No Brasil, grupos combatem o sexismo, buscam representatividade política e oferecem apoio às vítimas de violência doméstica
por Isadora França

Os coletivos feministas têm se movimentado para representar as mulheres na luta pela emancipação do gênero no Brasil. Eles podem ser definidos como grupos que se organizam para acolher e lutar de forma ativa pelos direitos da mulher. Esses círculos se estruturam hoje, sobretudo, pela necessidade que identificam em relação a políticas públicas direcionadas às cidadãs, e mais ainda, por representarem, muitas vezes, um centro de acolhimento e apoio para as vítimas de violência doméstica em solo brasileiro.
As representantes desses grupos buscam auxiliar as vítimas de violência a procurarem ajuda e a fazerem denúncias. Além disso, as organizações são reconhecidas por participarem de atos e manifestações. Elas também propõem debates de ideias e promovem palestras e rodas de conversa. Em alguns casos, os coletivos ainda podem participar ativamente da política, se afiliando a algum partido.
Também é relevante destacar o fato de que as associações feministas possuem diferentes reivindicações e métodos de atuação, a depender do local em que suas representantes vivem. Sobre isso, se tratando dos coletivos feministas brasileiros, em específico, é considerável compreender que existem disparidades entre estes e os coletivos que atuam em outros lugares do mundo.
Para abordar essa questão, Nathalia de Assis Silva e Francimeire Leme, cofundadoras da Revista Helenas, contam um pouco sobre suas vivências e perspectivas como feministas. De acordo com Nathalia, a Revista Helenas é uma iniciativa que possui um caráter amplo, com frentes pautadas na comunicação e na promoção de eventos artísticos e norteados pelo viés político e conscientizador, envolvendo mais mulheres na cidade de Bauru e região. O projeto é derivado do antigo coletivo Manas, organização feminista que nasceu em decorrência do Comitê de Combate ao Machismo, na cidade de Bauru.
Perguntada acerca das diferenças que nota entre os coletivos feministas brasileiros e aqueles atuantes em outros países, Francimeire destaca que teve contato com coletivos da Argentina e que a maior diferença está no desempenho ativo e independente dos grupos.
“As argentinas transformam toda a violência machista que sofrem diariamente em protesto e luta. Um dos movimentos mais conhecidos é ‘Ni Una Menos’, em memória de todas as mulheres vítimas de feminicídio. Esse movimento liderou a Campanha Nacional pelo Direito ao Aborto Legal, Seguro e Gratuito: ‘Educação sexual para decidir, anticonceptivos para não abortar’, com uma atuação intensa e conquistando o direito à legalização em 2021”, salienta.

Francimeire sublinha, inclusive, a situação de impotência que os coletivos brasileiros vivem em relação às decisões dos partidos políticos. “No Brasil, acredito que os coletivos feministas estão engessados pelas decisões dos líderes e acordos que os partidos (notadamente, de esquerda) possuem com o governo”, pontua.
“Além disso, a naturalização do machismo é reforçada pelas religiões predominantes no país, a partir da família patriarcal. Isso se reflete na obrigatoriedade da função social da mulher de casar e ter filhos, abandonar seu trabalho/estudo para ‘cuidar’ da casa. Essa é a história das nossas mães, avós, bisavós… Não por decisão própria e sim por obrigação social”, afirma Francimeire.
Como já mencionado, uma das razões que justificam a atuação dos coletivos feministas está nas demandas que identificam em relação a políticas públicas direcionadas às brasileiras. Sobre esse ponto, Francimeire enfatiza: “Atualmente, há cotas [relativas à participação de mulheres] no Congresso e outras tribunas parlamentares, no entanto, há uma ausência gigantesca de programas para as mulheres. Ou seja, programas que atuem no combate efetivo à violência doméstica, promoção de autonomia financeira feminina, com mais postos de trabalho, combate a desigualdade salarial entre homens e mulheres, promoção para a ascensão a cargos de liderança femininos, políticas de conscientização a métodos anticonceptivos femininos e masculinos. Esses são alguns exemplos”.
Desse modo, a falta de apoio político com o objetivo de diminuir as estatísticas que mostram a diferença das posições dos gêneros em diversos cenários da sociedade também se destaca como fator motivador em relação à atuação dos coletivos.
Ademais, Nathalia menciona outros fatores que determinam a importância da atuação dos coletivos feministas no Brasil. “O fato de o Brasil ainda estar ‘atrasado’ no debate de algumas pautas já garantidas em outros países, tidos como mais desenvolvidos e/ou mais atrelados à luta por direitos humanos faz com que os coletivos feministas nacionais ainda necessitem debater questões primárias como licença maternidade/paternidade; igualdade salarial; cargos de liderança”.
Segundo ela, essa circunstância coloca o país um passo atrás da luta, embora explique que as feministas brasileiras não devem desistir, mas buscar questionar e alterar a atual dinâmica da sociedade. “Portanto, espaços para compartilhar ideias sobre os movimentos feministas (no plural, uma vez que, existem várias vertentes) faz com que a adesão seja ampliada e a conscientização alcance mais e mais mulheres”, conclui.
