Por Flavia Tofoli

Sócrates durante a Copa do Mundo de 1982 (Foto: REUTERS)

A história prova o contrário do ditado popular. Desde a popularização desse esporte entre as camadas populares no século 19, o futebol tornou-se aclamado em todo o globo. Seja pelo amor ou ódio à modalidade, é fato que em certa escala todos já foram ao menos uma vez embalados pelas emoções do futebol. Sendo assim, não há rota de escape que impeça que esse esporte não conflua com o conjunto de problemáticas sociais. 

“A história do futebol se confunde com a história de nações, por exemplo: o uniforme da Itália é azul em homenagem à monarquia italiana. Quando houve a ascensão de Mussolini, você tem em um curto período de tempo a mudança do uniforme azul para o uniforme preto, que faz a associação aos camisas-negras da Itália (grupos paramilitares fascistas). Logicamente, isso acabou por conta do contexto da Segunda Guerra Mundial e eles voltam a usar camisa azul, explica o professor de história e sociologia Lucas Almeida de Souza.

Com a democratização do futebol no século 20, “os governos passaram a utilizar o esporte como elemento de propaganda política, principalmente, como uma política de pão e circo”, explica o professor. 

A dicotomia entre futebol e política continua após o fim da Segunda Guerra Mundial. A FIFA adota como estratégia diplomática a proibição da participação de parte dos países aliados ao Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Dentre os países do Eixo, apenas a Itália pôde continuar com o mérito de participação devido ao fato de anteriormente ter sido a seleção campeã. Ainda assim, a Europa em recessão e destruída após a guerra não elevou os ânimos com a volta da competição. Com isso, nenhum país europeu candidatou-se para sediar o evento.

Diante disso, surge a oportunidade do Brasil ter seu grande momento. Durante o pós-guerra, o futebol já era um esporte em ascensão no país. Aliado a isso, a boa campanha da seleção em 1938 já empolgava os torcedores. De modo que, em 1950, o Brasil  – sendo o único país a se candidatar – sediou pela primeira vez a Copa do Mundo FIFA. O governo da época, presidido pelo general Eurico Gaspar Dutra, queria trazer ares desenvolvimentistas ao país. Sendo assim, sediar um evento de tamanha acepção era uma oportunidade vista não somente pelo viés de consolidar o país no esporte,  como também de promover o Brasil como grande potência econômico-social. 

Tendo em vista isso, a camisa amarelinha brasileira também não escaparia da sua relação com a política. E, após perder a final da competição no estádio do Maracanã, as facetas do racismo enraizado no Brasil vieram à tona também em campo. 

“Nesse contexto do Brasil sediar (a Copa do Mundo),  o país foi para uma final no Maracanã contra o Uruguai, no qual perdeu (o Brasil) de 2 x 1. Temos todas as estruturas do Brasil como uma sociedade ainda de um racismo estrutural, pois quando o Brasil perde essa final em 1950, temos a mídia massacrando o goleiro que era o Barbosa, e colocando a culpa nele, principalmente, por ele ser negro”, conta o professor.

Almeida ainda ressalta que são nítidas, neste contexto, que a rechaça ao goleiro Moacir Barbosa, evidencia o histórico do país com as políticas de etiquetamento durante o governo Vargas – que proibia a entrada de africanos, judeus, ciganos e japoneses. Agregado a isso, a política de embranquecimento da sociedade brasileira muito amalgamada pelo darwinismo social – falsa ideia científica que propunha o embranquecimento da sociedade como forma de progresso – no final do século 19 e início do século 20, buscavam corroborar para tentativa de legitimar a culpa de Barbosa na derrota do Brasil. 

O professor ainda afirma que “o ato de você culpar o  Barbosa pela derrota no Maracanã em 1950 demonstra como o Brasil ainda não superou os laços do colonialismo e da escravidão e, praticamente, todo o racismo estrutural que se construiu no país”. Apenas em 2006 a seleção brasileira voltou a ter um goleiro negro, o responsável pela quebra deste paradigma foi o goleiro Dida.

  Apesar do uso político do futebol como mecanismo de dominação de massas para apaziguar os ânimos das mazelas sociais, muitas vezes, servindo como política do pão e circo. Mas também, como instrumento de continuidade da manutenção de sistemas discriminatórios. Todavia, esse esporte tenta provar o contraponto desse tipo de manejo social. 

Durante a ditadura militar de 1964, mais uma vez a insurgência política recai sobre o futebol, se por um lado os governos militares tentam novamente apropriar-se do esporte como alçada política, por outro lado ocorrem os movimentos contrários a essa dinâmica.

“Quando o Estado estava apropriando o uso político do esporte, automaticamente, temos os movimentos de resistência. Temos, por exemplo: o movimento da Democracia Corinthiana,  praticamente, lutando contra ditadura; o Flamengo pró-diretas e também temos a associação de vários jogadores criticando o governo; o Sócrates se torna um dos grandes exemplos disso – quando fazia um gol e estendia o braço direito para cima com o punho fechado – fazendo um símbolo de resistência contra a ditadura”, aponta Almeida.

Diante dessa conjuntura histórica, a Copa do Mundo do Catar não foge à regra quando tratamos da dualidade entre futebol e política. Pois, foi marcada por polêmicas e contradições. Assim, deixando mais claro do que nunca a intrínseca relação entre um e outro, visto que ambos os temas estão fadados ao campo dos jogos de interesses e a disputa de poder, que, por sua vez,  englobam a sociedade.

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