma afirmação quase surreal, ele havia obtido acesso ao aplicativo de mensagens das figuras centrais da investigação Lava Jato e o conteúdo que encontrou tinha força para mudar o país para sempre. O aplicativo? O Telegram, personagem que faria parte de muitos outros momentos históricos brasileiros.
Seja pela importância das informações que foram dadas ao Brasil, seja pela falta de prestações de contas de outras informações, é preciso reconhecer o papel relevante que o Telegram tem assumido nos últimos anos e com isso, a enxurrada de críticas que vieram acompanhadas. Quando fundado em 2013 pelos irmãos russos Pavel e Nikolai Durov, o aplicativo definiu como sua diretriz irremediável a liberdade de expressão. E hoje, talvez sua maior premissa, seja também, seu maior problema.
Há não muito tempo atrás, o evento mais relevante para esta matéria tomava palco: as eleições presidenciais de 2022. Marcada por polarização jamais vista na República, iria definir os rumos definitivos do país. Em seu centro, dois personagens que não poderiam ser mais antagônicos, mas ainda sim tão igualmente populares, talvez as figuras mais populares da história da política brasileira, Jair Messias Bolsonaro e Luis Inácio Lula da Silva.
O resultado dessa disputa é de conhecimento de todos os brasileiros. O candidato do Partido dos Trabalhadores foi eleito em segundo turno, com uma margem apertada, a mais disputada de todos os segundos turnos. Mesmo com um mandato de forte repressão popular, Jair Bolsonaro demonstrava sua força. Entre outros motivos, a forma como o ex-presidente e seus correligionários conseguiram se apropriar das mídias sociais para vender sua campanha foi crucial, principalmente com a ajuda dos aplicativos de mensagem. Aí que novamente está o Telegram, o app serviu como um QG digital para o bolsonarismo organizar estratégias de campanha e definir para onde iria o foco das narrativas praticamente em tempo real, à medida que novos fatos iriam acontecendo na disputa eleitoral.
Após o fracasso na tentativa de reeleição, estava na hora de uma nova estratégia, insuflar discursos golpistas para deslegitimar o resultado das eleições. Através do Telegram, bolsonaristas radicais clamavam por “paralisação geral”. Apenas em único levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), mais de 7 mil arquivos de canais e grupos de extrema direita no Telegram foram encontrados. Entre eles, os canais do ex-presidente Jair Bolsonaro e dos deputados Nikolas Ferreira (PL-MG) e Bia Kicis (PL-DF). A maior parte do conteúdo antecede as manifestações golpistas de 8 de janeiro, em Brasília, e os dias seguintes às invasões e depredações das sedes dos Três Poderes.
Oferta de ônibus grátis para a “festa”, pedidos para invasão das praças dos três poderes para que as Forças Armadas declarassem intervenção militar, tudo isso sob o pretexto da “Tomada de Poder Pelo próprio Povo”. Como resultado, móveis foram quebrados, obras de arte centenárias foram vandalizadas, prédios históricos foram depredados e mais, a democracia brasileira foi golpeada.
Com tamanhos antecedentes ruins é de se questionar como o Telegram chegou a esse ponto. A professora do curso de Jornalismo da FAAC/UNESP, Liliane Ito, estuda há anos as mídias sociais e durante a greve dos caminheiros conduziu uma pesquisa específica sobre o Telegram. Para ela, as redes sociais de modo geral oferecem aos usuários uma falsa impressão de anonimato e seguridade para cometer crimes, mas o Telegram possui características ainda mais atrativas.
“As características específicas do Telegram enquanto uma rede social permite a facilitação de disparo em massa de desinformação. No Instagram você pode criar grupos, listas de mensagens, mas ele ainda é um aplicativo de conversação no qual as pessoas precisam ser colocadas dentro desses grupos, no Telegram por si só você busca os grupos, muito são públicos”, explica.
Quando questionada sobre o que as Big Tech ‘s teriam a ganhar estando ao lado da desinformação ela é taxativa, abrir mão dos dados de seus usuários seria liquidar sua maior “commodity”. “As empresas de tecnologia poderiam tratar o perfil psicológico mil vezes melhor que nossos psicólogos, por meio de cada dado, do rastro que deixamos em nossas pesquisas, até o tempo que paramos pra ver cada anúncio. Então eles ganham de uma maneira indireta, Lucas, o marketing digital, ou comércio digital já está no mesmo patamar do Comércio que o comércio tradicional”, finaliza.
Agora, o aplicativo se encontra no que tem tudo para ser a sua última cruzada. Ambos, Congresso Nacional, por meio da PL 2630, e Supremo Tribunal Federal, este pelo inquérito das Fake News, se mostram determinados a acabar com o clima de “terra sem lei” que se impôs no Telegram nos últimos anos, construindo regulamentações base para a atuação das redes sociais no país. Se cumprirão ou não, não é possível saber, mas ao que depender do Ministro da Justiça, Flávio Dino, para aquelas que não cumprirem o caminho é claro: “Se for necessário requisitar inquérito contra as plataformas na polícia federal, eu faço”.
